O comando é dela

Formada em Educação Física aos 23 anos de idade, Flávia de Paula dos Santos não imaginava que um dia chegaria ao posto de coronel da Polícia Militar, quando decidiu, em 1990, prestar concurso para ingressar na Academia do Barro Branco – instituição responsável por formar e habilitar oficiais para o exercício da carreira militar no Estado de São Paulo. “Muitas pessoas, infelizmente, não conhecem o trabalho da Polícia Militar. Eu, na época, também não conhecia efetivamente o que fazia a instituição. Ao longo do tempo, eu fui conhecendo e me identificando com a profissão”.

Hoje, aos 49 anos, a coronel da PM é responsável pelo Comando do Policiamento de Área Metropolitana 7 (CPA/M-7), sediado em Guarulhos. A comandante recebeu a Reportagem da Revista Guarulhos em sua sala e contou um pouco sobre a rotina de suas atividades, carreira e também de sua vida pessoal.

O treinamento na Academia do Barro Branco não é simples. Embora parcela significativa da sociedade acredite que carreira militar seja “coisa de homem”, Flávia diz que não teve diferença nos exercícios, nem na grade curricular aplicada pela Instituição. “Somos tratados com igualdade, sem distinção. Fazemos o curso todos juntos. Na Instituição não existe isso de ser coisa de homem. Se fosse o contrário, não existiriam editais dos concursos para ingresso na Polícia Militar com vagas para o público feminino. Temos hierarquia e disciplina. Sobretudo respeito. Esses são pilares que seguimos ao longo de toda a carreira”.

Flávia saiu da Academia em 1993 e atuou na Zona Leste de São Paulo por um período curto, sendo transferida para a região do Vale do Paraíba, sempre na área operacional. Ali, ela trabalhou por 13 anos, sendo sete no comando da equipe da cidade de Aparecida, como capitão. Em 2007, foi movimentada para a Quarta Seção do Estado Maior, departamento que cuida de toda a logística do Estado – imóveis, armas, viaturas, entre outros. Lá ela ficou cerca de nove anos, onde se tornou major e tenente-coronel.

Durante o exercício da carreira, além da faculdade de Educação Física, Flávia formou-se em Ciências Jurídicas e especializou-se em policiamento ambiental, técnicas de ensino, gerenciamento de crises e negociação com reféns, além de mestrado e doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública – este último a habilitou ao cargo que hoje ostenta. Toda essa somatória de especialidades e funções galgadas na Instituição totalizam 27 anos de carreira e algumas honrarias recebidas, como a Láurea de Mérito Pessoal em 1º Grau – esse prêmio é constituído de cinco escalas, sendo o 1º Grau a maior delas. Além dessa, Flavia possui a medalha Valor Militar em Grau Prata, Medalha do Cinquentenário do 5º BPM/I, medalha Mérito do Estado-Maior da PMESP Desembargador Alvaro Lazzarini, e medalha Mérito do Labor Financeiro, entre outras medalhas e condecorações relevantes.

A reportagem questionou sobre possíveis assédios que possa ter tido na carreira. A militar foi incisiva: nenhum. Além disso, Flávia, que é casada e tem um filho de 22 anos, conta que o dia a dia dela ao longo de todos esses anos foi como o de outro militar. Trabalhou em horários variados, já ficou de prontidão entre outras situações nas quais policiais estão submetidos. “Sem nenhuma distinção”, enfatizou.
Questionada sobre a criação do filho, ela disse que tudo sempre foi muito programado.

“Meu marido e meu filho sempre foram muito presentes. Hoje, a coronel Flávia apenas colheu os frutos que ela plantou ao longo desses anos todos”.
Apesar das responsabilidades, Flávia revelou que nas horas livres tem como hobby correr, hábito herdado da Educação Física.

Em Guarulhos

Flávia assumiu o comando de uma tropa de mais de dois mil homens e mulheres. O CPA/M-7 faz o patrulhamento de oito cidades – Arujá, Cajamar, Caieiras, Francisco Morato, Franco da Rocha, Mairiporã e Santa Isabel, além de Guarulhos. A unidade conta com quatro batalhões metropolitanos – o 15º, o 26º, o 31º e o 44º –, que juntos atendem cerca de 2 milhões de pessoas. Seu antecessor, o também coronel Luiz Carlos Pereira Martins, está à frente da Diretoria de Ensino e Cultura da Polícia Militar.

A oficial considera-se exigente. Faz reuniões rotineiras, onde ela destaca as orientações do Comando Geral da Instituição. E sempre tenta motivar seus subordinados, não deixando os policiais pensarem que seu trabalho não é importante, além de, na medida do possível, estar presente em reuniões que envolvem a comunidade.

Aproveitando o bate-papo, a Reportagem questionou se foi dado algum toque feminino no Comando desde a sua chegada. Flávia contou que as diferenças estão resumidas a um espelho e alguns retratos de familiares, os quais sempre carregou por onde passou. De resto, ela encontrou e deixou do jeito que estava, incluindo a decoração da sala.
Flávia exaltou a participação da comunidade de Guarulhos nas operações da cidade. Segundo a oficial, a sociedade pode contribuir e muito com o trabalho da Polícia Militar, como na troca de informações e na busca de dados que somente quem participa daquela comunidade tem. Além disso, ela destaca a ajuda dos Conselhos Comunitários de Segurança Pública, que são grupos de pessoas do mesmo bairro que se reúnem para debater e acompanhar soluções referentes à segurança daquela região. Guarulhos conta com dez.

Sobre demora ou falha no patrulhamento e atendimento de ocorrências, Flávia explicou que nenhuma área é privilegiada. Cada vez que novos policiais militares são apresentados para a região do CPA/M-7, eles são distribuídos de igual forma. “O Comando tem demandado esforços para que o efetivo atinja o ideal. Guarulhos, por exemplo, está pautado em estudos e planejamento. Se existe uma demora no atendimento de uma ocorrência é porque naquele momento não tinha viatura disponível, mas assim que liberada, ela segue para o atendimento”.

Sobre as maiores necessidades da Polícia Militar no País, ela disse que a segurança pública não é feita somente com a PM, mas com uma série de órgãos que se integram – incluindo a comunidade. “A PM é mais um braço para atuar na sociedade. É uma necessidade ter essas ações conjuntas. Por exemplo, fizemos a Operação Direção Segura em parceria com o Detran. Trabalhamos junto com a Polícia Rodoviária Federal, enfim, essas ações são constantes e sempre que precisamos, as instituições estão prontas para colaborar, pois dão resultados positivos”.

O objetivo de Flávia é dar continuidade ao trabalho de forma que melhore cada vez mais a prestação de serviços à sociedade. “O CPA/M-7 está de portas abertas para os munícipes que desejam conhecer o nosso trabalho”, finaliza.