Ao menos 25 cidades do estado suspenderam a imunização da segunda dose por falta de vacina

São Paulo - Vacinação contra covid-19 aos profissionais da saúde do Hospital das Clínicas, no Centro de Convenções Rebouças.
 

O secretário da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, disse nesta terça-feira (4), que a falta de vacina para aplicação da segunda dose é resultado de um “erro de estratégia” das prefeituras, que não seguiram a recomendação de reservar os lotes para garantir a imunização completa dos públicos-alvo.

“É importante reforçar um erro de estratégia, que é o não seguimento das orientações do Ministério da Saúde e da Secretaria da Saúde. Em primeiro lugar, sempre mandávamos as doses separadas em primeira e segunda, e falávamos: “olha, guarde a segunda”. Excepcionalmente, em 21 de março, o Ministério autorizou que a primeira e a segunda dose poderiam ser utilizadas. Excepcionalmente para aquele lote. As demais deveriam conservar a segunda dose. Foi isso que vários estados não fizeram e infelizmente alguns municípios”, afirmou o secretário em entrevista à GloboNews nesta manhã.

Ao menos 25 cidades do estado de São Paulo já suspenderam a vacinação de 2ª dose em virtude da falta de vacinas desde sexta-feira (30).

“Eles gastaram a segunda dose, tanto progredindo faixas etárias quanto grupos. O resultado é esse”, defendeu Gorinchteyn.

Em decisão desta segunda (3), o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que gestores públicos podem ser punidos por improbidade administrativa se houver atraso na aplicação da segunda dose da vacina contra a Covid-19.

Veja abaixo as cidades que já confirmaram a suspensão da imunização:

Grande São Paulo

  • Cajamar; São Lourenço da Serra.

Região de Campinas

  • Vinhedo; Águas de São Pedro; Águas de Lindóia; Morungaba; Capivari; Charqueada; Limeira; Monte Alegre do Sul; Santo Antônio do Jardim.

Região de Sorocaba

  • Sorocaba.

Região de São Carlos

Rio Claro; Santa Cruz da Conceição.

Região de São José dos Campos

  • Jacareí; Caçapava.

Litoral

  • Praia Grande; Itanhaém.

Região de Presidente Prudente

  • Estrela do Norte; Flora Rica; Indiana; Parapuã, Presidente Epitácio; Piquerobi; Sagres
  • Fonte: Levantamento GloboNews

Flexibilização econômica

Durante a entrevista, o secretário também defendeu as medidas tomadas pela gestão estadual, que ampliou o horário de funcionamento de diversos setores, apesar do número de casos e mortes provocadas pelo coronavírus permanecer em patamares altos.

O secretário sugeriu não ser possível manter restrições duras até que os índices apontem quedas mais efetivas.

“Esse é o mundo do sonho. Temos pessoas precisando garantir empregos. (…) Entendemos que se cada um fizer sua parte, poderemos progredir com segurança. Mas se continuarmos vendo desrespeito às medidas sanitárias, vamos ter problemas. O problema não é abrir. É fazer com que as pessoas saiam com responsabilidade e consciência, sejam eles os trabalhadores ou pessoas nas suas atividades de lazer.”

Segunda dose no estado de SP

A região de Campinas é uma das mais afetadas, com pelo menos cinco municípios sem doses suficientes para dar prosseguimento ao calendário de vacinação.

A suspensão se deve, de acordo com algumas prefeituras, à quantidade insuficiente de doses enviadas pela secretaria estadual da Saúde de São Paulo aos municípios.

Há situações em que a suspensão da aplicação da segunda dose se restringe a uma determinada faixa etária. É o caso de Sorocaba, por exemplo, onde foi suspensa a imunização, que seria iniciada desta sexta-feira (30), de idosos de 68 anos ou mais.

A Prefeitura de Sorocaba diz que “houve uma diferença de 1.043 doses e o município já notificou o Estado sobre a falta e está solicitando mais vacinas há dias”.

“Um total de 5.583 idosos dessa faixa etária precisam ser imunizados com a segunda aplicação.” A prefeitura da cidade informou que retomará a vacinação nesta segunda-feira (3).

Já em Vinhedo, na região de Campinas, há falta de vacina para a aplicação tanto da primeira quanto da segunda dose da CoronaVac.

A suspensão atingiu idosos de 64 anos com a primeira dose e os de 68 anos com a segunda dose. A aplicação estava marcada para entre os dias 26 de abril e 2 de maio. A vacinação será “retomada assim que um novo lote de vacinas for entregue ao município pelo governo estadual”, segundo a Prefeitura de Vinhedo.

No litoral, a Prefeitura de Praia Grande afirma que está “fazendo pedidos diários ao estado e aguardando o recebimento de novo lote”. Além da faixa etária que já completou 21 dias da primeira dose, a cidade também tem os profissionais da Educação que completaram 21 dias neste final de semana e tem até 28 dias para tomar a segunda dose, mas estão sem a vacina disponível.

Capitais também enfrentam problema

Levantamento feito no último domingo (2) aponta que a aplicação da segunda dose da CoronaVac também está suspensa em cinco capitais brasileiras:

  • Aracaju e  Porto Alegre: processoestá interrompido por falta de estoque;
  • Fortaleza: lote entregue no sábado (1º) não é suficiente;
  • Porto Velho: até a chegada de nova remessa, prevista para os próximos dias, também não há expectativa de retomar a aplicação da vacina;
  • e Rio: suspensão por dez dias — apenas a vacina de Oxford/Fiocruz está sendo distribuída.

Em Salvador, o processo não foi totalmente interrompido, mas há escalonamento: só receberão a segunda dose da CoronaVac, por enquanto, aqueles que deveriam ter tomado a vacina nos dias 29 e 30 de abril.

Em Natal, o critério é por idade: apenas os idosos a partir dos 78 anos, que estão com no mínimo 28 dias de atraso para tomar o reforço, podem receber o imunizante.

E em Macapá, onde a vacinação estava suspensa há uma semana, 1.600 doses da CoronaVac foram distribuídas — como o número não é suficiente para imunizar todos os que aguardam na fila, o governo organizou uma lista com nomes de idosos acima de 65 anos que poderão ser os primeiros beneficiados.

Vaivém de decisões

De acordo com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a interrupção é resultado da conduta de seu antecessor no comando da pasta, Eduardo Pazuello.

“[O atraso] decorre da aplicação da segunda dose como primeira dose”, afirmou. “Logo que houver entrega da CoronaVac, [o problema] será solucionado.”

Antes, os estados estocavam vacinas para garantir que todas as pessoas já imunizadas recebessem a segunda dose. Em fevereiro, no entanto, Pazuello mudou a orientação: determinou que todas as vacinas fossem aplicadas de imediato, sem a preocupação de guardar parte delas.

Foi um vaivém de regras: dias depois, o Ministério da Saúde voltou atrás  e disse que os estados deveriam, sim, estocar a CoronaVac para garantir a segunda dose a todos. Em março, mais uma vez, a pasta mudou de opinião e orientou a aplicação de todas as vacinas, sem reservas.

“O ministério fez isso, mas nós somos dependentes da China para os insumos farmacêuticos ativos (IFAs). O erro foi ter feito essa orientação sem ter garantia de que a produção estava iniciada. Contar com IFA que nem saiu da China é uma situação complicada”, diz a epidemiologista Ethel Maciel.

Em abril, Queiroga foi ao Senado para dizer que a orientação mudou mais uma vez: desde então, os estados devem armazenar metade do estoque para garantir que o esquema vacinal de duas doses seja cumprido no intervalo correto (28 dias para a CoronaVac/Butantan e 3 meses para a de Oxford/Fiocruz).

Segunda dose deve ser tomada mesmo fora do prazo

Em nota técnica divulgada na terça-feira (27), o Ministério da Saúde orientou a população a tomar a segunda dose da vacina contra a Covid-19 mesmo que a aplicação ocorra depois do prazo recomendado pelos laboratórios.

Segundo o documento, é “improvável que intervalos aumentados entre as doses das vacinas ocasionem a redução na eficácia do esquema vacinal”.

No entanto, a pasta ressalta que os atrasos devem ser evitados, já que “não se pode assegurar a devida proteção do indivíduo até a administração da segunda dose”.