O discurso é antigo, mas continua atual

Discurso de formatura do curso de Jornalismo da Universidade Braz Cubas, turma de 1984.

Revirando uns guardados, encontrei o discurso datilografado do discurso que proferi, como orador da turma de 1984 do curso de Jornalismo da então Faculdade, atual Universidade Braz Cubas, de Mogi das Cruzes.

Foi uma cerimônia despojada, no auditório da Faculdade, com os formandos vestidos de forma simples. Entremeei minha fala com versos do poeta cearense Cícero Ferro de Oliveira (radicado em Guarulhos) e, como se fosse um jogral, alguns colegas levantavam-se e diziam um verso do poema, muito significativo na época, de transição do regime militar para a democracia, tempo das Diretas-Já.

Passados 31 anos, creio que a mensagem que busquei transmitir permanece atual. Por isso, faço este registro.

 

Senhores Diretores,

Caros mestres,

Meus colegas formando

Amigos, senhores, senhoras

 

A missão que hoje me é aqui confiada, a de falar representando a voz de muitos, é, ao mesmo tempo, delicada e confortante.

Missão difícil essa de falar aos outros e pelos outros. Porém, é essa mesma missão que buscamos abraçar, todos nós, formandos desta noite, quando escolhemos a apaixonante área das comunicações.

Sei que alguns de nós talvez tenhamos escolhido essa carreira, sem ter a consciência de quão importante é essa missão de falar aos outros; essa tarefa sublime de levar a boa nova aos campos, de pintar de cores alegres ideias e produtos, de inter-relacionar as pessoas numa rede de amizade. Bem-aventurados os que têm a noção exata da importância dessa missão. Principalmente, os que estão se formando bacharéis em jornalismo.

Todo trabalho é digno, desde que realizado com seriedade, e não há que se menosprezar nenhum. Mas, a comunicação social tem em si a faculdade de formar a mentalidade das pessoas, de influir em seu comportamento, através da difusão de ideias e conceitos. Quem tem esse dom pode simplesmente encará-lo como ferramenta de uma profissão qualquer: utilizá-la como lhe mandarem, de sorte que tudo continue como sempre foi.

Porém, se o comunicador tiver consciência da amplitude de sua missão, não se limitará a usar o dom da palavra como quem usa um alicate. Ao comunicador, e particularmente a nós, que ora recebemos a habilitação em jornalismo, a tarefa que temos a honra de assumir é merecedora de todo empenho, para que não venhamos a exercê-la como mera obrigação, mas que a executemos com prazer.

Para que, no final de nossas vidas, possamos olhar para trás e ver uma obra digna, há que não calar frente a tantas coisas que se colocarão diante de nossos olhos. Há que não se curvar diante das acusações e dos rótulos que nos serão impingidos. Temos que exercer nossa função com amor e com coragem, para resistir a tudo que nos ofereçam em troca de nosso silêncio.

Quem exerce o jornalismo pode fazê-lo como um verme ou como um revolucionário.

 

O REVOLUCIONÁRIO

Cícero Ferro de Oliveira

Algemaram-lhe as mãos, mas ele usou os pés

Amordaçaram-lhe a boca, mas ele usou a mímica

Vendaram-lhe os olhos, mas ele usou a memória

Torturaram-lhe o corpo, mas ele venceu a dor

Limitaram-lhe o chão, mas ele usou o espaço

Levaram-no à morte; então ele se eternizou!

 

Da primeira aula da nossa primeira professora no longínquo curso primário até este dia, muitos foram os sacrifícios que tivemos de suportar. Só quem os viveu pode deles ter noção.

Não podemos, no entanto, nos valer desses sacrifícios para querer deixar de lado a humildade, o companheirismo e a gratidão, ingredientes necessários à formação do bom profissional.

Temos confiança de que nossos mestres saberão levar em conta as falhas que tenhamos cometido, nos atos inusitados próprios da juventude; como podem ter certeza de que levamos de todos os nossos professores a imagem de quem procurou transmitir tudo o que estivesse ao seu alcance.

 

Todos nós clamamos por uma sociedade mais justa e por um mundo melhor.

Pois chegou a nossa hora de contribuir para que isso aconteça. A partir de hoje, somos profissionais da palavra e se não soubermos fazer bom uso do que aqui buscamos aprender, de nada terão valido tantas esperanças e tantos sacrifícios.

Que quando falamos em sociedade mais justa, se entenda também que a Educação não seja propriedade de poucos, mas acessível a todos. Que o ensino público e gratuito atinja todos os níveis, para que sobre as próximas gerações não recaiam tantos sacrifícios como os que tivemos de suportar.

Para concluir, quero citar alguns versos do poeta cearense Cícero Ferro de Oliveira:

Ainda que tenha sido absolutamente inútil

Eu cantei

E por alguns instantes, entreguei-me ao sonho

De bombas feitas de rimas,

De minas feitas de flor.

Cantei porque calar já não podia tanta dor,

E a fé que trago contida

Divido nesta partida

Com todos os que resistem

E fazem da justiça seu ofício, seu labor.

Embora nas despedidas

Aflorem ao peito as feridas,

Deixo minha alegria

Aos meus irmãos de esperança,

E a outros que nem mesmo sabem quem sou, e vou.

Que a minha vida é cantar

A liberdade e o amor.

 

Fotos: Gilson Santos Ferreira