Por Cris Marques
Fotos: Marcelo Santos, arquivo pessoal
e banco de imagens
Criar um filho não é uma tarefa fácil e isso já é consenso entre pais, tutores e quem pensa em aumentar a família. Cada fase tem os seus desafios e, principalmente, tempo de adaptação. É assim com a gravidez, a chegada do recém-nascido, os estímulos e descobertas iniciais, a introdução alimentar, os primeiros passinhos, a entrada na escola, a alfabetização, o fim da infância e até a tão temida puberdade, com suas mudanças físicas, psicológicas e comportamentais.
Mas, você sabia que essa adolescência pode dar uma mostra muito antes? É o caso da crise dos dois anos, também conhecida como adolescência do bebê. “Apesar do nome, esse período pode ocorrer de 1 ano e meio a 3 anos, variando de criança para criança, e é assim chamado pois muito se assemelha à juventude, uma vez que o pequeno está aprendendo a expressar suas vontades. Até então, eram os adultos que decidiam se ele colocaria o casaco ou comeria brócolis, por exemplo. Quando a expressão das vontades começa, surgem também a capacidade de se opor e o desejo de testar o ambiente para entender até onde pode ir”, explica a neuropsicóloga Adriana Fernandes (foto), que atua no Instituto Psicológico Recomeçar, na Vila Augusta, e em um consultório particular.
Para ela, que também mantém um site de atendimento on-line, autorizado pelos Conselhos Federal e Regional de Psicologia, o www.olharparadentro.com.br, a intervenção dos pais se faz extremamente necessária, justamente para sinalizar regras e limites. “Esse é um momento delicado, tanto para o filho quanto para os pais, que são de carne e osso e também se irritam, devendo manter o controle; normalmente, ele é marcado pelas alterações no comportamento da criança, que agora faz ‘birra’, tem ataques de choro, se joga no chão, quando contrariada; e é teimosa, optando, quase sempre, por fazer o contrário do solicitado. […] Também é importante mencionar que, nessa fase, o cérebro do bebê passa por uma mudança importante, a apoptose, além dos ‘ajustes’ para se adaptar às diversas alterações sofridas. Do momento do nascimento até então, foram desenvolvidas várias ramificações neurais com o objetivo de possibilitar o desenvolvimento em qualquer área. Com o crescimento, algumas ramificações são mais utilizadas que outras; então, as pouco ou não utilizadas são ‘podadas’, ficando apenas aquelas que estabelecem conexões funcionais”.
Lidando com o miniadolescente
Nem toda criança reage da mesma forma à crise dos dois anos: algumas utilizam outras estratégias (menos desgastantes) para expressar suas vontades, mas, para a maioria, a birra parece mesmo ser “requisito” fundamental. Segundo Adriana Fernandes, a postura dos pais/tutores será determinante para alimentar ou contornar a situação, principalmente se ela vier permeada de berros e explosão motora. “É importante manter a calma e deixar claro que o pequeno é amado, mas que tal ato te entristece, além de não se enfurecer junto ou, pelo menos, não demonstrar”. Entre as orientações, ela ressalta abaixar e olhar diretamente nos olhos da criança para conversar e pedir que ela se controle; já no caso de ataques mais intensos, o ideal é tirá-la do local, principalmente se for público e estiver gerando constrangimento. Se for em um ambiente controlado e que não represente riscos, o adulto pode optar por sair. Depois, com os ânimos controlados, é hora de dialogar, deixando claro que quer entender o que motivou tal situação, e explicar o porquê daquela atitude ser inadmissível.
Ajuda profissional
Um olhar atento pode ser providencial para definir se tais comportamentos são inerentes à fase em que o filho se encontra ou se já se faz necessária intervenção profissional. “Um dos sinalizadores é a autoagressão, situações em que o descontrole e ataque de nervos são mais intensos que o comum e representam riscos à integridade física”. De acordo com a neuropsicóloga, também é essencial correlacionar as atitudes com o ambiente, já que, se a família estiver vivendo um momento turbulento e isso estiver aparente no dia a dia, com choro, brigas ou discussões entre os entes, é possível que o bebê esteja sentindo o impacto e reagindo a essas alterações ambientais, o que requer auxílio especializado.
Exercício de paciência
Pouco depois de completar dois anos, Maria Eduarda deixou de acatar os pedidos dos pais, sem antes questionar alguns porquês ou tentar contrariar. “Com a idade, a Duda começou a ser mais independente, cheia de vontade própria e mais respondona, quase sempre fazendo o contrário do que pedimos. Não conhecia como adolescência do bebê, mas sabia que essa era a fase da rebeldia; só não imaginava o quanto era difícil”, pontua Lilian Rodrigues Fernandes, consultora independente de beleza.
A mãe conta que, além de ter muita paciência, é importante ser firme nas decisões e procurar dividir experiências com outras famílias. “Tenho várias amigas com filhos pequenos e procuro conversar com elas sobre as vivências e experiências, bem sucedidas ou não. Aqui em casa, temos conversado bastante e a ensinado a respeitar e não ser respondona ou rebelde, mas quando a conversa não basta, vai para o castigo, dois minutos para pensar no que fez”, finaliza.




