Dizem que “Língua não tem osso”, para se referir que as pessoas falam mais do que deveriam. Não tem osso mesmo e sua flexibilidade é devida aos 17 músculos que a formam.
Pois a língua, no sentido da linguagem, a língua que as pessoas falam, também não tem osso e é, portanto, flexível. É natural que os usos e costumes alterem com o passar do tempo o significado das palavras e até mesmo sua grafia. Não custa lembrar que a expressão “você” originou-se de “Vossa mercê”, que derivou para o “vosmecê” com que os escravos se dirigiam a seus senhores e daí para a forma atual.
Mas, sem nenhuma pretensão mais acadêmica, quero registrar alguns casos específicos que chamam a atenção atualmente.

SUSTENTABILIDADE: a rigor, seria “termo usado para definir ações e atividades humanas que visam suprir as necessidades atuais dos seres humanos, sem comprometer o futuro das próximas gerações”. Porém, como o tema meio ambiente passou a ser muito usual no cotidiano, o termo sustentabilidade começou a ser tão repetido, que muitas pessoas começaram a utilizá-la fora desse contexto, como em frases nas quais se está falando de “sustento” e ou de “sustentação”, e não de sustentabilidade. Por exemplo, nestas frases: “As mães precisam cuidar melhor da alimentação para garantir a sustentabilidade dos filhos” ou “São necessárias medidas de contenção de despesas para a sustentabilidade da empresa”.

REALIZAR: tornar real agora que estava apenas no imaginário, no campo dos sonhos. No entanto, tem sido usual aplicar o verbo realizar em frases onde “fazer” cumpriria perfeitamente sua função. “A loja X está realizando uma promoção de Páscoa”, “a Prefeitura realiza operação tapa-buracos”. (Se bem que no caso de Guarulhos, isso realmente é quase um sonho!)

TRÂNSITO: o significado exato de transitar transmite a ideia de movimento, seguir de um lugar a outro. Mas, de alguns anos para cá, ao referir-se aos congestionamentos, os profissionais do rádio começaram a falar “trânsito” nos boletins de informações. E, como são formadores de opinião, os ouvintes acostumaram-se a reproduzir: “Cheguei atrasado, por que estava um trânsito horrível!”. Na verdade, a pessoa quis dizer que havia um grande congestionamento.

POSSUIR: exprime “ter a posse de”, tem sentido de propriedade, algo material. Parece-me sem propósito alguém dizer que “possui quatro filhos”, até porque no jargão policial se disser que “José possui duas filhas” dará a impressão de que ele pratica ato criminoso. É bastante plausível usar o bom e velho verbo ter: “José tem duas filhas”. Vamos deixar o verbo possuir quando falarmos de posses efetivas: “José possui vários imóveis alugados”

AONDE: indica destino e não origem. Então, é errado dizer “Aonde está você?” ou, pior ainda, “Daonde você é?”. “Aonde” existe, é advérbio de lugar e se emprega em frases como esta: “Aonde você pretende chegar falando errado assim?”. Mas, “daonde” não existe.