A polêmica sobre Bolsonaro e o ato marcado para dia 15

Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa ao chegar no Palácio da Alvorada
 

Está em curso uma grande polêmica quanto a um ato marcado para dia 15 de março, em todo o País, para que a população se manifeste contra o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal).

O ato, programado por apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro, é uma espécie de resposta ao bate-boca entre o general da reserva Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Heleno disse um palavrão ao se referir ao que chamou de chantagem que os congressistas estariam fazendo ao Poder Executivo.

A convocação do ato em si não causaria tanta celeuma. O que virou polêmica foi que um vídeo convocando o povo para o ato foi compartilhado pelo presidente Bolsonaro a um grupo de amigos dele pelo WhatsApp.

O envio da mensagem do presidente pelo aplicativo foi confirmado por um de seus amigos, o ex-deputado Alberto Fraga à Folha de S.Paulo.

Houve reação de vários setores da política e das instituições. Uma delas foi do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso: “A ser verdade, com,o parece, que o próprio presidente tuitou convocando uma manifestação contra o Congresso (a Democracia), estamos com uma crise institucional de consequências gravíssimas. Calar seria concordar…”
Já o ministro Celso de Mello, decano dos integrantes do Supremo Tribunal Federal disse: “A conclamação de Bolsonaro para ato contra a Corte e o Congresso – se confirmada – revela a face sombria de um presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de Poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República traduz gesto de ominoso desapreço e de inaceitável degradação do princípio democrático!!!”

Diante do vulto que o caso tomou, o presidente Bolsonaro publicou nas redes sociais, nesta quarta-feira, sua explicação do que ocorreu: “Tenho 35 milhões de seguidores em minhas mídias sociais (Facebook, Instagram, YouTube e Twitter) onde mantenho uma intensa agenda de notícias não divulgadas por parte da imprensa tradicional. Já no WhatsApp tenho algumas poucas dezenas de amigos onde, de forma reservada, trocamos mensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República”.

Opinião

Como disse o ministro Celso de Mello, um presidente da República, seja qual for, pode muito, mas não pode tudo. Convocar a população para um ato contra os poderes Legislativo e Judiciário poderia ser enquadrado como crime de responsabilidade.

Já FHC fez sua crítica considerando que Bolsonaro teria divulgado no Twitter a convocação para a população participar do ato.

Com a explicação do presidente de que não foi nas redes sociais que compartilhou o vídeo convocatório, mas em pequeno grupo do WhatsApp, entendo que a gravidade da atitude de Bolsonaro é infinitamente menor.

Eu, na condição de jornalista, não tomei a iniciativa de compartilhar o vídeo de convocação para o ato, embora o tenha recebido de diversos amigos, até porque, como já expliquei, estou procurando me manter afastado dessa polarização nociva de opiniões sobre política. Mas, ainda que estivesse engajado em um desses atos, me limitaria a enviar para os amigos mais próximos, jamais publicaria como notícia no Click ou compartilharia nas redes sociais. Assim como algumas piadas e vídeos que recebo compartilho com um ou outro amigo, mas nunca de forma mais ampla, como seria pelo Facebook ou Twitter, por exemplo.

Entendo que, qualquer que fosse o presidente, ainda que não pudesse deixar transparecer, estaria torcendo para que o tal ato de repúdio tenha o máximo de participação popular. Qual chefe do Executivo não gostaria que o povo se manifestasse em seu apoio, contra o Legislativo e o Judiciário?

Se fosse pelas redes sociais que o fizesse, seria gravíssimo, passível mesmo de um processo de impeachment. Porém, se o fez apenas para um restrito grupo de amigos, creio que se reduz em muito a gravidade desse compartilhamento, embora eu entenda que, na posição que ocupa, nem isso deveria fazer. Como ele reagiria se o presidente do Congresso ou o do STF divulgasse uma convocação de ato contra o presidente da República? O nível dos cargos que ocupam recomenda mais cautela nas atitudes, mesmo entre amigos muito próximos.

Você concorda comigo? Ótimo! Discorda? Ótimo também. Sou intransigente defensor da Democracia, do direito das pessoas terem opinião e a divulgarem.

Valdir Carleto