“Nunca a campanha de prevenção ao suicídio foi tão necessária,” diz neurocientista

Setembro Amarelo terá foco em prevenção do suicídio entre os jovens - Marcelo Camargo/Agência Brasil
 

Estamos no ‘Setembro Amarelo’, e nunca na história este tema se tornou tão relevante como no momento de pandemia que vivemos. A campanha iniciada em 2015 no Brasil escolheu o mês de setembro para que possamos nos conscientizar e ajudar contribuindo com a prevenção, assim é possível evitar que a depressão leve ao suicídio. 

Após relatos de suicídios relacionado com o coronavírus e o confinamento a ele associada, o neurocientista, psicanalista, membro da Mensa e especialista em estudos da mente humana, Fabiano de Abreu, confirmou que o número de casos de depressão se acentuou com a crise psicológica da pandemia, e então concentrou-se em pesquisas e análises para avaliar o que ele já previa ocorrer.

“Eu já temia a possibilidade de que pessoas com depressão e/ou ansiedade potencializada, no confinamento, sendo bombardeadas com notícias ruins e a má utilização da ansiedade, poderiam piorar o quadro depressivo ou chegar nele; e ter um aumento no número de suicídios. Tomando ciência do ocorrido, reuni o meu grupo de pesquisa para tentarmos contribuir de alguma maneira para que isso não eleve mais ainda o número de mortos por causa do coronavírus, seja diretamente ou indiretamente.

Pessoas com uma ansiedade potencializada e contínua podem entrar em depressão, e pessoas em depressão têm maior risco de suicídio. O risco é maior na vigência da doença e de comorbidades. Estamos imersos num cenário de incertezas e elas geram medos e angústias. É importante cuidar do equilíbrio emocional a fim de evitar ações definitivas para problemas transitórios. O suicídio não é solução; e sim mais um problema de saúde pública a ser tratado.”

Fabiano encontra dificuldades em aprofundar seu estudo no Brasil devido à burocracia para fazer pesquisas no país; mas, como vive também em Portugal, aproveitou a maior facilidade em pesquisas na Europa para chegar às suas conclusões. 

“Sou registrado na ‘Plataforma Brasil’, onde preciso protocolar uma simples pesquisa e o procedimento é lento e burocrático e eu tenho pressa, já que cada dia perdido pode significar vidas perdidas por falta de auxílio. Em Portugal, profissionais da saúde podem fazer pesquisas de forma independente, assinando embaixo a responsabilidade. Minha pesquisa foi baseada em entrevistas com psicólogos membros do meu centro de pesquisas, também com base no Instituto Gaio, membro da Unesco onde fiz o meu mestrado em psicanálise e atendo pacientes sem condições financeiras de pagar tratamento, e com base na pesquisa que fiz em Portugal com portugueses e brasileiros que vivem no país. Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o prognóstico”, diz o psicanalista.

Seguem as dicas do profissional para observar o caso mais próximo e tentar ajudar:

Em momento de reclusão e isolamento social, por conta do cenário mundial – Pandemia de Coronavírus – se você é portador da doença “Depressão”, observe algumas questões “preventivas” bastante pertinentes:

  1. Mantenha o seu tratamento psicoterápico via on-line: a grande maioria dos profissionais estão trabalhando nessa modalidade.
  2. Se faz uso de medicação, siga corretamente a prescrição médica. Não aumente a dosagem, nem interrompa por conta própria.
  3. Se a sua medicação está para acabar, entre em contato com o seu psiquiatra, que deve estar atuando sob novos protocolos.
  4. Mantenha-se informado somente por vias sérias e éticas de notícias. Evite “fake news”.
  5. Trabalhe a sua respiração através da meditação. A respiração consciente e ritmada mantém a homeostase do corpo.
  6. Durma bem: o sono fisiológico possibilita uma “psicoprofilaxia”, filtragem e limpeza de metabólitos cerebrais.
  7. Mantenha uma alimentação equilibrada. Prefira alimentos funcionais, menos processados e coloridos. “Descasque mais e desembrulhe menos”.
  8. Beba água: mantenha-se hidratado para o melhor funcionamento de todo o sistema de filtragem e eliminação, para o bom funcionamento do organismo.
  9. Use a criatividade e o espaço possível para uma atividade física de que goste.
  10. Evite excesso de álcool, evite drogas. Mantenha-se lúcido.
  11. Mantenha a rotina: isso faz com que você continue orientado no tempo.
  12. Desenvolva um plano para uma comemoração quando tudo isso passar. 
  13. Traga para sua mente bons pensamentos e boas emoções. O que nós pensamos nós sentimos.
  14. Pense coisas boas!
  15. Sinta-se pertencendo a um grupo, o sentimento de pertencimento traz importância.
  16. Faça chamadas de vídeo ou mesmo videoconferência para reunir os amigos.
  17. Não falta tempo! Por isso, organize a casa, os armários, leia os livros que guardou na estante, assista aos filmes e às séries que queria e “não tinha tempo”.
  18. Descubra um talento oculto, e trabalhe-o como uma terapia ocupacional: Escrever, desenhar, pintar, esculpir, cozinhar, bordar…

Para casos mais graves em que tenha ocorrido uma tentativa ou pensamentos de suicídio, trabalhe na “redução de danos”, seguindo orientações básicas:

  1. Seja presente de forma integral na vida do sujeito portador do transtorno – depressão.
  2. Aproxime-se de pessoas que estão em sofrimento emocional/psicológico.
  3. Ofereça conversa com escuta de qualidade.
  4. Conduza a conversa até perceber que a pessoa está segura e confiando em si.
  5. Pergunte abertamente se ela já pensou na própria morte.
  6. Com o terreno preparado, pergunte se ela já pensou em tirar a própria vida.
  7. Pergunte que método ela escolheria e por que seria assim?
  8. Deixe-a falar, chorar, contar todo o seu plano.
  9. Após tomar conhecimento da idealização e do planeamento, mostre-se solidário.
  10. Compreenda, sem julgar. A partir daí, ofereça um “pacto ou um contrato de preservação” à vida.
  11. O desafio e a confissão trazem alívio, deixando a pessoa com o recurso de procurar ajuda naquele confidente ou num grupo de ajuda.
  12. Quando nos esvaziamos desse sentimento de angústia e desesperança, começamos a valorizar a vida.
  13. Ter alguém que guarda o nosso segredo conecta-nos a um outro ser. Esse sentimento de confiança forma um elo e traz motivação para superar o momento.
  14. Ter ciência do plano e do planeamento para a execução pode tirar da pessoa a ferramenta que ela utilizaria.
  15. Recolha a medicação, retire o que puder ser feito de corda, lâminas cortantes, e não deixe a pessoa sozinha. 
  16. A presença traz a companhia e inibe a tentativa de atentar contra a própria vida.

Fabiano de Abreu é neurofilósofo, neurocientista, neuropsicólogo, neuropsicanalista, neuroplasticista, psicanalista e psicopedagogo