Por Amauri Eugênio Jr.

Há uns 20 anos, se alguém dissesse ser possível responder e enviar e-mails, fazer compras, conversar em grupos de bate-papo, tirar fotos e fazer operações bancárias por meio de um celular, essa pessoa seria chamada de louca. OK, à época era inimaginável facilitar tanto a vida com um aparelho que parecia ser mais fruto da imaginação de um lunático ou resultado de um filme de espionagem à “007”. Mas, como diz uma música de fim de ano, o futuro já começou.
Ainda que cause estranheza para uns e outros, já há uma cultura econômica inteira criada a partir de aplicativos, os apps. As startups, empresas em início de operações e voltadas a inovações tecnológicas, e as incubadoras de startups não deixam mentir. Ah, sim: existem empresas desse tipo em segmentos mais diversos, desde para facilitar a oferta de um comércio ou serviço às voltadas a algo de utilidade pública.

Contudo, a cultura dos aplicativos abraça também a diversão de modo bem significativo. Por exemplo, aplicativos como WhatsApp e Instagram, criados a partir de startups, entraram para a vida do brasileiro de modo avassalador. E, se por um lado o WhatsApp agiliza a vida e rende momentos bem divertidos, o aplicativo de fotos tornou-se uma febre entre pessoas que fazem questão de registrar momentos diversos da vida. Se há algo que acontece em abundância na internet, é a zoeira sem limites – não poderia ser diferente com os aplicativos. Nesse caso, o nível de zoeira é polêmico ao ponto de beirar à ocorrência de crimes.
Por fim, fica um lembrete: há aplicativos bastante úteis no dia a dia, mas existem outros que, se não têm a menor relevância, acabam até mesmo condicionando a pessoa a não pensar em tarefas básicas. Isso sem contar o risco de se expor demais na web e passar por situações bem delicadas.
Levando-se em conta esses e outros aspectos, as próximas páginas trazem um raio-X do universo dos aplicativos. Ah! Não precisa fazer download para conferi-los em nenhuma app store.

Grandes poderes, grandes responsabilidades

Pensemos no dia a dia de alguém que usa o smartphone para fazer diversas atividades. O despertador é um app sincronizado a outro, de música, no qual a trilha sonora pode ser alterada quando ele bem entender. Após os tradicionais cinco minutos na cama, verifica a agenda em formato de aplicativo, para se lembrar de quais serão os compromissos e tarefas naquele dia. Feito isso, a pessoa dá uma olhada no app de trânsito, para encontrar a rota menos congestionada entre sua casa e o escritório onde trabalha. Lá, ainda tem de lidar com diversos aplicativos, desde aqueles para uso profissional ao de troca de mensagens, chegando até mesmo, durante os poucos intervalos, a ver se teve um match no app para encontros casuais. Após o expediente, recorre a outros três: um para calcular quantos quilômetros percorreu em sua corrida noturna, outro para lembrar-se de tomar água e mais um para alertar sobre a alimentação de seu cachorro.
O exemplo acima foi usado para ilustrar como dependemos de aplicativos para tudo, desde facilitar tarefas cotidianas a até mesmo nos lembrarmos de cuidados básicos com a saúde. Trata-se de algo natural, ainda mais pelo ritmo acelerado do cotidiano e, sem trocadilhos, ter tudo ao alcance das mãos agiliza a vida. Por exemplo, por meio de um app você pode jogar, encomendar uma pizza ou ler um livro. Tudo depende da finalidade. “O celular está engolindo diversas coisas. Nele, é possível ver televisão, pagar contas, pedir comida ou chamar um táxi. Se antes a pessoa comprava ingresso no site, hoje há o aplicativo para isso. Por exemplo, após comprar, ela pode chegar ao museu e mostrar o QR code [código de resposta rápida]. Ele assumiu áreas que antes não eram tão usadas virtualmente”, explica a consultora de comunicação e mídias sociais Pollyana Ferrari, professora de jornalismo e multimeios na graduação e em tecnologias da inteligência e design digital da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Perdendo o controle

Se há apps que facilitam a vida, por outro lado, outros podem induzir meio mundo a ficar viciado em estar conectado o tempo todo, refletindo negativamente na vida. Por exemplo, até em que ponto é válido ter um aplicativo para se lembrar de tomar água? Isso sem contar que há quem termine relacionamentos por uma mensagem no WhatsApp ou no inbox do Facebook – acredite! Se você for aquela pessoa que para tudo o que estiver fazendo porque há notificações de um grupo de amigos ou porque houve um match no app de relacionamentos, o ideal é praticar o autocontrole e colocar limites. Isso não significa parar de usar o celular, até porque ele é cada vez mais importante no dia a dia, mas vale a pena colocar alguns freios. Por exemplo, que tal desabilitar notificações do Facebook ou do app de mensagens? E por que terceirizar a vida para um ícone na tela do smartphone? “Por que é necessário ter um app para se lembrar de dar comida ao animal? As pessoas esquecem de assumir as próprias responsabilidades”, destaca Pollyana.
Outro ponto a ser citado é a suposta segurança proporcionada pela vida on-line. Há quem pense estar atrás de uma tela, mas há algo para se levar em conta: como se está conectado ao mundo inteiro, a pessoa está exposta (adivinhe?) para todos. Isso pode, dependendo do que acontecer, colocar a sua imagem em risco. Sendo assim, postar tudo sobre a vida, desde fazer check-ins em todos os lugares e narrar todos os momentos da vida, como se fosse um reality show, pode ter um efeito devastador para a imagem dela.

Somos amigos?

Se aplicativos para relacionamentos e socialização tornaram as pessoas mais distantes entre si, eles causaram um efeito colateral curioso: achar que, por ter conversado uma vez com uma pessoa na rua ou ter dado um “olá” para ela, já são grandes amigos até o ponto de compartilhar tudo – tudo mesmo. Mas isso não é positivo. Não mesmo. “Não é porque a pessoa mora a um km que virou amigo e não é por isso que se pode compartilhar todo tipo de privacidade. As pessoas também ficam na zona de conforto. Basta mexer o dedo na tela e traz tudo, desde coisas boas e ruins”, comenta Pollyana, ao citar o típico caso de apps de relacionamentos: “uma pessoa pode ter se casado [a partir de um match] no Tinder ou pode ter se dado mal”, enquanto fala sobre o risco da superexposição e da falsa sensação de segurança. Afinal, é importante lembrar de que, antes de estar em um aplicativo, ela estará a se relacionar com outra pessoa do outro lado da tela.
Mais importante do que ter uma série de aplicativos para facilitar a vida, é importante ter em mente que existe um app gratuito, que não precisa de conexão para ser usado e, mais do que isso, possibilita ter relações no tête-à-tête. Caso não tenham desvendado, esse app se chama Vida. “Se a pessoa passa muito tempo no Facebook, ela tem problema, assim como só fazer tarefas por apps e ter fobia de viver com pessoas. É necessário ter medida para tudo, sem viver nem tão lá, nem tão cá. Por exemplo, ela pode pedir comida pelo aplicativo, mas pode fazer churrasco com os amigos ou ir à feira”, finaliza Pollyana Ferrari.

Artigo retirado originalmente da Revista Guarulhos – Edição 105