Cerca de 250 mil passageiros são transportados diariamente em Guarulhos. Muitos, no extremo aperto

Somente quem necessita do transporte público em Guarulhos diariamente sabe bem como é o descaso do sistema. Sucateados, os veículos estão aquém do valor pago pelos munícipes, os atuais R$ 4,15.

Segundo números divulgados na época do aumento da passagem, a tarifa de ônibus deveria custar em torno de R$ 5, caso não houvesse o subsídio da Prefeitura, que é de R$ 50 milhões anuais. O preço foi decidido após estudos minuciosos com a sociedade civil e entidades de classe da cidade. Um dos motivos seria o aumento no preço de insumos, como o combustível.

Constantes reclamações chegaram à Redação do Click Guarulhos sobre a situação dos coletivos: passagem cara, superlotação, deficiência no conforto e falta de manutenção. Aliado ainda à falta de dignidade no trabalho, há também a questão dos funcionários das empresas de ônibus. Quando insatisfeitos, descontam com freadas e movimentações bruscas. Falta de educação e de bom senso. Enfim, o passageiro é sempre lesado.

Entre as mais recentes denúncias, usuários da linha 232 (Cocaia/ Centro) reivindicam melhorias e mais um veículo no itinerário. Fomos às ruas e circulamos no ônibus entre 18h e 19h desta segunda-feira, 13, e conferimos de perto a crítica situação da linha.

O dia a dia de quem precisa

Pelo menos dez pessoas aguardavam ansiosas pela chegada do coletivo azul que despontava ainda na rua João Gonçalves para cruzar com a avenida Tiradentes, e parar no ponto de ônibus da avenida Salgado Filho, no Centro, próximo ao antigo colégio Nove de Julho. A fila se formava e, aparentemente, os populares já se preparavam para disputar um lugar no veículo. Infelizmente, a cena não é exclusividade desta linha. Do tempo em que ficamos na espera, algo em torno de 25 minutos, poucas foram as vezes em que havia lugares nos veículos para transportar todos sem precisar espremer ninguém.

Quando o 232 chegou, já não se tinha esperança de conseguir algum lugar confortável, mesmo que de pé. Restava torcer para que a porta se fechasse com todos do lado de dentro. Depois de alguns minutos, o ônibus continuou com a viagem. Durante o trajeto, a cena foi copiosa. Não precisou de muitas paradas para que o coletivo ficasse como um “carro de bois”: todos comprimidos, lutando para não precisar tirar o pé do lugar, senão o espaço seria ocupado. “Nem animais são carregados assim”, foi a descrição de alguém perdido no meio da multidão enlatada, enquanto o cobrador gritava, mesmo sabendo que seria impossível atender ao pedido: “dá um passinho para trás aí, gente”. Além disso, há o problema do mau cheiro e outras características resultantes de muitas pessoas num espaço apertado.

As reclamações vieram aos montes. Arrumavam-se culpados: o prefeito, ex-prefeito, a empresa responsável pelo veículo, o Lula, a Dilma, o Temer. Os passageiros, grande maioria de trabalhadores cansados de mais um exaustivo expediente, murmuravam suas frustrações para desconhecidos, afinal, a situação faz parte do dia a dia deles.

Muitos já registraram sua reclamação no SAC da empresa Vila Galvão, administradora de boa parte da frota de ônibus da cidade. Sem sucesso. Por coincidência, um abaixo assinado estava circulando no veículo. O objetivo era recolher 200 assinaturas e apresentar à empresa com o pedido para que seja acrescentado mais um carro na linha.

O problema de lotação do 232 vem de anos. Mas agravou-se nas férias, entre dezembro e janeiro, quando um dos carros foi transferido para outra linha. Hoje, apenas quatro fazem o itinerário, porém, quando um quebra, o que acontece constantemente, ficam somente três para atender uma demanda de quatro mil usuários em média por dia.

O intervalo de espera com quatro ônibus na linha, geralmente, é de 30 minutos. Quando um quebra, chega a ser de 50. Há pessoas que demoram duas horas para chegar ao destino. Se o ônibus quebra, sabe-se lá quando o passageiro chegará. O coletivo passa por bairros como Jardim Paraventi, Jardim São Paulo, Santa Clara e Jardim Moreira. Segundo funcionários da linha, os carros começam a encher a partir do ponto da Chocolândia, na Monteiro Lobato. “A linha está péssima. Hoje mesmo [terça-feira, 14] tinha um ônibus quebrado. Todos os dias são assim. Os ônibus estão sempre superlotados, quando não quebrados”, desabafa a professora Vera Lúcia, de 40 anos, passageira diária do 232 há pelo menos seis anos, moradora do Jardim Paraventi. Lúcia assinou o pedido para que cinco veículos voltem a atender a população.

Questionamos a empresa Vila Galvão, mas não recebemos a nota documentada até a publicação desta matéria. Por telefone, um dos funcionários do setor de planejamento disse que passaria a demanda para que fizessem avaliação. Constando a necessidade, soluções serão apresentadas à Secretaria de Transportes e Trânsito (STT).

A Prefeitura também foi indagada sobre as melhorias pleiteadas ao novo governo para a cidade. Na época do aumento da passagem, a Guarupass se comprometeu em substituir 30 ônibus da frota atual por veículos com tecnologia de combustível renovável (elétrico ou híbrido). Também deverá instalar entre março e maio deste ano wi-fi dentro de 20% dos coletivos, além de mais pontos de vendas do bilhete único e implantação de novas tecnologias, como a criação de um aplicativo para compra on-line, que já está em operação.

Com relação à lotação dos ônibus, a administração municipal informou que está reprogramando as linhas com estes problemas. Além disso, está sendo fiscalizado o serviço para coibir qualquer descumprimento de horários. “Este ano, realizaremos estudos para o redimensionamento da rede de transportes e, se for necessário, adequaremos os serviços com a criação de novas linhas ou adequação das existentes”, informou a administração, em nota.

Segundo dados da Prefeitura, considerando a média de dias úteis de 2016, cerca de 250 mil passageiros são transportados diariamente em Guarulhos. As empresas transportam em média 185 mil e os micro-ônibus 65 mil.