quinta-feira, 5 agosto 2021
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Para brasileiros não há lockdown que resolva

Em um mundo tão conturbado, com os nervos das pessoas à flor da pele, e uma imensa incapacidade de admitir que outros pensem o contrário, tenho até evitado de emitir opiniões.

Mas, vendo as opiniões tão divididas quanto à eficácia das medidas de isolamento que têm sido tomadas por governos para tentar conter a disseminação do vírus, e analisando o que vejo nas ruas de Guarulhos, nas mínimas vezes que tenho circulado por bairros da cidade, atrevo-me a este comentário, mesmo sabendo que muitos internautas irão me rotular disso, daquilo e de outras coisas mais. É o risco diário de quem se expõe.

Governantes costumam errar muito e sempre sou muito crítico a eles, sejam de quais partidos forem e de todos os níveis de poder. Porém, no que diz respeito à covid-19, creio que não é possível que quase todos os governantes do mundo estejam errados ao pôr em prática o que recomendam as autoridades da Saúde.

Discordo de amigos – aos quais quero muito bem e respeito – quando opinam que ao decretar medidas de isolamento governadores e prefeitos estão a serviço de organismos internacionais de esquerda que querem destruir a economia, para implantar regimes socialistas e comunistas. Governantes têm interesse em arrecadação alta, para poder investir, mostrar serviço, serem reeleitos ou galgar voos mais altos. Nenhum governante arriscaria a própria reputação em nome de um projeto que não é o dele.

Por outro lado, discordo também de amigos médicos que abominam a utilização de determinados medicamentos que não têm eficiência comprovada contra o vírus, argumentando que têm contraindicações. Por exemplo, a Ivermectina, remédio indicado para tratamento contra vermes. Há cidades que o aplicaram em larga escala e relatam bons resultados, tanto em 2020 como agora. Contra a recomendação desses amigos, tomei Ivermectina em dois momentos diferentes: no início da pandemia e alguns meses depois. Ainda assim, fui contaminado, porém, bem leve. Diante dos sintomas, além da medicação receitada no pronto-socorro, tomei novamente Ivermectina, por conta própria – e assumindo o risco das contraindicações, que, a bem da verdade, todos os medicamentos têm. Pode ser que não tenha feito diferença ter tomado, pode ser também que a covid tenha sido leve graças a esse medicamento e, quem sabe, que eu tenha me curado logo por não ter me limitado à prescrição médica. De médico e de louco, cada um de nós tem um pouco.



As pessoas se contaminam nos bairros: com ou sem lockdown


Vou ater-me agora ao tal lockdown. Nenhum estado ou cidade do Brasil o aplicou com rigor. Lockdown é mesmo tudo parado, todo mundo em casa, só saindo em caso de extrema necessidade ou se atua nos serviços realmente essenciais. Mesmo nas cidades paulistas que decretaram lockdown, não houve rigor absoluto e ninguém obedeceu tão fielmente.

A julgar pelo que vi hoje em bairros de Guarulhos, não há lockdown que resolva no Brasil.

Na chamada “20 Metros”, na Vila Galvão, muita gente caminhando, correndo, andando de bicicleta, conversando, brincando uns com os outros, sem máscara, que ninguém suporta respirar atrás daquele tecido quando fica úmido…

Para levar doações a um amigo, estive em um local onde creio que nenhum fiscal da Prefeitura jamais apareceu e polícia só deve ir muito raramente. Por onde passei, as pessoas estavam tranquilamente reunidas nas calçadas, batendo papo, bebendo em rodinhas, crianças brincando nas ruas e praças. O supermercado onde passei antes de ir estava abarrotado de gente. Uma pessoa de cada família, como recomendado? Não! Avó, filha e netos juntos, escolhendo as mercadorias, pondo a mão em tudo que iria comprar e no que não iria também. Todos que vi estavam de máscara, mas muitos com o nariz para fora ou muito folgadas no rosto; alguns ajeitando-a com a mão a cada pouco; ou seja, passando para a máscara o vírus que pode ter pegado pouco antes…

Moral da história: não é preciso contaminar-se nos ônibus lotados, como muito se apregoa. Nem é preciso pegar o vírus atuando na linha de frente dos serviços de saúde nem de outras atividades essenciais. As pessoas pegam covid até na porta de casa, conversando com a vizinha, jogando bilhar no boteco; fazendo a fezinha no quiosque do jogo do bicho – aliás deve ser considerado atividade essencial, pois estão todos funcionando. Homens e mulheres pegam vírus nos chamados clubes privê, como bem disse uma profissional do ramo em um áudio que viralizou na internet: “Quem vem na zona não está preocupado com covid”. Essas casas talvez também sejam consideradas essenciais, pois não escondem estar funcionando normalmente.

Se não bastassem os adultos que carregam o vírus da covid para lá e para cá, ajudando a lotar os hospitais e deixar exaustos os médicos, enfermeiros, auxiliares e todos mais, ainda temos a inocente ação das crianças, quase todas assintomáticas. Elas pegam o vírus dos coleguinhas e o levam para dentro de casa, contagiando pais, irmãos, tios e avós.

Em resumo, não adianta decretar toque de recolher, nem às 20h, nem às 18h, nem hora nenhuma. Não existem meios para fiscalizar cada ponto remoto das cidades. E ainda que todos os servidores de todas as prefeituras fossem colocados nas ruas para fiscalizar, ninguém iria impedir a dona Maria de conversar com dona Cida no portão: uma foi apenas pedir emprestado um quilo de arroz à vizinha ou outro motivo qualquer. Ninguém vai multar a mocinha que beijou a boca do namorado, depois de uma semana sem vê-lo. Ninguém vai proibir o avô coruja de dar aquele abraço gostoso na netinha.

E assim, de gesto em gesto, por simples que seja, por mais inocente que seja cada atitude nossa de cada dia, o coronavírus está matando muita gente a cada instante. Detalhe: o vírus não é filiado a nenhum partido, não tem corrente ideológica, não escolhe quem tem ou não diploma, não poupa quem tem muita grana no banco, nem milhares de propriedades. O vírus é como a lei deveria ser: todos são iguais perante ele. O vírus é como Deus: para ele somos todos iguais.

Quem tiver juízo que se cuide e proteja os seus. E respeite que todos os outros também merecem se proteger. Das atitudes de cada um de nós depende o fim da pandemia ou, pelo menos, que se ela demorar a acabar, haja um intervalo de tempo entre as contaminações, para que as pessoas possam ser atendidas nos serviços médicos, sem que tenhamos de chorar tantas vidas perdidas.

Valdir Carleto

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