“Ninguém” rima com “mãe”

Sarau dos amigos do Castelo
 

Quando criança eu gostava de fuçar a pasta escolar do meu irmão mais velho, Olavo, que cursava o ginásio. Ela continha duas coisas que me interessavam, revistas de histórias em quadrinhos e seu livro de Português, que trazia antologia da literatura da nossa rica língua. Em casa não faltavam livros, mas eu era viciado em leitura, quanto mais lia mais queria.

No livro eu pulava as lições de gramática, que até hoje considero muito chatas, e me concentrava nos contos, poemas e crônicas. Entre os poemas eu me apaixonei por um intitulado “O sapateiro e o rei”, do poeta medieval português Bulhões Pato. Era uma história Contava por uma mãe à sua filha Helena, de um rei muito generoso, e um sapateiro muito pobre. O rei fazia seus atos de caridade sem que o beneficiado soubesse quem era o benfeitor, escondendo ouro e joias onde a pessoa pudesse encontrar. Mas o sapateiro sempre acabava perdendo, e um dia caiu morto, e ao seu lado foi encontrado um bilhete, possivelmente escrito por Deus, alegando que o tinha criado para ser pobre, e não adiantava ajudá-lo. Poema fatalista e injusto, mas eu gostava, não sei porquê.

Mas tinha uma estrofe que me inquisilhava: “…e vendo um pobre acudia-o / sem que o soubesse ninguém, / assim quer Deus que se faça, / assim o faz tua mãe.” Cadê a rima? Ao contrário dos modernos, os poemas clássicos e populares não perdoam a falta de uma rima e uma métrica perfeita. É por isso que eu gosto deles.

Mas eu gostava de declamar em voz alta, como se estivesse diante de uma plateia, e “consertava essa estrofe, trocando o último verso por um da minha autoria, “assim o faças também.”

Só depois de muitas décadas, conversando com alguns lusitanos, ouvindo alguns pelo rádio e TV, muitas vezes sem entendê-los, vim a descobrir a rima. No sotaque lá da terrinha, “ninguém” rima mesmo com “mãe”.

Assim como no dialeto caipira, “sol” rima com “forrobodó”. Vejam esta estrofe de “Xitâzinho e Chororó”, de Ado Benatti e Athos Campos, gravada por Serrinha e Caboclinho lá pelos anos 50, e cantada ainda hoje: “Eu faço minhas ‘caçada’ / bem antes de ‘saí’ o ‘só’, / levo espingarda e cachorro / pra ‘fazê’ forrobodó.” Rima é uma questão de fonética, não de gramática.