Com 57 anos de história, bar do Greguinho vai deixar saudades

 

Em dezembro de 2016, a Revista Weekend, da Carleto Editorial, comemorando o aniversário da cidade, publicou reportagens a respeito de empresas e estabelecimentos que há décadas vinham se mantendo na preferência do público guarulhense. Um desses locais, com muita justiça, foi o Bar do Greguinho,

Reproduzimos a reportagem original. No final, relato sobre os fatos e fatores recentes:

Greguinho, tradição de pai para filho

Em outubro de 1963, na praça Tereza Cristina, Centro de Guarulhos, ao lado da igreja Matriz, foi inaugurado o bar que se tornaria um dos mais tradicionais da cidade. O dono, um grego, acabou vendendo, em 1975, para Alfredo Rios, um imigrante espanhol, que manteve o nome Bar do Grego.

Porém, o criador do local acabou abrindo outro restaurante ao lado do original, que era bem maior que o então “Bar do Grego”. Então, Flávio Rios, filho de Alfredo, que acompanhava o pai no restaurante desde seus 11 anos de idade, sugeriu que, por ser um espaço menor, o bar recebesse carinhosamente o nome de Greguinho.

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Quando Flávio se formou em Direito na FIG (Faculdades Integradas Guarulhos), aos 21 anos, seu pai o demitiu para que ele pudesse vivenciar algo diferente do que vinha fazendo nos últimos 10 anos. Com isso, ele foi trabalhar no ramo imobiliário. Em 1991, porém, seu pai ofereceu a ele o comando do negócio. Isso aconteceu em uma segunda-feira; na terça, Flávio não foi nem para um trabalho, nem para o outro. Na quarta pela manhã, já estava no restaurante, que administra até agora, chegando por lá todos os dias, às 4h da manhã, para abri-lo às 5h30.

O bar e restaurante oferece 24 pratos, quase 40 sabores de pizzas, esfihas abertas e fechadas, 50 tipos de salgados e tem como novidades os escondidinhos de carne seca, carne moída e de frango. Os costumeiros pedaços de pizza, que fizeram a fama do Greguinho, continuam sendo sucesso. Flávio cita que quando a Folha Metropolitana ficava na praça, jornalistas frequentavam sua casa; entre os quais, Castelo Hanssen, que continua em Guarulhos, e Hermano Henning, do SBT.

Os clientes fiéis já estão em sua quarta geração, fidelidade que Flávio atribui ao bom atendimento e à alta qualidade dos produtos que oferece. “O cliente vai sentar, vai comer, e ele tem de voltar!”, comenta Flávio, acrescentando que o nome da casa ajuda a atrair clientes interessados em comida grega, da qual procura ter algumas especialidades, além de um pouco de diversas culinárias. Como a região é frequentada por hóspedes dos hotéis, o cardápio é em português e em inglês.

Ele conta que o negócio frutificou: sua filha, formada em nutrição, abriu um restaurante em São Paulo, na rua Sete de Abril, junto com os outros dois irmãos, um cursando administração e o outro com o curso já concluído. A casa, bem maior do que o Greguinho guarulhense, serve comida por quilo, com churrasco. Flávio garante que a decisão foi espontânea: ele não forçou nenhum deles a entrar no ramo, “mas agora a família toda trabalha com muita dedicação e amor, para servir bem e sempre”.

Uma ótica ocupará o lugar do lendário bar

Já em 2019, Flávio Rios manifestava a amigos o desejo de deixar o ramo, declarando estar cansado. De fato, não era fácil sua rotina, que tinha início diariamente às 5h da manhã.

Um dos fatores que provocaram o desencanto do comerciante foi a crescente visão de abandono do centro de Guarulhos. O bar situa-se na esquina da rua Capitão Gabriel com a praça Teresa Cristina, a poucos metros da Catedral de N.Sra. da Conceição, a antiga Igreja Matriz.

Flávio não escondia a contrariedade de ver, a poucos metros de seu bar, montes de lixo e de materiais recicláveis sendo acumulados por catadores, moradores em situação de rua ocupando espaços públicos e muitos deles embriagados o sob efeito de drogas, importunando os pedestres, chegando a entrar em seu restaurante para pedir dinheiro ou alimento aos clientes.

O Bar do Greguinho foi proibido de usar cadeiras na calçada, que era uma tradição dos tempos em que a cidade era pacata. Porém, outros estabelecimentos situados em calçadas menos concorridas mantinha a prática, o que foi considerado por Flávio uma concorrência desleal. “Por que a lei não é igual para todos?”, perguntou, indignado.

Certamente, a pandemia foi a gota d’água, com todas as restrições impostas aos bares e restaurantes. Como a localização é privilegiada, é natural que qualquer ramo de atividade se interessasse em ocupar aquele espaço e, pelas informações que amigos e frequentadores postaram, passará a ser uma ótica.

Apurei que Flávio irá unir-se aos filhos, no mesmo ramo, no bairro paulistano do Tucuruvi. Ao lado do “Jangada – Velho Chico”, haverá um novo Greguinho: avenida Mazzei, 885. A inauguração está prevista para outubro.

Depois de quase seis décadas de permanente sucesso, o Bar do Greguinho vai deixar muita saudade em Guarulhos. Em suas mesas, saboreando suas incríveis pizzas e outros pratos que fizeram sua tradição, romances tiveram início, projetos comerciais receberam seus primeiros passos, negócios foram fechados, políticos traçaram estratégias e acordos definidos, jornalistas fizeram refeições às pressas para cumprir pautas urgentes, poetas escreveram poemas e autores compuseram canções. Quantas reflexões sobre a vida, a carreira, os amores foram feitos por inúmeras pessoas diante de um copo de cerveja no Bar do Greguinho.

Ela sai de cena. Mas não sairá tão cedo das mentes das pessoas que tiveram o privilégio de frequentá-lo, ainda que fosse para um breve cafezinho.

À família Rios, fica registrada a gratidão da cidade de Guarulhos, por essas décadas de fidelidade à sua tradição e por honrar os princípios legados de pai para filho.

Valdir Carleto

fotos: Marcelo Santos (2016)