A polêmica sobre adiamento ou não do Enem 2020

Aplicativo de Celular ENEM 2019
 
O Senado aprovou nesta terça-feira, 19/5, o texto-base do Projeto de Lei da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), que propõe o adiamento dos exames do Enem, devido à pandemia e ao fato de muitos candidatos não terem as mesmas condições que outros para estudar à distância e se preparar adequadamente. Pelo parecer do senador Izalci Lucas (PSDB-DF), o adiamento seria até que o ano letivo do ensino médio tenha todas as atividades concluídas. Agora o PL irá para a Câmara dos Deputados e, se aprovado, seguirá à sanção presidencial.

O ministro da Educação é contra o adiamento. Entidades estudantis mobilizam-se a favor. O Inep, que é responsável pela realização do Enem, fará uma consulta pública com os estudantes inscritos. O ex-chanceler da UNG, professor Antonio Veronezi, propõe uma solução para não adiar e, ao mesmo tempo, contemplar os alunos menos favorecidos. Veja no final da postagem.

A respeito da polêmica, o professor Francisco Borges, mestre em educação e consultor da Fundação FAT (Fundação de Apoio à Tecnologia) em Gestão e Políticas Públicas voltadas ao Ensino, manifesta-se contrariamente, por entender que adiar o Enem daria carta branca para a Educação deixar de buscar formas de superar o desafio atual. Leia os argumentos dele:
“Neste momento, no qual as diferenças sociais, econômicas e educacionais ficam ainda mais nítidas, vem à tona a discussão sobre o adiamento ou não da data do Enem. Claro que os principais críticos da manutenção do exame no dia programado têm sua razão quando apontam que a pandemia aprofunda ainda mais a injustiça de um modelo de avaliação de ranqueamento baseado em um sistema educacional totalmente não equânime. Apesar disso, é preciso observar que a manutenção da data do Enem tem um valor importante como política pública, que é cobrar do Estado a conclusão do ano letivo de 2020 no ano de 2020.

Isto porque, apesar das flexibilizações disponibilizadas pelo Conselho Nacional de Educação, homologadas e publicadas pelo Ministério da Educação, que abre mão dos dias letivos, desde que a carga horária mínima de cada etapa seja cumprida em 2020, as escolas ainda se sentem “engessadas e congeladas” para fazer com que o conteúdo e as atividades cheguem a todos os alunos.

A discussão deveria ser muito mais ampla do que uma simples mudança de data. Seja pela internet, via satélite, através das TVs, pelo Correio, via entregadores ou até retiradas programadas nas próprias escolas, é preciso encontrar meios para que os sistemas de ensino municipais e estaduais, públicos e privados concluam as atividades de cada um dos anos de todas as etapas. As dificuldades dos jovens que estudam nos estados da região Norte, cortados por rios, das crianças que vivem nas periferias e no interior continuam as mesmas e precisam ser resolvidas e superadas.

Adiar a prova do Enem é dar carta branca para que os sistemas de ensino públicos e privados deixem de buscar formas de superar o desafio atual. Na verdade, a manutenção da data é a melhor ação que o Estado deveria propor, pois é uma forma de assegurar a conclusão do ano letivo em 2020 para centenas de milhares de alunos que precisam se dispor a estudar em 2021 no Ensino Superior. Precisamos destes alunos estudando, se motivando, focando em superar desafios e se tornando cidadãos e profissionais mais eficientes o mais rápido possível.

Se analisarmos friamente, o período que deveria ser mais fácil para as escolas se comunicarem com os alunos, de disponibilizarem materiais e atividades diversificando as formas de aprendizado é o 3º ano do ensino médio. Nesta fase, os alunos estão mais maduros, mais autônomos e muito conectados, pois é praxe ouvirmos e lermos casos que relatam a discussão: alunos usam smartphones nas salas de aulas e agora não conseguem utilizá-los em home office? Este tema traz à luz a grande dificuldade do setor educacional público e privado de todos os níveis, de agir e reagir rápido às necessidades de cenários.

Os indicadores de baixo uso de recursos disponibilizados pelos alunos não é decorrente da falta de recursos tecnológicos e sim da total falta de planejamento da forma de oferta, de qualquer plano de atividades, com horários estabelecidos, com marcos de verificação de aprendizagem. Tudo isto se resume no desenho das trilhas formativas e não somente na disponibilização “sem nexo” de conteúdos nas mídias.

Alunos precisam ser guiados, orientados e acompanhados. Alunos em um museu com obras fantásticas, se não tiverem orientação prévia ou no acesso, durante a “visita” ficarão perdidos e até parados, sem saber para onde ir. A educação de sucesso é resultado de planejamento e de rotina. Que venha o Enem em novembro. Desta data para trás, cada escola proponha o seu calendário e plano de ensino para obter os melhores resultados. Uma referência em 2020 assegurará o final deste ciclo sem comprometer 2021 também.”

Opinião do professor Antonio Veronezi


O ex-chanceler da UNG, professor Antonio Veronezi, propõe uma solução para evitar que o Enem seja adiado e que alunos de escolas públicas sejam prejudicados. “É importante que o Enem seja realizado na data programada, para que os que os pretendem ingressar no ensino superior não percam o ano ou o semestre letivo. Os mais velhos devem se lembrar dos cursos de admissão ao ginásio e os mais modernos conhecem o intensivão dos cursinhos preparatórios aos vestibulares. Porém, os menos afortunados, até pelo agravamento da pandemia e por não estarem concluindo o nível médio com regularidade, ficam em desvantagem. Que tal se as instituições particulares de ensino superior ministrarem cursos preparatórios gratuitos a estudantes que necessitem complementar o aprendizado, sem se importar com a opção do candidato, mesmo sabendo que a grande maioria terá como primeira opção a Universidade Pública?”, sugere. Ele entende que será uma oportunidade para as faculdades mostrarem sua qualidade de ensino e demonstrar que seus dirigentes são verdadeiros educadores.

A Unisa – Universidade Santo Amaro já declarou que colocará em prática um curso preparatório nesses moldes. Quando forem informados detalhes, divulgaremos.