Fotos: Internet

Por Valdir Carleto
e equipe da RG em 2008

O Portal de notícias Click Guarulhos reproduz entrevista concedida pelo autor para a edição nº 32 da Revista Guarulhos, em 2008, quando ele veio a Guarulhos para fazer apresentação de uma aula-espetáculo que lotou o teatro Adamastor Centro.
É uma forma singela de homenagearmos esse grande brasileiro, que por toda a vida defendeu a cultura popular. Que seu legado continue gerando frutos para as próximas gerações.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista. Boa leitura.

RG: Sua gestão como secretário de Cultura de Pernambuco abre espaço para manifestações populares, mais ou menos como é feito aqui em Guarulhos, guardadas as devidas proporções. Como o sr. vê esse embate entre a produção cultural local e a massificada, que é imposta pelos meios de comunicação?
Ariano: Vejo com muita preocupação. Por esse motivo, vejo também com muita alegria qualquer tentativa de unir cultura popular e cultura erudita. Agora, essa cultura massificada, que nivela por baixo, pelo gosto médio, atrapalha tanto os grandes poetas populares do Nordeste quanto atrapalha Shakespeare.

O rap, que é expressão musical da cultura de massa, é considerado por muitos a embolada, devido à improvisação. O sr. vê sentido na comparação?
Existe uma semelhança no começo, já que ambos fazem improvisação. Mas vou dar meu depoimento pessoal sobre isso. Na televisão, caíram na besteira de botar juntos o canto de rap e o embolador. A diferença entre um e outro era tão grande que tive pena do rapaz do rap. O embolador deu uma surra tão grande nele, que me deu pena. Era uma enorme diferença de humor e de presença de espírito, além do que a música da embolada é muito mais interessante do que aquela coisa recitativa do rap. É uma coisa mais recitada do que cantada. Dou um exemplo, para mostrar que não se trata de implicância minha. Gosto muito de música erudita. Gosto muito do Otelo, de Verdi e gosto muito do Dom Giovanni, de Mozart. As óperas têm momentos recitativos, que acho péssimos. E olhe que gosto de ópera. O cantor fica recitando, em vez cantar, e a orquestra dá uma volta só, acompanhando. Essa mesma ruindade que vejo no recitativo da ópera, vejo no recitativo do rap. Tem mais: um grupo francês de rap, que esteve aqui no Brasil, ficou encantado com os emboladores e está cantando agora como embolada. Esse grupo tem agora o nome sugestivo de Les Trovatures (Os Trovadores). Eles estão ligando a poesia improvisada brasileira à tradição medieval, que eles perderam.

Circula na internet um vídeo chamado “Funk do Ariano”. O que há de verdadeiro nessa gravação?
(Risos) Mostrei essa gravação na minha aula, ontem, no teatro (Adamastor)…

Um grupo foi à sua casa para lhe ensinar o funk?
Foi uma pessoa só. Aí eu reproduzi, como uma aula, aquela argumentação. Ficou engraçado. Eram dois sujeitos, um dos quais tem o nome curioso de Jacaré Banguela [site de humor: www.jacarebanguela.com.br]. Mostro o resultado na minha aula.

O que o sr. achou da montagem de “A pedra do reino”, dirigida por Antunes Filho?
Assisti e gostei muito.

Na adaptação para a TV, ficou a impressão de que o diretor aparece mais do que o autor. O sr. concorda?
Não concordo. Realmente, o diretor apresentou a leitura dele. Acho que é um direito, já que se trata de uma transposição de uma arte para outra. Considero o Luiz Fernando Carvalho um dos artistas mais importantes do Brasil atualmente. Ele fez uma obra-prima. Mas o pessoal (da TV Globo) ficou preocupado porque os índices de audiência foram baixos. Mas isso eu avisei desde o começo, para que ninguém esperasse algo como “O Auto da Compadecida”. Eu gostei e faço até uma comparação com o Novo Testamento. Se você pegar o Evangelho de São Mateus, encontra uma narrativa bem linear. Ele começa dizendo “livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi”. Já o Apocalipse é um poema com linguagem bem mais complexa. Usa símbolos complexos, como “via-se um grande sinal do céu, uma mulher vestida de Sol. E a Lua estava sob os seus pés e uma coroa de 12 estrelas sobre a sua cabeça”. Entre esses dois caminhos, Luiz Fernando optou pelo caminho apocalíptico. A obra é imageticamente perfeita. Divido a alma humana em dois hemisférios: o palhaço, que complemento com o poeta; e o rei, que complemento com o profeta. Ele mostrou o personagem como rei e como palhaço ao mesmo tempo. Devemos considerar que a televisão não é somente uma arte. A televisão é uma indústria. Perdemos público, não resta dúvida, mas nem eu, nem o Luiz Fernando Carvalho estamos preocupados com isso. Eu como escritor e ele como cineasta, estamos preocupados em fazer uma boa obra. Perdi audiência para o Ratinho, mas não me preocupo com isso.

Já aconteceu de o sr. escrever uma coisa e o público entender de outro jeito, ou seja, de o sr. não conseguir passar a mensagem que queria?
Não. Isso nunca me aconteceu. Pelo menos os leitores que se afinam mais comigo, todos me entendem e dão manifestação de compreensão muito grande.

Ao que o sr. atribui o fato de estar há décadas sempre tão conceituado e cultuado? Qual o segredo do seu sucesso?
Não acho que tenha tanto sucesso assim, não. Até brinquei quando mostrei o “Funk do Ariano”. Eu disse que estava pensando seriamente em deixar de ser escritor para fazer uma carreira de cantor de funk. As edições dos meus livros são de 3 mil exemplares, enquanto o acesso ao funk na internet já passou de 80 mil. Vou procurar os rapazes do funk e vou dizer para eles: “olha, eu quis mostrar que sabia fazer. Não faço porque isso não presta”. Agora, faço uma distinção entre êxito e sucesso. Veja, por exemplo, três grandes escritores brasileiros: Euclides da Cunha, Augusto dos Anjos e Guimarães Rosa. Os três fizeram menos sucesso do que qualquer banda de rock. Só que “Os sertões”, de Euclides da Cunha, foram publicados há mais de cem anos e todo ano sai uma nova edição. Mesmo as pessoas comuns, que muitas vezes nem leem, sabem que o Brasil tem um livro chamado “Os sertões” – isso é o êxito. Creio que o verdadeiro escritor procura o êxito.

Ao terminar “O Romance d’A pedra do reino”, o leitor fica ansioso pela continuação da história de Quaderna. Quando espera lançar essa continuação?
Estou escrevendo um romance que, se eu conseguir terminar, como imagino, ele vai concluir “A pedra do reino”. Se eu não conseguir, vocês vão ter de se contentar com o que está aí. Para a adaptação de Luiz Fernando, escrevi um final. Não sei se você se lembra, mas Quaderna começa querendo ir preso. A carta anônima enviada ao juiz denunciando Quaderna foi escrita pelo próprio Quaderna, preocupado com o fato de não ter sido preso. Para ele, a prisão lhe daria mais importância. O juiz diz: “você é doido.” Aí, ele diz ao juiz: “já que o sr. me absolveu, me deixe escrever na cadeia, como Cervantes, que escreveu ‘Dom Quixote’ na cadeia”.

A tentativa de resgate histórico faz de Quaderna um herói épico?
Bom, entre as categorias principais da narrativa temos o trágico, que é irmão do épico, do lado doloroso. E você tem do lado risível o cômico e o humorístico. Este é um tipo muito especial, no qual você funde o trágico e o cômico, o doloroso e o engraçado. Eu diria que Quaderna é um herói humorístico, que tem momentos trágicos e momentos cômicos.

Millôr Fernandes, em uma apresentação que fez do sr., comenta suas habilidades como romancista, poeta, dramaturgo, desenhista e professor, entre outras. Em qual atividade se considera mais completo?
Creio que me sinto bem em qualquer atividade, mas se eu tivesse de escolher uma, escolheria a de escritor. Às vezes me chamam de artista plástico, mas sou apenas um escritor que desenha. Artista plástico é esse aí (aponta o sobrinho Alexandre, que o acompanha).

Dizem que Ernest Hemingway apontava lápis antes de começar a escrever. O sr. tem algum ritual que o estimule no processo criativo?
Ariano: Sou uma pessoa disciplinada e gosto de escrever a mão, mas não tenho nenhum ritual, não. Corre a lenda de que Balzac só escrevia à noite, vestido de fraque. Tem um poeta inglês, creio que Tennyson, que gostava de escrever sentindo o cheiro de maçãs podres. Eu escrevo normalmente. Escrevo e reescrevo até chegar a um ponto que acho ideal. Esse aí – mostra um exemplar de “A pedra do reino” – reescrevi umas cem vezes. Esse que estou escrevendo agora, basta dizer que estou escrevendo desde 1981.

Esse que vai ter cinco volumes?
Planejei para isso, não sei se a morte vai deixar. Estou terminando agora o primeiro. Quero que meus possíveis leitores tenham visão do conjunto, mesmo que só fiquem nesse. Mas não vai terminar “O Romance d’A pedra do reino”, não. Isso só se eu conseguir terminar os cinco volumes.

A educação no Brasil é sempre um problema, e o avanço dos meios de comunicação tem contribuído para afastar o aluno do aprendizado tradicional. Ultimamente, não se tem conseguido êxito para fazer com que os alunos gostem mais da escola. O sr., como professor, tem alguma ideia de como fazer o aluno gostar mais de aprender?
Esse problema é universal e não é só no Brasil. O que tem de ser feito é se aliar a eles, fazer com que os meios de comunicação estejam a serviço da educação. Acho que ajuda muito, dependendo de como eles são usados. A televisão é um instrumento maravilhoso. Mas, enquanto ela for uma indústria, será usada para ganhar dinheiro. Aí é que eu acho que cabe ao Estado assumir a função que a Igreja tinha na Renascença. O Estado tem de criar processos que sejam eficazes. Acontece que as nossas televisões oficiais são versões televisivas de “A voz do Brasil”. Para concorrer com a novela, perde feio.

Novela é uma palavra mágica. O sr. acha possível passar mensagens educativas pelas novelas?
Sou a favor, como canal de mensagem. Eu próprio gosto muito de novela. Só não vejo quando é uma coisa muito ruim, como uma chamada “Bang-bang”, que não consegui suportar.

O sr. defende Matias Aires como o melhor exemplo de filósofo brasileiro. Como se enquadra o Tobias Barreto em sua análise?
Tobias Barreto é inferior a Matias Aires porque foi muito marcado por Haekel e Spencer. Desde que Augusto Comte estabeleceu o Positivismo, colocando a ciência como superior à filosofia, houve desvio de rumo péssimo. Não gosto de Comte, nem de Stefen, nem de Haekel. Quando eles afirmavam que a metafísica tinha morrido, Comte colocava a história humana em duas etapas: a etapa religiosa, a metafísica, que era a segunda, e a terceira, que era a científica. A ciência nos séculos XX e XXI fracassou. O homem chegou ao ponto de fazer a bomba atômica. A gente vê que uma das partes da filosofia, a ética, foi abandonada. A filosofia tem o papel fundamental de estabelecer os primeiros princípios, inclusive da ética. Por tudo isso, admiro muito mais Matias Aires entre os pensadores brasileiros do que Tobias Barreto, apesar de admirar Tobias Barreto por outras coisas.

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16 de junho de 1927
Ariano Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa (PB).
1933 a 1937
Após o assassinato de seu pai, o político João Suassuna, sua família mudou-se para a cidade de Taperoá (PB), onde morou de 1933 a 1937. Foi lá onde o então menino Ariano fez os primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo poder de improviso o influenciou de tal maneira que se tornou uma das marcas registradas de sua carreira.
1946 a 1950
Suassuna ingressou na Faculdade de Direito em 1946, na mesma época em que ajudou a fundar o Teatro do Estudante de Pernambuco. No ano seguinte, ele escreveu sua primeira peça, “Uma mulher vestida de Sol”. O então estudante formou-se em 1950.
1955
Ariano Suassuna escreveu a peça “O Auto da Compadecida” , obra que o projetou em todo o Brasil.
1959
Fundou, em companhia de Hermilo Borba Filho, seu parceiro artístico, o Teatro Popular do Nordeste.
1970
Suassuna iniciou o “Movimento Armorial”, cujo foco era o desenvolvimento e conhecimento de formas de expressão populares tradicionais.
1990
Passou a ocupar a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras, em sucessão de Genolino Amado.
1994
O autor, que também era professor universitário, deu aulas até 1994, ano em que se aposentou como professor. Ele também foi secretário de Cultura em Pernambuco durante o governo de Miguel Arraes (1994-1998) e assessor de Eduardo Campos .
2000
Ariano Suassuna recebeu, em 2000, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No mesmo ano foi lançado o filme “O Auto da Compadecida”, dirigido por Guel Arraes, que foi sucesso de público e de crítica.
Fonte: Academia Brasileira de Letras