Por Cris Marques
Fotos: arquivo pessoal e banco de imagens

Com tantos estímulos externos, boa parte oriunda do boom tecnológico que vivemos, é comum que as crianças de hoje desenvolvam-se de forma diferente das gerações passadas. Mas, não é por isso que as etapas de aprendizagem devam ser puladas e nem as descobertas e vivências substituídas. “O cérebro da criança está em pleno desenvolvimento e tem potencial de modificar-se a cada nova aquisição de habilidade. É o que chamamos de plasticidade cerebral. Os aprendizados são incorporados por meio de conexões, criadas pelas sinapses entre os neurônios. São como ‘pontes’, que criam ramificações e abrem espaço para a construção de ambientes que servirão para mais conexões e aprendizagens”, pontua Clay Brites, pediatra e neurologista infantil.

Doutorando em ciências médicas pela Unicamp, integrante e pesquisador do Disapre (Laboratório de Pesquisa em Distúrbios e Dificuldades de Aprendizagem e Transtornos da Atenção – FCM/Unicamp) e co-fundador e speaker da NeuroSaber, ele explica que os tutores devem dar ao pequeno o tempo necessário e a oportunidade de consolidar uma capacidade adquirida para que esta seja bem incorporada e amadurecida. Isto vai proporcionar um alicerce bem arquitetado e uma base sólida para outras descobertas. “Adiantar ou forçar a aquisição precoce pode precipitar ou mal construir essa nova aptidão. Já se a criança o fizer espontaneamente, não há problema”.

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Segundo ele, para o bebê, o convívio com o concreto é muito importante. Então, é primordial que ele tenha contato com outras pessoas, coleguinhas, brinquedos e experiências reais. A prioridade, portanto, deve ser o brincar com os outros, o olho no olho e momentos que revelem e representem a realidade a sua volta. As tecnologias até podem ser incorporadas, mas com restrição de horário e como uma ferramenta a mais, sem exagero ou preponderância nas atividades diárias. É melhor a criança manipular letras e números do que visualizá-los numa tela.

De bebê a criança

Toda etapa é importante, mas algumas são ainda mais cruciais para os aprendizados que virão a seguir. É o caso do engatinhar, que ajuda o bebê a desenvolver noção de independência, senso de direção, paciência, equilíbrio, coordenação, confiança, segurança, coordenação visual e ainda fortalece as estruturas da coluna. “Essa é uma fase de preparação importante para o andar e deve ser estimulada na criança a partir dos 8 meses. Pode não ser obrigatória, caso a criança, espontaneamente, comece a andar, pulando-a. Neste período, portanto, não é indicado o uso de andador, que pode induzir a criança a não engatinhar, fora o risco de quedas e acidentes que podem ser fatais”, elucida.

Para Clay, além do desenvolvimento já esperado, é preciso observar também o comportamento sóciopessoal e adaptativo das crianças. “Como ela brinca, compartilha, participa de atividades sociais, se olha nos olhos, responde e é recíproca na comunicação com os outros. Estes comportamentos são muito importantes e devem estar presentes de forma plena até um ano e meio de vida. A fala deve ocorrer até um ano e conter, em seu vocabulário, 150 palavras até um ano e meio. Se os pequenos têm atitudes repetitivas e com interesses desconectados do contexto, com pouca flexibilidade a mudanças de rotina ou de necessidades geradas pelos outros, isso pode indicar algum transtorno de desenvolvimento, especialmente o autismo”, alerta ele, destacando a necessidade, nesses casos, de uma avaliação interdisciplinar com neuropediatra, fonoaudióloga(o) ou psicóloga(o).

img_1877O início da vida escolar

De acordo com Élio de Assis, professor no curso de pedagogia nas Faculdades Guarulhos e supervisor de ensino na rede estadual de São Paulo, respeitar cada fase de desenvolvimento da criança não é só um ato de bondade, mas sim dar a ela a oportunidade de ser compreendida em sua idade cronológica e aprendizagem afetiva, cognitiva, social e motora. “A sociedade atual é extremamente exigente com as pessoas. O discurso da competência, da habilidade, do mundo do trabalho, das tecnologias, do virtual sobrepondo-se ao real, do alcançar metas, têm levado os pais a se sentirem obrigados a ofertar aos seus filhos uma ‘educação de qualidade’ que, em um mundo extremamente desigual e competitivo, reforça a falsa ideia do apressamento da alfabetização, em detrimento dos direitos da criança”.

elioSeguindo essa lógica de resultados imediatos, exigidos pela nova era, muitos tutores podem não entender as etapas da vida escolar. “Para o bom resultado, o discurso atual nega o direito de brincar, correr, gritar, pular e se divertir na escola. Os professores, muitas vezes, também sofrem com exigências desconexas com a realidade das crianças e sua fase de desenvolvimento. A educação infantil é a primeira etapa da educação básica. É nela que o pequeno vivencia e constrói sua identidade, dá sentido às relações em sociedade, brinca, questiona, interage, conhece suas possibilidades e limites frente a outros colegas. O eixo do currículo na educação infantil é a interação e a brincadeira. Qualquer apressamento neste sentido prejudica as crianças e suas famílias. O importante é escola e núcleo familiar acompanharem conjuntamente todo o processo de construção, contínua e linear, da alfabetização e do letramento” finaliza ele, que é formado em história e pedagogia pela Universidade Guarulhos, pós-graduado em gestão educacional pela Unicamp e com mestrado e doutorado em educação pela PUC-SP.