Imagine viver em um país assolado por um dos maiores desastres naturais sobre o qual se tem notícia, ou estar em um local assolado por uma guerra civil. Como se pode supor, viver – ou melhor: sobreviver – passa a ser algo inviável lá. A saída? Reconstruir a vida em outra nação, de preferência uma conhecida pela hospitalidade de seu povo. Mas há um detalhe nisso tudo: sua nacionalidade não é eurocêntrica ou made in USA. Muito pelo contrário, pois você vem de um dos países mais pobres da América Central ou Oriente Médio. Isso, meu amigo, te transforma em alvo fácil de xenofobia.

A descrição acima causou estranheza e um quê de repulsa, não é mesmo? E se eu te dissesse que os casos acima não aconteceram nos EUA ou em algum país da União Europeia, mas em pleno Brasil, também conhecido, de modo superequivocado, como terra hospitaleira? OK, há exemplos que dão esperança em dias melhores, como o crowdfunding criado para o sírio Talal Al-tinawi conseguir R$ 60 mil e abrir um restaurante – ele conseguiu quase R$ 70,5 mil – e a campanha para um senegalês voltar a atuar como enfermeiro – ele, atualmente operário em uma fábrica de refrigerantes, socorreu uma idosa no metrô no RS. Mas essas são as exceções da regra.

Há pouco mais de um mês, um grupo de haitianos foi alvo de um atentado em São Paulo, sendo alvejados por tiros, tendo escapado com vida por sorte. Na semana passada, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), sempre ele, disse que os refugiados são “a escória do mundo” e estão chegando ao Brasil “como se nós não tivéssemos problema demais para resolver”. Se isso não for um ato xenofóbico, faltam adjetivos para tal.

Pior é pensar que o pensamento de Bolsonaro não é caso isolado. Basta ver comentários em portais de notícia ou, dependendo da (falta de) sorte, ouvir em um churrasco de família falas sobre estrangeiros virem “roubar nossos empregos”. Vamos a alguns pontos: se os estrangeiros fossem estadunidenses ou alemães, por exemplo, dificilmente daria para ouvir isso – vale ressaltar e desenhar que pessoas de ambas as nacionalidades são tão bem-vindas quanto sírios, haitianos e demais povos em situação de vulnerabilidade sociopolítica. Ainda, esses caras vieram reconstruir suas vidas após terem seus países destruídos por uma hecatombe e por uma guerra civil – haitianos e sírios, respectivamente. Estamos falando em falsa simetria, ou seja, a associação de dois contextos de modo ilógico. Nesse caso, o objeto diz respeito a refugiados e desempregos.

Por mais que se diga que os índices de desemprego estejam aumentando – o Brasil passa por uma crise econômica e política, isso é inegável –, pessoas de tais nacionalidades ocupam postos de trabalho que, sejamos francos, não estão na prioridade do brasileiro – algo como um de nossos compatriotas procurar um emprego como garçom na França, para traçar um paralelo. Pensemos, ainda, que descendentes de portugueses, italianos, espanhóis e japoneses, só para citar alguns exemplos, são descendentes de pessoas que chegaram ao Brasil como refugiadas. Esse é, seguramente, o caso de Bolsonaro, só para citar um exemplo. Pessoas afrodescendentes também, apesar de que são herdeiros de escravos e, sendo assim, historicamente alijados de qualquer processo de inserção social – triste, mas incontestável.

Ou seja, se quisermos ser vistos como um povo civilizado, um passo fundamental é deixarmos a xenofobia de lado e, com isso, acolhermos os nossos irmãos sírios, haitianos e de quaisquer nacionalidades – basta ver o exemplo dado pela Alemanha nos últimos dias. E para você, meu amigo xenófobo, um aviso: vai ter refugiado por aqui sim. Se reclamar, vai ter refugiado consertando o seu carro, dirigindo o ônibus que você usa para trabalhar, servir o seu lanche, abrir a sua conta e, quem sabe um dia, ser chefe de seus herdeiros.