Por Val Oliveira
Fotos: banco de imagens e arquivo pessoal
Aos pais cabe a tarefa de cuidar, prover o sustento, incutir valores, ensinar a lutar, fortalecer a alma, perceber o detalhe, a linha tênue que separa uma criança segura e cria um cidadão maduro, responsável e bem resolvido, de alguém não tão equilibrado assim. Falando até parece fácil, mas como lidar, impor limites e educar os filhos sem apelar para a violência, infringir direitos e ultrapassar a barreira do bom senso?
Estudiosos afirmam que uma educação baseada em métodos agressivos pode deixar sequelas físicas e psicológicas e, além disso, pode levar os pais, familiares ou cuidadores a serem enquadrados na “Lei da Palmada”, que protege os pequenos.
Nesse contexto, a psicóloga Franciane Priscila Rosa Braz alerta que é preciso estar atento para não confundir autoridade com violência, pois é possível que os pais pratiquem agressão psíquica e física com seus filhos sem se darem conta do mal que causam. Para ela, muitos acreditam encontrar na violência física uma via “segura” e “eficaz” na educação dos filhos, tendo por base uma educação anterior cultural, familiar. “A violência psíquica pode se exprimir por comportamentos aparentemente afetivos. Alegando que é ‘para o bem’ da criança, o adulto pode se utilizar da chantagem afetiva para impor vontades ou proibições. A violência psíquica não se manifesta somente por agressões verbais ou insultos, mas também pode se revelar por meio de rejeições, abandono, desprezo, castigos injustos e humilhações, principalmente em público. O comportamento agressivo pode gerar uma série de traumas, medos e tornar a violência banalizada para a criança, o que pode fazer com que esses comportamentos sejam reproduzidos na fase adulta”, explica.
O que fazer?
A tarefa de educar, impor limites e regras é de responsabilidade dos pais e da família. Franciane destaca que o desenvolvimento da criança, bem como a construção de sua identidade será melhor se ela for “cercada” por amor.
A profissional ressalta que as crianças não nascem com problemas de comportamento, mas os adquire ao longo do tempo, por meio da educação que recebem. Dessa forma, como agir para não “manchar a folha em branco” e corrigir o que for necessário? “Atribuir à criança as qualidades que lhe são devidas e pontuar as correções no momento em que o comportamento esperado não acontece podem ser vias para prevenir o extremo da violência física e psicológica. […] A criança compreende a questão dos limites por meio do respeito e quando sente que alguém mais capacitado tem cuidados para com ela. É importante também que os pais estabeleçam objetivos e metas na educação dos filhos e que transmitam as informações para as crianças de forma clara, utilizando-se de uma linguagem simples e objetiva”, aponta.
Consequências
De acordo com a psicóloga, comportamentos e atitudes ameaçadoras dos pais podem fazer com que as crianças reajam com atitudes e sintomas como o medo, insegurança, dificuldades nas inter-relações, prejuízos em relação à autoimagem e imagem do outro, bem como a reprodução de comportamentos agressivos, que podem se estender até a vida adulta. Além disso, podem carregar sentimento de culpa e achar que são merecedoras dos maus-tratos e optam pelo silêncio, por medo.
Castigo é violência?
Muitas pessoas entendem o castigo como uma forma de violência. Para outras, é algo necessário para que a criança compreenda desde cedo que atitudes politicamente incorretas têm consequências. As opiniões são divergentes, até mesmo entre os profissionais. “O assunto é bastante polêmico e divide opiniões entre pais, cuidadores e profissionais. De fato, os castigos físicos e severos são desnecessários e promovem mais prejuízos do que benefícios. Contudo, entendo que a punição torna-se necessária, pelo menos às vezes, para criar senso de realidade e auxiliar na delimitação de regras e valores. Porém, é preciso que antes sejam estabelecidas regras claras, para que a criança compreenda e não se sinta injustiçada, bem como a punição seja aplicada no momento em que o comportamento inadequado acontece, para dar condições à criança de associar um fato ao outro. Algumas formas de punição são a declaração de supremacia e a supressão do amor. Na primeira forma, o adulto utiliza de sua autoridade para privar a criança de algo de que ela goste, por exemplo. Já na segunda, os pais têm a oportunidade de expressar que se sentiram decepcionados com o comportamento inadequado do filho”, detalha.
Dicas da psicóloga
- Mantenha a paciência. Não perder o controle é primordial;
- Faça com que a criança compreenda que é amada, porém tal comportamento não é aceitável;
- Seja firme, mas não grite, bata ou ameace;
- Ouça o que a criança tem a dizer e procure compreender;
- Explique os motivos do “castigo”. Os pequenos têm fantasias e alimentam muitos “porquês”;
- Colocá-la em um canto para “pensar” nem sempre é a melhor saída. Talvez ela não tenha nem mesmo maturidade psicológica para isso;
- Dialogue, apresentando as consequências do que ela fez. Isso a faz refletir e compreender o alcance de seus atos.
O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente possui mecanismos legais para coibir qualquer prática abusiva no trato com os menores. Conhecida como a “Lei da Palmada” e “Lei menino Bernardo”, a Lei nº 13.010, de 26 de junho de 2014, que altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, em seu Artigo 18-A, estabelece que: “A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los.”
Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se:
I – castigo físico: ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente, que resulte em:
a) sofrimento físico; ou
b) lesão;
II – tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que:
a) humilhe; ou
b) ameace gravemente; ou
c) ridicularize.”
Franciane Priscila Rosa Braz
psicóloga
98926-7874
psicofranbraz@gmail.com

