A advogada Andrea Gama, 42 anos, preside a Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB – Subseção Camaçari, na Bahia. Até chegar a este desafio profissional, a advogada teve que enfrentar o maior de sua vida: a maternidade.
Mãe de dois filhos, Elias Neto, 18 anos e Andressa Victoria, 13 anos, a graduação em Direito foi motivada por anos de luta e busca por direitos para que o seu filho Neto, com autismo leve, pudesse ser acolhido em um mundo cheio de desinformação e preconceitos.
Andrea conta que logo nos primeiros meses de vida do filho, ela e o marido, Elias Júnior, 49 anos, percebiam que o comportamento do filho era diferente, se comparado ao de outros bebês. “Ele não desenvolvia a fala, sua comunicação era restrita e andava na ponta dos pés. Até a forma de brincar era diferenciada. As brincadeiras com carrinhos não eram de empurrar e sim de rodar; não se interessava por muitas coisas; gostava de enfileirar, separava os brinquedos por cor, e apesar de não falar reconhecia as formas, apontava. E sempre teve muita facilidade com eletrônicos”, diz.
Em busca de ajuda especializada, o casal vivenciou uma verdadeira via sacra e um olhar nada empático e otimista. Neste período, Andréa lamenta ter se deparado com profissionais despreparados para reconhecer o Transtorno do Espectro Autista – TEA e algumas especificidades relacionadas a ele. E teve de ouvir que as crises sensoriais de autismo não passavam de “birras” e que limites tinham que ser impostos. “Um médico chegou a me dizer que cada criança tem um tempo de desenvolvimento e aprendizado. Neto não tinha nenhum comprometimento cognitivo; ao contrário, aprendeu a ler antes mesmo de ser alfabetizado na escola. Com habilidades acima da média, nunca apresentou dificuldades de aprendizado. O maior desafio do meu filho era interagir com outras crianças e, no período escolar, lidar com profissionais da educação que praticassem a inclusão em sua integralidade”.
Mesmo diante de muito preconceito por parte da sociedade e de outras crianças, com episódios de segregação, decepções e dores, os pais de Neto não desistiram e ele sempre teve acesso aos atendimentos multidisciplinares. Inquieta por ver que seu filho sofria com bullying na escola, Andréa tratou de criar um ambiente familiar acolhedor para o filho, cercando-o de muito amor, carinho e estímulo para enfrentar a trajetória escolar e a vida em sociedade.
E contrariando as piores perspectivas dos profissionais da saúde, Neto sempre foi muito carinhoso. “Ouvimos uma vez que ele não seria capaz de nos abraçar, o que não é a realidade em nossa casa. Neto sempre foi afetuoso, sempre gostou de abraços. Não há um dia que ele não nos abrace e diga que nos ama. Ele e a irmã são bem parceiros. Ele a protege, a defende e luta por seus direitos”, conta Andréa.
De espírito contestador como a mãe, Neto, autoditada em Inglês, aprendeu a ler, escrever e se comunicar no idioma, tem habilidades em exatas, não se acomoda e não deixa que o rotulem. Como qualquer mãe que torce e batalha pela felicidade dos filhos, a mais recente conquista de Andréa e de sua família é ter o filho aprovado no curso de Ciências da Computação pela Universidade Federal da Bahia – UFBA.

E aí começa mais uma luta de Andréa, agora como operadora do Direito. Estudante de Tecnologia da Informação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA, lugar onde foi bem acolhido e se destacou, Neto e família tiveram as suas vidas afetadas pela pandemia do coronavírus. Como a instituição é federal, as aulas foram suspensas. O ano letivo de 2020 foi transferido para 2021. Neto passou pelo Enem e foi classificado no Sisu, mas sem concluir o Ensino Médio, o que levou Andréa a impetrar mandado de segurança para assegurar a matrícula dele na universidade. E a mãe e advogada já comemora uma vitória. Levando em consideração as notas do Enem para o aproveitamento do Ensino Médio, o IFBA expediu o certificado de conclusão de curso e a pré-matrícula foi efetuada. “Vivemos etapas em nossas vidas e esta é mais uma. Um processo trabalhoso em que a gente ri, chora, agradece e segue acreditanto que é possível. Ele se dedicou para alcançar o resultado e nós, como família, demos o apoio necessário”.
Enquanto Andréa luta pela independência do filho e aguarda como profissional do Direito a efetivação da matrícula, no início de abril dividiu com toda a comunidade a alegria, como mãe, de ter o filho participando de uma live sobre o Mês de Conscientização do Autismo, na Comissão em que ela preside na OAB. Na ocasião, Neto compartilhou sua trajetória de vida, seus medos, anseios e conquistas. “Neto me viu fazer lives falando do espectro autista e de outras pessoas com deficiência, e pediu para participar. E eu, como mãe, mesmo receosa em expô-lo, fiquei orgulhosa em vê-lo conquistando o seu espaço. Estar à frente da presidência da Comissão de pessoas com deficiência me leva a dividir toda esta experiência com pais e familiares que passam pelo mesmo que eu e minha família. Afinal, a nossa luta é por uma sociedade inclusiva”, concluiu.

