Há pouco mais de 1 ano e meio, a atriz Renata Konsso e a jornalista e vocalista da banda Luneta Vinil, Elís Lucas, decidiram fazer o monólogo Pássaros Cegos, o qual tem a loucura e a religião como temas centrais. A mola propulsora para esse desafio, que é o primeiro trabalho de ambas no grupo de teatro Escamas de Gente, e que contou com a direção de Débora Scaldelai, resume-se em inquietações existenciais, além de angústias pessoais e sociais.

“Em 2012, quando estudava atuação na SP Escola de Teatro, durante um exercício que se chamava ‘Encontro com o estrangeiro de si mesmo’, saí pelas ruas do Brás para conversar com imigrantes. Diante do pavor de uma boliviana (que parecia achar que eu era alguém interessada em deportá-la), percebi o quanto temos poder sobre o medo do outro, o quanto somos frágeis. E, que a arte, naquele momento, não importava, já que deixara de ser um aprendizado para se tornar uma invasão à vida de outra pessoa. Entendi, depois de muita crise, que precisava falar sobre o que me é alheio, sobre fronteiras… Sobre as dores dos outros que doem em mim”, explica a atriz, sobre o start que desencadeou no monólogo.

Para embasar as ideias, o “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam tornou-se a base, de mãos dadas com Estamira (documentário, 2006); Nietzsche ajudou a colocar o dedo na ferida com sua obra “O Anticristo”, além de “Assim Falou Zaratustra”; Rainer Maria Rilke, com Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, jogou lenha na crise existencial da atriz; e o poeta Samuel Borges a concluiu, sem nem ter tido conhecimento de sua existência. “Pássaros Cegos é o encontro de nossas epifanias. Nossas desconstruções e rompimentos. Quando nos vimos sem chão, flutuamos”, completa Elís, que assina a dramaturgia e sonoplastia da peça (essa última, ao lado do parceiro Edson Luciano).

O monólogo, que está em cartaz até 26 de junho, foi financiado por amigos e familiares via crowdfunding, uma conquista para qualquer artista, que enxerga no financiamento coletivo uma opção para realizar seu trabalho sem depender do poder público. “Em tempos difíceis, Pássaros Cegos mostra que resistir é naturalmente parte do processo, das supressões religiosas, sociais e políticas”, finaliza o cineasta André Okuma, que ao lado de Reiko Otake, toca o SalaB – Espaço Cultural, que acolhe e apoia projetos como esse, do grupo Escamas de Gente.

Serviço

SalaB – Espaço Cultural. Avenida Comendador Wilson Talarico, 149 – Vl Flórida, Guarulhos.
Dias 18, 19, 25 e 26 de junho. Sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Ingresso: R$20,00 (apenas dinheiro). Duração: 60 min. Classificação: 12 anos. *É necessário reservar ingressos pelo e­-mail: escamasdegente@gmail.com