O alcoolismo é mais do que um vício: é uma grave doença

 

Por Sérgio Scatolin*

Alcoolismo não é fraqueza de caráter, nem ‘apenas’ um vício: é uma doença séria, grave, com não menos sérios e graves desdobramentos e consequências à saúde e à vida, além de reflexos sociais, econômicos e comportamentais.

É doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 1967 e consta no Código Internacional de Doenças (CID) com as classificações 291 (psicose alcoólica), 303 (síndrome de dependência do álcool) e 305.0 (abuso do álcool sem dependência). Caracteriza-se por uma obsessão e/ou compulsão por bebidas alcoólicas que se instala gradativamente em uma pessoa e que se agrava até dominar completamente o indivíduo acometido desta doença.

A denominação correta para designar o doente de alcoolismo é alcoólico, e não “alcoólatra” como, infelizmente, tornou-se comum no falar popular, pois não existe “alcoolatria”, que seria como uma “idolatria do álcool” e seus efeitos, embora vejamos, muitas vezes, tristes expressões de exaltação e/ou de glamourização do ato de beber, como muito ocorre até em letras de música e programas de TV.

Estatisticamente, 10% das pessoas que bebem usualmente desenvolvem a doença. O grande problema é que não há grupos de riscos específicos, isto é, não há forma segura de determinar quem poderá figurar nesses 10% que se tornarão dependentes. A doença pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, independente de gênero (sexo), idade ou condição socioeconômica.

Ao longo do tempo, o usuário torna-se progressivamente tolerante à intoxicação causada pelo álcool e perde sua capacidade de abster-se voluntariamente do consumo de bebidas alcoólicas até ao ponto de não conseguir controlar seu consumo. A necessidade compulsiva e incontrolável de beber toma conta de seus pensamentos e modifica negativamente seu comportamento, pois o álcool afeta as células cerebrais, o que deteriora a condição psicológica do alcoólico, comprometendo sua percepção da realidade e seu comportamento pessoal e social.

Chamada também de Etilismo, esta doença é classificada como crônica, progressiva e fatal:
É uma doença crônica porque não tem cura, embora tenha tratamento, que deve ser permanente e ininterrupto, a partir da cessação do consumo do álcool. Sem cessar o consumo, não há tratamento eficaz, embora sejam possíveis alguns cuidados paliativos para redução de danos, como redução da frequência e/ou da intensidade da ingestão.

É uma doença progressiva uma vez que, se o consumo não cessar, haverá um agravamento crescente e contínuo da dependência, dos seus riscos e das suas consequências, inclusive com efeitos severos e devastadores a todos os órgãos e suas funcionalidades.

É uma doença fatal, ou seja, fatalmente leva à morte, caso a dependência não seja controlada e o consumo interrompido.

Enquanto não mata, o álcool destrói lentamente a sanidade mental e psíquica do dependente e ocasiona distúrbios comportamentais ou cognitivos (dificuldades de relacionamento oscila e/ou afetivo; deficiências de memória; baixa autoestima; dificuldades de aprendizagem e/ou de retenção de conhecimentos; degradação ou piora de desempenhos escolar e/ou laboral; dificuldade ou incapacidade para raciocinar e decidir, etc.) e pode causar ou favorecer outras doenças mentais, como depressão e esquizofrenia, dentre outras.

Organicamente, o álcool favorece e/ou provoca várias doenças e afeta diversos órgãos: pulmões (em estágio agudo, aumenta o risco de infecções, como pneumonia); fígado (destrói os tecidos do fígado e causa cirrose, além de outras complicações hepáticas e sistêmicas a partir do fígado); coração e sistema vascular (pode causar insuficiência cardíaca devido a lesões no músculo cardíaco, além de favorecer a hipertensão arterial que, por sua vez, é uma das causas mais frequentes de Acidentes Vasculares Cerebrais – AVC); estômago (gastrites, úlceras, perda de apetite, deficiências de vitaminas, etc.) e outras doenças ou problemas importantes, como doenças da pele, diabetes, desnutrição e, na gravidez, retardo no desenvolvimento do feto.

Para obter ajuda e buscar a recuperação os GRUPOS DE AUTOAJUDA são, em geral, uma boa opção. A maioria adota a metodologia dos 12 Passos, com algumas variações que não comprometem a eficácia do tratamento, que só acontecerá, no entanto, a partir do momento em que o dependente admitir sua doença e, a partir de então, dispor-se firmemente a aceitar a ajuda e a perseverar passo a passo, um dia de cada vez, como costumam expressar a maioria dos grupos de autoajuda ou de ajuda mútua.

O Fórum Municipal de Políticas Sobre Álcool e Outras Drogas de Guarulhos (FOMAD), uma organização da sociedade civil que congrega pessoas e entidades para discutir politicas públicas no enfrentamento às drogas lícitas e ilícitas, catalogou os principais GRUPOS DE AUTOAJUDA em Guarulhos. A lista pode ser encontrada na internet (http://bit.ly/2n1zK9l).

Estão lá os principais grupos na cidade, como os grupos do A.A. – Alcoólicos Anônimos (acolhem especificamente dependentes de álcool); o Amor Exigente e o GEV – Grupo Esperança e Vida (acolhem dependentes de todos os tipos de drogas ou substâncias psicoativas); o grupo da Igreja Renascer, no bairro Macedo; e a Pastoral da Sobriedade, da Igreja Católica, com grupos em vários bairros da cidade (jurisdição da Diocese de Guarulhos). Os grupos de autoajuda da Pastoral da Sobriedade, nas suas reuniões semanais, acolhem dependentes de todas as dependências, além do álcool (de substâncias psicoativas, como maconha, cocaína, crack, etc. a outras dependências psicossociais, como compras compulsivas, jogos, internet e celular, etc.), além de acolherem também os codependentes, que são os familiares e amigos de dependentes que sofrem com o problema de seus dependentes e também precisam de ajuda e apoio, pois adquirem doenças emocionais e sociais decorrentes desta convivência.

O importante é saber que, embora seja uma doença incurável, progressiva e mortal, o alcoolismo tem tratamento e sua evolução pode ser interrompida pela cessação do consumo e perseverança na recuperação, com absoluta e permanente abstinência. A única condição, essencial e sine qua non, é que a pessoa dê o primeiro passo (o ADMITIR) e procure ajuda, pois sozinho é muito difícil a recuperação, para não dizer que é quase impossível. Daí a importância desses grupos de autoajuda.

Opções não faltam: basta dar o primeiro passo… e procurar ajuda!

*Sérgio Scatolin, é professor de ensino fundamental, médio e universitário e agente de pastoral na Pastoral da Sobriedade na Diocese de Guarulhos, que atua na prevenção e recuperação de quaisquer tipos de dependências e no apoio a dependentes e codependentes (familiares e amigos de dependentes).

REFERÊNCIAS:

PASTORAL DA SOBRIEDADE. Disponível em www.sobriedade.org.br

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS (A.A.). http://www.alcoolicosanonimos.org.br

FOMAD – Fórum Municipal de Políticas Sobre Álcool e Outras Drogas em Guarulhos. Rede Municipal de Ajuda para Álcool e Drogas em Guarulhos. Disponível em http://bit.ly/2n1zK9l

OMS (Organização Mundial da Saúde). Relatório Global sobre Álcool e Saúde 2014 (Global status report on alcohol and health 2014). Disponível em http://bit.ly/1zMeySy

CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Relatório Global sobre Álcool e Saúde – 2014. Disponível em http://bit.ly/2bItoKk

CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Alcoolismo: Aspectos Clínicos e Diagnósticos. Disponível em: http://bit.ly/2mxoO5e

SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas. II Levantamento Sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira. Disponível em http://bit.ly/1xtVUSY