Paixão por descomplicar a matemática

Ana Maria Antunes de Campos - Fotos: Arquivo Pessoal

A professora Ana Maria Antunes de Campos, que lecionou até recentemente na Escola Estadual Vereador Antonio de Ré, no bairro do Macedo, tem vários livros publicados, com ênfase em facilitar o entendimento da matéria que é “bicho-papão” para muitos alunos.

Ela conta sua trajetória, fala da discalculia e de como lidar com esse distúrbio de aprendizado.

Onde nasceu?

Nasci em Guarulhos em 1977, na Santa Casa de Misericórdia. Sempre morei em Guarulhos, até os 15 anos, na Vila São Rafael. Depois me mudei para o Bela Vista. Após meu casamento passei a residir no Bom Clima, onde moro até hoje.

Em quais escolas estudou?

Estudei no Ary Gomes até o 8° ano. Já o ensino médio (colegial antigo) fiz no Maria Angélica Soave. Lembro-me do professor Pedro, de Filosofia, que se tornou depois coordenador/diretor. Sempre me incentivava, dizendo que eu escrevia bem. Eu não acreditava.

Qual sua formação?

Percorri muitos caminhos para me encontrar na matemática. Meu sonho quando criança era ser bióloga marinha. Então, iniciei o curso de biologia na UnG, em meados de 2000. Entretanto, não tinha o menor tato para lidar com a parte prática (anatomia humana, dissecação de pequenos répteis). Decidi partir para a área técnica, pois atuava em uma empresa que valorizava esse tipo de curso. Fiz o curso técnico em eletroeletrônica no antigo Colégio Elite, na rua João Gonçalves. Procurando seguir por esse caminho, ingressei em engenharia mecânica na Uninove. No segundo ano do curso, conheci meu esposo, engravidei e me casei. Foi quando decidi seguir a área da educação, com o objetivo de dar continuidade aos estudos e conciliá-lo com o bebê recém-chegado. Ingressei então em licenciatura em matemática na UnG, onde me formei. Depois não parei mais de estudar: tenho várias especializações (ensino lúdico, psicopedagogia, neuropsicopedagogia, didática e tendências pedagógicas, MBA em educação cognitiva), fiz pedagogia, mestrado em educação e continuo a estudar; atualmente faço doutorado em educação matemática na PUC-SP.

Sempre curtiu matemática?

Na verdade, não. Nunca tive notas baixas, mas não era minha disciplina preferida. As aulas não faziam sentido. Por que tantas atividades de resolução de problemas? Minha professora na época passava exercícios de equação de A até Z (duas vezes). Começávamos a resolver os exercícios em aula; como não dava tempo para finalizá-los na sala de aula, a professora deixava o restante como tarefa de casa. Na aula seguinte, retomávamos os mesmos exercícios: era a correção. Acabava essa atividade e na sequência se iniciava outra. Não faziam sentido as fórmulas e os teoremas. Fui valorizar tudo isso no curso técnico e na graduação.

Como foi que conseguiu editar seu primeiro livro?

Meu primeiro livro foi uma produção pessoal e independente; um livro infantil, com a tiragem de 50 exemplares, que publiquei em parceria com a minha afilhada Giovanna Facioli, intitulado “Marcus e os Marcianos”, pela editora Scortecci (2012). Ela fez a ilustração com 8 anos. Fiz o lançamento na Livraria Nobel com o apoio da Vera Novo. Nesse mesmo ano, fiz um projeto para ingressar no mestrado em educação, o qual não foi aprovado. O tema era discalculia. Com o material em mãos, pensei: o que farei? Então resolvi adaptá-lo para o formato de um livro. Na ocasião, fui desmotivada por colegas da área da matemática, familiares e amigos. Diziam que publicar um livro por uma editora não era simples, era burocrático e eu não era ninguém na área literária. Mesmo assim, enviei o exemplar intitulado “Discalculia: superando as dificuldades em aprender matemática” à editora WAK. No mesmo ano (2014), encaminhei mais um para a editora Ciência Moderna. Foi o “Matemática: uma nova maneira de aprender e ensinar”. Os dois foram publicados. A devolutiva foi após seis meses.

Quantos livros já lançou? Qual o mais recente e qual fez mais sucesso?

Na verdade, não havia contado até agora (risos). Mas, vamos lá! Já lancei 7 livros, 9 capítulos em obras educacionais, dois e-books gratuitos acerca da discalculia, organizei um livro em parceria com o professor doutor Fábio Cardoso dos Santos, publiquei um livro infantil e dois estão no prelo, sendo que um deles obteve o 3° lugar do Prêmio de Literatura Off-Flip 2019. Também escrevo contos e poesia: ao total foram 5 e estão publicados em diversas coletâneas.

Algum foi adotado pela rede pública?

Infelizmente, ainda não. Mas sei que meus livros percorrem as bibliotecas escolares das escolas estaduais e municipais em Guarulhos, pois como recebo os direitos autorais em livros, eu costumo doar alguns para as escolas e o Auriel Filho, que está engajado em projetos culturais e literários do município, tem me ajudado a doá-los e os leva por onde vai.

Tem ideia de quantas pessoas foram impactadas pelas suas obras publicadas?

Acredito que muitos professores, pais e estudantes. Alguns livros já estão em segunda ou terceira edição. As editoras distribuem os livros em várias livrarias, por sites e em eventos educacionais. Recebo mensagens e convites no Facebook, convites para ministrar palestras e cursos acerca dos temas com os quais trabalho. Acredito que tudo isso deixa uma sementinha a respeito da educação matemática.

A que atribui a dificuldade que muitos alunos têm com matemática? Alguns têm verdadeiro pavor!

Algumas crianças apresentam aversão e medo à matemática, o que dificulta seu processo de aprendizagem de maneira geral, visto que as atividades escolares são permeadas de situações nas quais é necessária a resolução de problemas numéricos. Esse fator pode estar relacionado com “n” motivos, como, por exemplo, de ordem psicossocial e pedagógica. Porém, outras, infelizmente, podem ter um distúrbio neurológico relacionado com a aquisição da linguagem matemática. Esse distúrbio é conhecido como discalculia. Pesquisas recentes apontam que essa aversão e medo podem ser causados pela ansiedade matemática, que modifica o estado cognitivo, fisiológico e comportamental do estudante, implicando no raciocínio.

O que recomenda a quem tem essa dificuldade?

É preciso descartar os problemas de ordem pedagógica ou psicossocial. A partir de então, essa criança ou adolescente precisará de um atendimento psicopedagógico para investigar quais as causas reais dessa dificuldade de aprendizagem em matemática, pois o diagnóstico correto é que orientará os processos de intervenção e recursos a serem utilizados para amparar esses estudantes. Não podemos rotular todos os alunos de discalcúlicos, ou ainda de preguiçosos, sem entender o que se passa com eles. A matemática requer atenção, concentração, memória e qualquer problema biopsicossocial irá incidir sobre as atividades matemáticas. A aprendizagem dos alunos com dificuldades em matemática deve ser regularizada em recursos materiais (uso de calculadoras; jogos e atividades lúdicas, caderno quadriculado, imagens, contação de histórias, questões claras e objetivas, etc.); recursos metodológicos (métodos, técnicas de ensino, organizativas, planejamento, adequação de conteúdos e avaliativas); recurso multiprofissional (fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, neurologista, neuropediatra, pedagogos, psiquiatra, terapeuta, etc). As dificuldades podem ser superadas com a devida ajuda dos professores, pais, terapeutas e de todos os envolvidos na educação de crianças e adolescentes. Determinar a melhor forma de ensinar a matemática para estudantes que apresentam dificuldades é o início da intervenção, que deverá ser baseada na idade e dificuldade específica de cada um.

Como seus alunos reagem ao fato de ter uma professora que é autora de livros didáticos?

No princípio estranham. Uma professora de matemática que gosta de poesias, contos, escreve livros? Como assim? Quando solicito que redijam uma poesia matemática, a situação piora! (risos). Mas, depois compreendem que não tem como desvincular a matemática da língua portuguesa. O currículo é fragmentado, mas o aprendizado e o aluno não. Dizem que sou uma professora diferente. Que nunca conheceram uma professora de exatas tão humana. E essa fala é dos colegas professores e dos alunos. Eu amo!!

Quais seus planos de carreira?

Quero terminar o meu doutorado na área de educação matemática (só em 2020. Que longe!) e quem sabe encontrar uma escola que goste de projetos, que se preocupe com o aluno em todos os aspectos (sociais, emocionais, educacionais) e então ingressar nessa instituição como orientadora ou coordenadora, para poder atuar em parceria com professores e alunos, em busca de uma educação mais humana. Ainda pretendo fazer um pós-doutorado e outra graduação em psicologia. Continuar a escrever (isso sempre!)

Algum novo livro chegando?

Simmmm! E esses são para o público infanto-juvenil, ganhador do 3° lugar na categoria do Prêmio Flip 2019, que está em edição e ilustração, intitulado “O súdito zero” e outro da educação, em fase final, chamado “José Ribeiro Escobar: a trajetória intelectual e profissional de um professor paulista no início do século XX”. E tem outras novidades na caixinha!

Pode fornecer um contato?

Pelo WhatsApp: (11) 99406-2671, ou e-mail: camp.ana@hotmail.com