Por Cris Marques
Fotos: Arquivo Pessoal e Rafael Almeida

O dia não estava dos melhores em um dos parques mais icônicos de Guarulhos: o Bosque Maia. Mesmo assim, Wilson David dos Santos, 56 anos, atleta e militante em prol do esporte, chegou bem animado para nossa entrevista. Além de seu característico carisma, durante as fotos, ele ainda exibia contente um agasalho da prefeitura que o acompanha há mais de 30 anos e já foi usado em treinos, competições e no juramento que fez na abertura dos Jogos Regionais, de 1992.

“O atletismo pra mim foi uma grande alegria e uma das partes mais importantes da minha vida. O que eu sou hoje e todas as conquistas que tive foram graças à minha carreira esportiva”, começava ele a contar a sua história. Quando Wilson nasceu, em 09 de dezembro de 1958, sua família morava aqui, porém, com um pai militar, logo ele se mudou. Com 16 anos, voltou a frequentar a cidade, treinando no Estádio da Ponte Grande e, apenas um ano depois, veio para ficar. Na época, o jogador de basquetebol começou a treinar para provas de corrida de 200, 400, 800 e 1500 metros rasos e revezamentos 4×100 metros e 4×400 metros. E o sucesso veio logo, afinal a garra, a dedicação e o talento já estavam no sangue. “Comecei por influência do meu pai, José David dos Santos Sobrinho, que na antiga guarda civil começou a correr e se destacou. Ele foi campeão na antiga prova dos bairros, que na época era a seletiva para a Corrida de São Silvestre, participou dos Jogos Panamericanos de 63, integrou a seleção brasileira, conquistou o recorde brasileiro dos 1500 metros rasos e o Troféu Brasil nos 800”.

 

Perfil Wilson David dos Santos | Click Guarulhos
Wilson na abertura das Olimpíadas Colegiais Guarulhenses de 1984.

Representando Guarulhos

Apenas seis meses após o início de seus treinos, Wilson já levava um grande orgulho para casa: o Campeonato Paulista Juvenil. Logo depois, sagrou se campeão brasileiro, participou de campeonatos sul-americanos e se tornou o atleta mais novo a integrar a seleção brasileira adulta, com apenas 18 anos. E isso foi só o começo, logo seus títulos começaram a acumular: campeão nos jogos regionais, jogos abertos, estadual, brasileiro adulto e em várias edições do Trófeu Brasil. Além da conquista de diversos recordes: jogos regionais, abertos e paulista, alguns torneios internacionais e recordista internacional no Torneio Semana del Mar, na Argentina, junto com grandes nomes, como João do Pulo e Zequinha Barbosa.

“Quando eu comecei a treinar por Guarulhos, a cidade era manchete nos jornais só por causa de coisas ruins ou escândalos. No momento em que o esporte começou a se destacar, pelo grande grupo de atletas que aqui surgiu, isso começou a mudar a imagem local. […] Pelos países que viajei, sempre levava uma camiseta da cidade, independente se estava competindo por aqui ou por outras seleções. Eu sabia que não poderia usar na competição, mas treinava com ela”.

Olimpíadas e a hora de desacelerar

Em 1984, Wilson concretizou um grande feito: a participação das Olímpiadas de Los Angeles nas modalidades 400 metros raso e revezamento 4×400 metros. “Todo atleta tem o sonho de um dia estar em uma olimpíada, você pode participar de mundial, de Pan, de Sul-americano, mas esse é mesmo o sonho máximo”. Na competição, o melhor resultado veio no revezamento com o 9º lugar e 15 centésimos separando sua equipe da final. “Na época, a marca foi muito boa, inclusive conseguimos bater um recorde paulista, que se mantém até hoje, completando 31 anos no mês que vem”. Depois de tantas glorias, e um tempo considerável focado quase que exclusivamente nessa rotina de treinos e competições, ele se viu tentado a se dedicar mais a sua vida profissional e finalmente terminar sua faculdade de Educação Física. “Em 1985, participei do Campeonato Mundial em Kobe, no Japão, e, em 1986, fui campeão brasileiro universitário, em Maceió. Depois dessas duas provas resolvi que precisava desacelerar um pouco, até porque, na verdade, a gente nunca para”, conta ele que hoje ainda treina para participar de competições na categoria master.

Perfil Wilson David dos Santos | Click GuarulhosIncentivo e militância

Durante toda essa trajetória, Wilson, que também é professor universitário e consultor em administração esportiva, nunca viveu só do esporte, tanto é que é funcionário público desde 1979, mas ele conta que, embora o atletismo seja uma modalidade amadora, os atletas de alto nível podem, sim, ser considerados profissionais e, quando patrocinados, têm uma renda para bancar os estudos, comprar material esportivo e se alimentar bem. “Antigamente, na década de 70, existia uma campanha na cidade, a ‘Adote um Atleta’, que oferecia uma oportunidade por meio de uma bolsa, em dinheiro. E é isso que falta hoje no município: estímulo. Nós temos uma lei de incentivos fiscais voltados para o esporte aprovada há quatro anos, mas que ainda aguarda para ser regulamentada”.

Para ele, que com muito orgulho viveu uma época de ouro do esporte de Guarulhos, a atual situação é uma questão delicada e que ele acompanha bem de perto. Afinal, mesmo de férias se dedicou a apurar, postar em seu perfil pessoal no Facebook e militar em prol das Olimpíadas Guarulhenses Colegiais, que por muito pouco não foram canceladas este ano. “O esporte é uma grande ferramenta de transformação social e, sendo bem utilizado, só traz oportunidades, saúde e bem-estar à população. Eu como cidadão guarulhense [título que recebeu em 1992. Afinal nasceu em um hospital da capital paulista e foi registrado por lá] chamo essa responsabilidade pra mim. Comecei uma luta pelas olimpíadas colegiais, mas, na verdade, é muito mais do que buscar verbas oficiais ou patrocinadores é lutar pelo amor ao esporte e por um legado real. A maioria dos atletas de ponta da cidade foram revelados assim, além de pessoas da mídia especializada e até mesmo artistas”, finaliza ele, justificando a importância da competição.