No Dia da Liberdade de Imprensa, profissionais são agredidos

 

Torcedores fanáticos pelo presidente Jair Bolsonaro, em manifestações em seu favor e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, agrediram fisicamente o fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S.Paulo, que ali estava fazendo a cobertura jornalística. Ele foi empurrado e sofreu chutes e socos. Dois jornalistas do mesmo veículo e até o motorista foram
também hostilizados e agredidos. Ainda foram agredidos profissionais da Folha de S.Paulo, do jornal O Globo e do site Poder360.

Tudo isso já seria absurdo e, mais ainda, por ser 3 de maio o Dia da Liberdade de Imprensa.

Diariamente, diuturnamente, nós, profissionais de Imprensa, temos sido agredidos por todos os meios. Ainda que não fisicamente, que é o máximo da barbárie e da insensatez, mas através de acusações injustas, de ofensas verbais, de comparações indevidas e absurdas.

Esquecem-se os agressores, de todos os tipos, do quanto que os veículos de comunicação têm sido úteis às populações de todo o mundo, denunciando as mazelas, as necessidades do povo nos bairros, a precariedade do serviço saúde, não só público como privado também; denunciando a prática da corrupção em todos os níveis e setores; encabeçando campanhas que ajudam milhões de famintos e necessitados; demonstrando o quanto é necessário frear a destruição da natureza; ensinando formas de prevenção diante de inúmeros perigos que cercam o ser humano… Seria repetitivo e cansativo tentar elencar toda a importância da Imprensa para a humanidade. Mas não custa citar os tantos profissionais que foram mortos, presos, torturados por regimes de exceção, unicamente por exercer a missão que assumiram.

Quantos foram assassinados porque denunciaram a corrupção, o tráfico de drogas e de armas, a violência contra a mulher?

Quantos ladrões do dinheiro público foram pegos, julgados e condenados, graças ao trabalho da Imprensa?

Ainda que abominem determinados veículos de comunicação, nada justifica que agridam profissionais que estão nas ruas, trabalhando, cumprindo o dever de buscar a notícia e transmiti-la. Repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e motoristas das equipes externas estão ali da mesma forma que policiais estão para manter a segurança, independentemente de quem sejam os governantes.

Um soco, um chute, um palavrão desferido a qualquer um deles, ou mesmo aos que estão nas redações ou na parte técnica, não agride apenas aquela vítima. Agride a todos os demais trabalhadores dos meios de comunicação. Ofende até mesmo aqueles de outros veículos aos quais os agressores admiram. Agride a mim, que sequer conheço os que foram atingidos, porque é uma agressão ao livre exercício da profissão, é uma agressão ao sagrado direito da Liberdade de Imprensa.

Não à violência contra profissionais da Imprensa! Não a todos os tipos de violência.

Tive esperança de que o vírus que já matou centenas de milhares de pessoas e fez com que muitos milhões se recolhessem e percebessem sua insignificância aprimorasse a consciência do ser humano. Tristemente, vejo que, ao contrário, a pandemia está mostrando a face sórdida de tanta gente, que só vê os próprios interesses e não desenvolveu a capacidade da empatia, que é ver o outro como seu semelhante, que é sentir no próprio peito a dor do outro.

O que ainda terá de acontecer para que os seres tornem-se verdadeiramente humanos?