Seis etnias indígenas lutam por cidadania e demarcação de terras em Guarulhos

25 famílias, de seis etnias: Kaimbé, Pankararu, Pankararé, Wassu Cocal, Tupi e Pataxó, convivem na aldeia Filhos desta Terra, no Cabuçu – Foto de Matheus Oliveira
 

Beatriz Gomes, Camila Mazzotto, Giovanna Jarandilha, Jonas Santana, Larissa Vitória e Matheus Oliveira, alunos do 7° semestre do curso de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), elaboraram uma grande reportagem sobre saneamento básico, saúde, educação e demarcação de terras indígenas em Guarulhos. Em parceria com o grupo, o portal Click Guarulhos publica nesta terça-feira (14), em primeira mão, a reportagem de abertura da série: “As multifaces da ocupação indígena em Guarulhos”.

A área central da Aldeia Indígena Filhos Desta Terra, vizinha ao Parque Estadual da Serra da Cantareira, na região do Cabuçu, em Guarulhos, que faz limite de município com a Capital Paulista ao norte, está coberta de pedaços de madeira, enxadas e carrinhos de mão. “Estamos construindo uma oca”, diz Awa Kuaray Wera, de nome civil Gilberto Silva dos Santos.

Por não apresentarem vínculo territorial histórico com a terra que reivindicam, os indígenas da Aldeia Filhos Dessa Terra não têm direito à demarcação – Foto: Beatriz Gomes

O indígena, de 47 anos, da etnia Tupi, vive há quase dezoito no município, mas é originário da Aldeia Bananal, de Peruíbe. Enquanto caminha pelos quase 135 mil metros quadrados da ocupação, ele explica que ali nem todas as casas têm banheiro; que o esgoto é despejado em uma fossa sem tratamento; e que os moradores sonham com a presença de um posto de saúde e uma escola indígena no local.

Awa Kuaray Wera, principal idealizador da comunidade multiétnica, é o único da ocupação pertencente à etnia Tupi, originária da Aldeia Bananal, de Peruíbe – Foto: Matheus Oliveira

Era dia 26 de outubro de 2017 quando os indígenas chegaram à terra. No início do mesmo ano, teriam recebido da Subsecretaria de Igualdade Racial, órgão da Prefeitura de Guarulhos, o aviso de que, até agosto, o terreno — prometido em 2008 após apresentarem o projeto de uma aldeia multiétnica à Prefeitura — seria transferido à propriedade do grupo.

À época, a notícia correu rápido. Em menos de uma hora, reuniram-se esperançosos. “Foi uma festa”, lembra Awa, que é educador no Parque Estadual da Cantareira. “A gente esperava por aquele momento desde 2002, quando começamos a pensar no projeto da aldeia”.

Nos primeiros dias de outubro, porém, sobreveio a informação de que a Subsecretaria de Igualdade Racial ainda não tinha o número do processo de efetivação da terra. Os representantes do grupo indígena — entre eles, Awa — entraram, então, com um documento reivindicatório do espaço à Prefeitura. No dia seguinte, sem respostas do órgão, decidiram ocupar o terreno. Nascia, ali, a Aldeia Filhos Desta Terra.

Entre barras de ferro e telhas de zinco

O acesso à aldeia, localizada no bairro do Cabuçu, distrito da região oeste do município de Guarulhos, é um pouco restrito. Sem carro, uma longa ladeira consome os pedestres antes de alcançarem sua entrada. Também não tem calçada — o que aparece à beira da estrada Benjamin Harris Hunicutt serve mais para delimitar o pavimento do que para comportar uma caminhada.

A criação da aldeia também possibilitaria a preservação da área remanescente de Mata Atlântica e o desenvolvimento de atividades turísticas, segundo o vice-prefeito Alexandre Zeitune – Foto: Matheus Oliveira

Uma entrada de cascalho à esquerda não entrega de cara que é a abertura para a área. Um fechamento improvisado com barras de ferro e telhas de zinco presos uns aos outros por arame faz função de portão entre as árvores. O cercamento é completo por montes de terra de um lado e o barranco que dá vista para o trecho norte do Rodoanel Mário Covas do outro.

A única aresta faltante para fechar o polígono não é, na verdade, uma barreira. Dela parte uma escada sinuosa que conduz mata adentro, onde foram assentados os indígenas. Espacialmente, cada etnia ocupa uma parte do terreno — uma forma que encontraram de respeitar as diferenças culturais entre as famílias, explica Antonio Carlos, que faz parte da etnia Kaimbé.

Antonio Carlos, do povo Kaimbé, está na aldeia desde a sua formação, em 2017. A origem de sua etnia é o estado da Bahia, no município de Euclides da Cunha – Foto: de Matheus Oliveira

“Ali em cima fica o povo Kaimbé”, diz, apontando para o topo de um morro, onde uma construção simples de tijolos sem reboco se desenha na linha do olhar. Esses “ajuntamentos”, como ele coloca, circundam uma área comum destinada a todas as 25 famílias. A maior parte delas é pertencente a seis diferentes etnias: além da Kaimbé, estão reunidas a Pankararu, Pankararé, Wassu Cocal, Tupi e Pataxó.

As que não pertencem a nenhuma das etnias são famílias não-indígenas, que já ocupavam a parte superior do terreno antes da formação da aldeia indígena. A primeira a chegar foi Jéssica, junto ao marido e dois filhos pequenos, em setembro, um mês antes da fundação da Filhos Desta Terra. A família veio do Pará e, antes de chegar em Guarulhos, passou por três ocupações na cidade de São Paulo. “Ficamos igual macacos, de galho em galho”, diz.

A paraense Jéssica faz parte da comunidade de moradores não-indígenas da ocupação – Foto: Beatriz Gomes

A paraense alegou que quem estava à frente dessas ocupações por onde passou “só queria dinheiro, mas não dava garantia de nada”. Na terra que compartilha com os indígenas, Jéssica se sente mais estabilizada e conta que, apesar das diferenças, possuem uma boa relação. Um dos moradores não-indígenas, acrescenta Awa, estava inclusive ajudando na construção da nova oca.

“Quem decide aqui é a maioria”

A divisão da terra entre as etnias indígenas só veio a acontecer cerca de seis meses depois da ocupação, conta Antonio. “Quando chegamos, a gente ficou aqui, todo mundo junto”. Gesticula para onde está a oca que, junto ao Awa e outros indígenas, foi pensada para tornar-se um importante centro cultural. “Esse espaço ficou como multiétnico, como se fosse de todo mundo, pra momentos como esse que tá acontecendo agora”, celebra, em referência à festa realizada nos dias 26 e 27 de outubro deste ano, que comemorou os dois anos da ocupação e sediou o 12º Encontro dos Povos Indígenas de Guarulhos.

Repensar a espacialidade, porém, só foi necessário depois de desentendimentos acerca da centralização do poder no espaço. “Tinha um cacique que queria liderar sozinho”, critica Awa. “Opressora” e “autoritária” são termos que ele atribui à antiga liderança que, conta, não distribuía as doações que chegavam na aldeia. Estas eram encaminhadas apenas para o povo Wassu Cocal — maioria numérica na aldeia e etnia da qual o cacique fazia parte.

A questão, para Awa, reside ainda em outro ponto: como escolher uma liderança representativa e democrática em uma comunidade de culturas diferentes entre si? “Aqui não temos cacique, temos um grupo de lideranças. Na verdade, hoje está acabando isso de cacique nas aldeias, ainda mais aqui que são povos diferentes.”

Da questão, surgiu a ideia de, em cada tomada de decisão, consultar não só uma, mas “várias pessoas da mesma etnia”. “A gente tem que se unir para ganhar a terra. Se não houver união, a gente não vai em lugar nenhum. Quem decide aqui é a maioria”, postula Awa.

Por outro lado, Antonio ri e desconversa quando perguntado sobre os conflitos. “Assim como em qualquer sociedade, temos os baixos e os altos. A gente foi se adaptando a isso, um respeitando o limite do outro”. Agora, explica, tudo na aldeia é decidido em conjunto. “Questão de terra, saúde, educação a gente fala a mesma língua, tá todo mundo junto, é a mesma briga”.

Não só as grandes reivindicações, como também os assuntos mais triviais passam por um tipo de quórum popular e uma votação antes de ser batido o martelo. “Tudo o que a gente for fazer, se for plantar algo, a gente chama todo mundo e vê quem tá de acordo”.

*Reportagem e imagens de Beatriz Gomes, Camila Mazzotto, Giovanna Jarandilha, Jonas Santana, Larissa Vitória e Matheus Oliveira. Edição: Alexandre de Paulo, editor de Conteúdo do Portal click Guarulhos

Ouça podcast, por Larissa Vitória, com os bastidores desta reportagem