sábado, 28 maio 2022
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Cordel, o clima cancioneiro

 

Por Talita Ramos

Xilogravuras, sertão, heróis e métricas. Em algum momento da vida, quase todo brasileiro, na escola ou fora dela, já se deparou com uma literatura de raiz, carregada de cultura, ritmo e rimas, feita com a mesma sensibilidade e talento de quem faz uma escultura ou de quem tece os fios em um tear. A essa literatura dá-se o nome de cordel. “A literatura de cordel é uma das manifestações da cultura popular brasileira que retrata fatos e costumes de nosso povo, tendo seu viés mais forte nos folhetos de cordel, que são compostos de estrofes de seis ou sete linhas, obedecendo a critérios de métrica e rima”, explica o poeta, folclorista, cantador, produtor cultural, fundador da Casa dos Cordéis e membro efetivo da AGL – Academia Guarulhense de Letras, João Bosco da Silva, mais conhecido como Bosco Maciel.

Origem
De origem europeia, a literatura de cordel foi trazida ao Brasil pelos portugueses no período colonial, inspirada nos folhetos que ficavam expostos em barbantes, pelas ruas de Portugal e Espanha, tendo o nordeste como seu berço tupiniquim. “Eles eram escritos em prosa, sem obedecer a critérios de métrica e rima. Se baseavam em motivos como dragões, castelos, reis, rainhas e princesas, mas no Brasil, em meados do século XVI, iniciou-se um processo de modificação em seus motivos. Os heróis europeus foram substituídos por heróis regionais como Lampião (destacado por sua valentia), Canção de Fogo e João Grilo (personagens engraçados)”, afirma Bosco.
Segundo o poeta, a literatura de cordel ganhou força no nordeste por tratar dos valores e costumes do povo brasileiro com encantadoras histórias, carregadas de fantasia, além de cumprir outros papéis como o de levar informação. “Fatos históricos eram narrados em folhetos de cordel, dentre outras funções sociais. Isto é facilmente constatado em filmes como O Alto da Compadecida (Ariano Suassuna) e em novelas como Saramandaia (década de 70) e recentemente na novela Cordel Encantado, ambas apresentadas pela TV Globo”, conta.

Quem faz?
Geralmente os cordéis são feitos pelos poetas cordelistas, que escrevem especificamente para esse tipo de literatura, mas há algumas variáveis dessa arte como os cantadores repentistas (que fazem músicas), os emboladores de feira (que fazem rimas de improviso) e o teatro de cordel (feito com bonecos mamulengos), entre outros.

xilogravuraO processo
Além de obedecer à métrica de estrofes com seis ou sete versos em sua construção, geralmente os folhetos de cordel são feitos com ilustrações chamadas de xilogravuras, que funcionam como um carimbo. “A xilogravura consiste em se desenhar a ilustração em madeira (taco) com o uso de canivetes, formando o desenho que sintetiza a história. Em seguida coloca-se este taco na tinta (normalmente tinta preta) como se faz com um carimbo e se transpõe para a capa do folheto”, conta Bosco, que ainda explica que a grande diferença do cordel para a poesia regular está na questão da métrica. “Um poema comum pode ser construído focando a beleza dos versos e a riqueza lúdica de sua história, sem preocupação com os critérios de métrica e rima que orientam a poesia de cordel”, explica.

Cordelistas brasileiros
Segundo Bosco, no Brasil alguns dos principais cordelistas foram Leandro Gomes de Barros (1865-1918) que escreveu a ‘História de Juvenal e o Dragão’ e a ‘Batalha de Oliveiro e Ferrabras’; José Camelo que escreveu o ‘Pavão Misterioso’ e ‘Patativa do Assaré’ (1909-2002); e Zé Limeira (1886-1954), que pode ser considerado o maior dos poetas cordelistas, tendo sua história contada no livro ‘O Poeta do absurdo’ de Orlando Tejo.

Em Guarulhos
De origem nordestina, o poeta Bosco Maciel cresceu influenciado por poetas cordelistas que vendiam sua arte em feiras da Paraíba. Com isso, passou a compor seus próprios cordéis trazendo essa literatura para Guarulhos, onde hoje vive, e transformando-a em um livro. “Em 1968 escrevi o folheto ‘O ceguin’ que trata do Cego Cantador (uma das colunas da cultura nordestina), dentre outras obras. Quando vivia na Paraíba, escrevi folhetos de cordel por encomenda, que tratavam de homenagens e de fatos ocorridos na época e hoje tenho um livro, publicado em 2005, chamado ‘Romanceiro’, que é estruturado em poesia de cordel. Brevemente lançarei um novo livro no mesmo formato, intitulado ‘As narinas do dragão’”, conta Bosco.

Faça você mesmo
Se você é do tipo que gosta de literatura e sonha em ser um escritor, que tal arriscar e fazer seu próprio cordel? “Com muito estudo, esforço e uma boa dose de talento, é possível que qualquer pessoa faça um cordel. Principalmente, buscando enriquecer o vocabulário para favorecer o processo de rimas. É necessário também ter o conhecimento de métrica, que se constitui na montagem de versos com valorização das sílabas tônicas e por fim, carregar a história de fantasia”, Bosco dá a receita.

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