Por que estão vacinando adolescentes se menos da metade dos adultos tomou a segunda dose?

Por sugestão do internauta Carlos Barreto, elaboramos esta matéria para buscar explicar por qual razão estão sendo vacinados adolescentes com a primeira dose de vacina contra a covid-19, se menos de 40% dos adultos brasileiros estão completamente imunizados.

Segundo o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, foram distribuídas mais de 230 milhões de doses de vacina contra a covid-19. Dessas, mais de 187 milhões foram aplicadas, sendo 128,4 milhões em primeira dose, o que corresponde a 79,8% da população adulta com ao menos uma dose de vacina. A pasta informou ainda que mais de 59 milhões de brasileiros já completaram o esquema vacinal, ou seja, 36,9% da população-alvo. O MS cita também que cerca de 9 milhões de adultos que receberam a primeira dose não compareceram para a segunda dose.

O Estado de São Paulo, que é um dos que mais completaram a imunização de adultos, aplicou 49,88 milhões de vacinas contra covid-19 e já alcançou 97,11% de todos os adultos com pelo menos uma dose de vacina, sendo que 47,23% já possuem esquema vacinal completo. Os dados são do Vacinômetro, extraídos às 12h45 deste domingo.

O médico infectologista, mestre em medicina tropical e saúde internacional, Victor Bertollo, consultor técnico do Programa Nacional de Imunização (PNI) da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, ao responder algumas perguntas recorrentes enviadas pela população, dá embasamento para a explicação do motivo pelo qual o Ministério iniciou a aplicação de vacinas em adolescentes antes que um percentual mais significativo de adultos esteja imunizado.


Qual a importância de se tomar a segunda dose da vacina Covid-19?

Dados mostram que a primeira dose da AstraZeneca, Pfizer e Janssen já possuem uma boa eficácia para formas graves da doença. Porém, a segunda dose promove um aumento significativo da resposta imune, aumento da proteção para formas graves e apenas após a segunda dose se tem uma boa proteção para formas leves, o que é importante para reduzir a transmissão. O aumento da resposta imune após a segunda dose tende também a aumentar a duração da proteção que aquela pessoa vai ter após a vacinação.

Posso adiantar a segunda dose e tomar antes da data indicada no meu cartão de vacina?

É muito importante que as pessoas se atenham ao intervalo previsto pelo Ministério da Saúde. A decisão por um intervalo ampliado tem tanto um ganho individual (pois aumenta a resposta imune e a efetividade do esquema vacinal) e coletivo, de saúde pública, pois amplia a vacinação da população.

E isso foi definido de maneira muito pensada e discutida com a comunidade científica brasileira dentro da Câmara Técnica Assessora de Imunizações.

Claro que essas decisões são dinâmicas. Então, pode ser que esse intervalo venha a ser alterado, mas é importante seguir as orientações do Ministério da Saúde que elas vão estar sempre adequadas à situação da pandemia no país e aos dados de pesquisas em relação à vacinação contra a Covid-19

É recomendável tomar a segunda dose da vacina Covid-19 diferente da primeira?

De maneira geral esta não é a recomendação. Como regra geral, a orientação é que o esquema seja completado com a mesma vacina. Porém, em situações específicas, esta estratégia pode ser usada.

No momento, o Ministério da Saúde recomenda que gestantes que tenham recebido a vacina da AstraZeneca, tomem Pfizer ou Coronavac. A ideia é que as gestantes não deixem de tomar a segunda dose.

Pessoas que vêm do exterior, que receberam a primeira dose de um fabricante que não possui no Brasil, também está recomendada a administração de outro fabricante.

Além disso, pessoas que tiveram algum evento adverso grave que de fato contraindique a vacinação com o mesmo fabricante, também é indicada a aplicação de outro imunizante.

O tempo de intervalo entre as doses das vacinas será reduzido devido às novas variantes do vírus da Covid-19?

Nesse momento, o Ministério ainda recomenda manter os intervalos que são: 28 dias para a Coronavac, três meses para as vacinas Pfizer e AstraZeneca. Importante ressaltar que o intervalo adotado promove uma resposta imunológica maior e mais efetividade.

Com o avanço da vacinação, é possível que esse intervalo seja reduzido. Mas é importante seguir as recomendações do Ministério da Saúde.

Preciso receber a segunda dose da vacina hoje. Porém, estou me recuperando de uma gripe. Posso tomar?

Não há evidências de que uma gripe recente interfira na resposta da vacina. Provável que não. A orientação é que aguarde a recuperação para receber a vacina. Isso é importante, principalmente, para que os sintomas dessa doença não sejam confundidos como potenciais eventos adversos das vacinas.

Mas um resfriado leve, em que a pessoa não tenha febre, mas só uma coriza, de maneira geral não há problemas. Ressalta-se no entanto que pessoas que tiveram covid-19 devem aguardar 28 dias a partir da data do início dos sintomas para receberem a vacina, desde que estejam em recuperação clínica, ou seja, se você tem sintomas de gripe é fundamental fazer o teste para covid-19 para um diagnóstico adequado.

Vou realizar uma cirurgia. Devo esperar recuperação para tomar minha dose da vacina?

Se é uma cirurgia simples, não tem contraindicação. Cirurgias de grande porte, de fato, é bom evitar. O ideal é que a pessoa se vacine primeiro para depois passar pela cirurgia. Ou o contrário: aguardar recuperação para receber a dose. A preocupação inicial, diante disso, é não confundir as complicações de uma cirurgia com os eventos da vacinação.

Tomei a primeira dose da vacina Covid-19 e tive reações. Vou ter algum tipo de reação também na segunda dose?

A ocorrência de eventos adversos não impede que a pessoa receba a segunda dose. Apenas alguns exemplos muito específicos que são efeitos graves ou raros. Para algumas vacinas, como AstraZeneca e Coronavac, a tendência é que as reações sejam mais leves na segunda aplicação. Para a vacina Pfizer, especificamente, ela tem um pouco mais de reação adversa na segunda dose, mas ainda assim são eventos leves e autolimitados na grande maioria das vezes.

A primeira dose oferece algum tipo de proteção contra a variante Delta? E a segunda?

Para as vacinas Pfizer, AstraZeneca e Janssen sim, a primeira dose reduz muito o risco de a pessoa ter a forma mais grave da doença e vir a precisar ser internada, precisar de UTI ou mesmo morrer pela a Covid-19. No entanto mesmo vacinada, a pessoa ainda corre o risco se infectar com a variante Delta, mas a tendência é que ela tenha a forma mais leve da doença.

É importante destacar no entanto a importância da administração da segunda dose das vacinas no momento adequado, tendo em vista que esta segunda dose aumenta bastante a resposta imune, aumentando a proteção para infecção, para formas graves, e aumentando a duração da resposta imune.

Quanto tempo depois de tomar a segunda dose estarei completamente imunizado?

As vacinas não são uma proteção absoluta, mas reduzem muito o risco de adoecimento e de complicações pela doença. As maiores taxas de efetividade das vacinas, após a segunda dose, foram identificadas duas semanas após a segunda dose. Então, de maneira geral, a gente entende que a eficácia da imunização se dá após esse período.

Depois de 15 dias, após tomar a segunda dose da vacina, ainda tenho risco de morte pela doença?

O risco reduz muito, mas não reduz a zero. Isso é importante também estar claro. Se uma vacina tem 80% de efetividade, quer dizer que as pessoas vacinadas terão um risco 80% menor de desenvolverem complicações pela doença e morrer. Vai ser um risco muito menor do que as pessoas não vacinadas, mas esse risco não zera.

Por isso, todas as outas medidas de proteção individual e coletiva, como uso de máscara, distanciamento social, frequentar locais mais abertos, deixar os ambientes bem ventilados, evitar aglomerações, precisam continuar sendo adotadas, mesmo após a vacinação, enquanto a gente estiver vivendo uma situação de pandemia.

A imunização contra a Covid-19 será igual a da Influenza, que tem campanhas todo ano? Qual vai ser a periodicidade: de dois em dois anos ou de três em três?

Esse ainda é um ponto de dúvida na literatura médica. Pode ser que sim, mas esse ainda é um ponto em debate.




Agora, a questão dos adolescentes



Apesar de raros, casos graves e mortes de crianças por Covid-19 podem ocorrer, e a maioria está relacionada à Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), que pode se manifestar em até 4 semanas depois da contaminação inicial pelo SARS-CoV-2 e é caracterizada por febre persistente e inflamação em diversos órgãos, como o coração, o intestino e, em menor grau, os pulmões. A enfermidade também leva a dores abdominais, insuficiência cardíaca e convulsões. Em adolescentes, têm sido menos raros os casos e há muitos os relatos de jovens que se contaminaram e transmitiram o vírus a seus familiares de mais idade. Então, nada mais lógico que eles também sejam vacinados.

Considerando que, sempre que possível, deve-se aplicar a segunda dose do mesmo imunizante da primeira dose e que apenas a vacina da Pfizer está autorizada até agora para menores de 18 anos, o Ministério da Saúde optou por iniciar a imunização de adolescentes porque as doses disponíveis de outras vacinas têm sido suficientes para aplicar a segunda dose a quem foi com elas vacinado e, assim, as doses da Pfizer que estão sendo aplicadas em adolescentes não farão falta à população adulta e é importante que gradativamente os jovens estejam também vacinados no Brasil, assim como já acontece em outros países.

Mesmo que os retardatários que tomaram a primeira dose e, mesmo após o prazo recomendado, ainda não receberam a segunda, resolvam imunizar-se, não tem havido falta de doses para a segunda aplicação.

Até sábado, 18/8, mais de 1 milhão de adolescentes haviam sido vacinados, segundo o Ministério da Saúde.


Como fazer para vacinar adolescentes


Em Guarulhos, a partir desta segunda-feira (30), os adolescentes de 12 a 17 anos com comorbidades ou algum tipo de deficiência, bem como as gestantes e puérperas nessa faixa etária não precisarão mais agendar sua vacina contra a covid-19. Quem pertence a esse grupo e ainda não se vacinou poderá comparecer diretamente a qualquer Unidade Básica de Saúde (UBS) da cidade para se imunizar, apresentando documento que comprove uma dessas condições.

Já para os adolescentes de 15 a 17 anos sem comorbidades permanece a necessidade de agendamento da vacina, no site bit.ly/VacinaGru.

A imunização contra a covid-19 de pessoas menores de 18 anos está condicionada à autorização dos pais ou responsáveis legais, mediante o preenchimento de um termo de assentimento, modelo que também está disponível no site bit.ly/VacinaGru.

O documento deve ser apresentado no dia da imunização, ainda que o adolescente compareça acompanhado pelos genitores ou tutores aos postos. Além do formulário de anuência, eles também precisam levar um documento com foto, CPF, cartão SUS e comprovante de endereço.

Maiores de 18 anos

A partir desta segunda-feira, 30/8, a população acima de 18 anos será imunizada por meio de demanda espontânea, pois não haverá mais agendamento da vacina para esse púbico. Segunda cidade depois capital que mais vacinou contra a doença no Estado de São Paulo, Guarulhos administrou até as 14h da sexta-feira (27) 1.257.089 de imunizantes contra a covid-19, sendo 887.922 primeiras doses, 332.521 da segunda aplicação e 36.646 da dose única.