Bancos não cumprem promessa de facilitar situação das empresas e pessoas físicas

 

Reportagem da Folha de S.Paulo, reproduzida no portal UOL, nesta sexta-feira, trata de um problema que está afligindo diretores de empresas e pessoas físicas de todo o Brasil, referente aos compromissos financeiros com os bancos.

As medidas anunciadas pelo setor bancário na semana passada, por enquanto, ficaram apenas na promessa, para a grande maioria dos clientes que têm procurado obter o benefício de uma carência de 60 dias para pagar as prestações dos financiamentos e demais empréstimos.

Clientes dos principais bancos relataram as dificuldades que têm encontrado até mesmo para entrar em contato com as agências em que têm contas e operações. Os canais de comunicação pela internet e telefone mostram-se inoperantes ou congestionados.

A reportagem, de certa forma, dá eco à inquietação dos empreendedores e pessoas físicas, pois demonstra que não se trata de um problema individual, mas de uma dificuldade coletiva.

Em resposta, as instituições responderam com evasivas ou com afirmações que parecem surreais diante da realidade que os clientes têm enfrentado. Mensagens enviadas por e-mail ou pelas redes sociais sequer são respondidas. Por telefone, os menus não contêm opções para as renegociações pretendidas para evitar inadimplência.

Uma questão levantada por clientes que conseguiram atendimento é que, aproveitando-se da situação, em vez de reduzir os juros e facilitar as soluções, os bancos estão forçando repactuação com aumento das taxas. Ione Almeida, do Idec – Instituto Brasileiro de Direito do Consumidor, orienta a tomar cuidado com a assinatura de aditivos contratuais e a não aceitar condições diferentes das pactuadas originalmente.

Um dos bancos alegou à Folha de S.Paulo razões operacionais que impedem a simples postergação dos pagamentos sem que novos contratos sejam assinados.

O Banco do Brasil afirmou que as renegociações podem ser feitas por meio do Gerenciador Financeiro e que os aplicativos em poucos dias também oferecerão essa facilidade. Garantiu que manterá as mesmas taxas de juros anteriormente pactuadas, apenas lançando os juros relativos a esses dois meses, diluídos nas parcelas seguintes.

No entanto, clientes que por alguma razão técnica ou tecnológica não conseguem acessar o Gerenciador Financeiro não encontram com quem falar para tirar as dúvidas. Os telefones de autoatendimento informam que, devido à pandemia, a demora está maior e recomendam ligar posteriormente.

Outro lado da moeda

Enquanto isso, famílias que têm compromissos a saldar com empresas estão entendendo que elas obtiveram facilidades no pagamento de seus compromissos e que, por isso, podem também oferecer prorrogação aos clientes. No entanto, enquanto os empreendedores não conseguirem renegociar suas parcelas com os bancos, não estão em condições de oferecer elasticidade aos clientes que lhes devem.

Em contato com empreendedores de vários portes que estão nessa situação, o Click Guarulhos captou a necessidade de transmitir uma mensagem às pessoas e mesmo microempreendedores, no sentido de manterem o pagamento em dia de seus compromissos, a não ser que realmente não o possam fazer.

O temor é que, confiando na enganosa promessa dos bancos de que estariam facilitando a situação das empresas, inúmeros devedores busquem cobrir outras despesas, em vez de saldar os compromissos com as empresas. E, se assim acontecer, muitas delas não conseguirão honrar suas dívidas e manter o emprego de seus colaboradores ou, ainda que mantenham, podem não ter como pagar os salários nas datas devidas.

Espera-se que a reportagem chame a atenção do Banco Central e das autoridades, no sentido de exigir que os bancos cumpram o que foi prometido. Os bancos brasileiros, em sucessivos governos, têm tido vultosos lucros e podem perfeitamente suportar esse mínimo de carência que informaram que iriam conceder.

E que as novas linhas de crédito, anunciadas pelo Ministério da Fazenda nesta sexta-feira, de fato estejam ao alcance das empresas e que assim possam continuar operando, investindo na construção de empreendimentos, gerando empregos e impostos.

Valdir Carleto