Sobre a atual crise no País: todos estão certos, e todos errados

Demorei a me posicionar sobre este assunto, porque é muito complexo e há diversas variáveis em jogo. Mas, agora, depois de ler opiniões de todos os lados, creio que dá para fazer uma análise, não digo isenta, mas ao menos desapaixonada.

A paralisação dos caminhoneiros obteve de cara o apoio da população, porque todos acham que alguém precisaria fazer alguma coisa, mas ninguém se dispunha a ir colocar o guizo no leão. Ótimo para a maioria quando alguém põe o pescoço a prêmio por todos.

Veja que não falo em greve, pois entendo greve o movimento que os empregados fazem para obter melhorias perante os patrões. Caminhoneiros, em grande parte, são autônomos. Os que são empregados e pararam certamente o fizeram com a concordância das empresas.

O governo federal não contava que a paralisação ganhasse corpo como ganhou. A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) não foi inteligente o suficiente para detectar. E o governo demorou demais a tomar consciência da gravidade da situação e a se mexer para fazer algo. Complicou mais por ser um ano eleitoral. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato a presidente pelo DEM, aliado de Temer até outro dia, aproveitou para tirar uma casquinha, embora falando a coisa certa: para salvar o caixa do governo, Temer aumentou a alíquota do PIS-Cofins em 2017 e não fará mais do que a obrigação em reverter isso e até zerar a alíquota para o diesel e reduzir para a gasolina e o etanol.

Por mais que sejam justas as reivindicações dos caminhoneiros, por mais que isso seja uma luta que é de todos, a coisa tomou tal grau de gravidade, que as consequências estão sendo tão intensas, que considero correta a decisão de colocar as Forças Armadas para forçar a desobstrução das estradas.

A falta de combustível para os carros é perfumaria; dá para quebrar o galho de algum jeito, em boa parte dos casos. O aumento no preço dos produtos alimentícios é grave, mas não é incontornável. Grave mesmo é não conseguir levar medicamentos e insumos básicos para hospitais; cirurgias tendo de ser adiadas; faltar combustível para o Samu, ambulâncias e para viaturas policiais. Ainda que digam que materiais já faltavam na rede pública, é evidente que a situação piorou com a paralisação. A falta de coleta de lixo pode trazer incalculáveis prejuízos para a saúde pública se perdurar por muito tempo. Enfim, há uma série de problemas advindos dessa situação, que são mais graves do que a mera dificuldade de locomoção para as atividades cotidianas.

Familiares de caminhoneiros têm postado que eles não estavam bloqueando as estradas, apenas parados ao longo delas. Acontece que em muitas rodovias a própria fila de caminhões impede que outros veículos circulem. Então, faz todo sentido que seja aplicada a lei para normalizar o tráfego nesses locais. E também que a Polícia tome providências, quando alguns impedem que caminhões saiam de alguma empresa, como houve casos na região de Cumbica, em Guarulhos.

A decisão de muitos de permanecer parados por não se sentirem representados pelas entidades que assinaram o acordo com o governo tem certa lógica, porque é natural que não haja lideranças totalmente legítimas em uma categoria tão grande, com tantas vertentes diferentes.

Em resumo, os caminhoneiros têm razão em querer parar, porque a situação estava mesmo absurda. O povo tem razão em apoiar os caminhoneiros, porque o que eles reclamam afeta a toda a população. Rodrigo Maia tem razão em dizer que Temer pode resolver parte do problema sem sequer depender do Congresso. E Temer tem razão ao determinar o uso das Forças Armadas para desobstruir estradas e o acesso às refinarias de petróleo.

Porém, os caminhoneiros perdem a razão quando boa parte do que reivindicam é atendida, entidades representativas, ainda que frágeis, assinam um acordo e a categoria não retoma o trabalho. O povo perde a razão, quando espera que uma categoria lute por uma conquista que todos querem, em vez de ir para as ruas e exigir providências imediatas dos governantes. Maia perde a razão quando, em vez de manter os deputados em Brasília, reunidos, discutindo soluções para a crise, mantém o vício nefasto de trabalhar apenas 3 dias por semana, ainda mais às vésperas de uma semana que tem feriado, quando, pelo que se sabe, geralmente não há atividade parlamentar. Temer perde a razão quando não toma uma atitude sequer para reduzir efetivamente os gastos do governo, como forma de não precisar de tanta carga tributária. As redes sociais, tão úteis em situações como essa, perdem a razão de ser e podem ser até danosas, quando usadas para difundir notícias falsas, replicar como atuais cenas antigas, confundir a mente das pessoas com conceitos furados e atacar a mídia como se fosse responsável pelo que acontece, quando a grande maioria dos profissionais da imprensa está apenas cumprindo seu dever de informar, mostrar os fatos. Há mídia comprometida, suja, facciosa? Sim! Mas imagine se não houvesse liberdade de expressão o quanto seria pior para todo o povo.

Temos um governo fraco, indeciso, que reconhece sua fragilidade quando demora a agir. Temos um povo omisso, que só se mexe quando não tem outro jeito mesmo. Temos legisladores muito mais preocupados em salvar a própria pele e a preservar seus interesses, do que agir em favor de quem os elegeu.

A mudança de tudo isso está na mudança individual do comportamento dos cidadãos, não apenas nos critérios para votar, como também no modo de agir no dia a dia. O Brasil só será uma Nação quando cada brasileiro fizer tudo o que estiver ao seu alcance por um país melhor, sem esperar que os outros façam o que cada um pode fazer.

Valdir Carleto