quarta-feira, 8 dezembro 2021
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“Os livros salvaram minha vida”

A empreendedora Luciene Vignoli Müller lançou o livro “Colo invisível”, no qual narra que, para se livrar de maus-tratos, fugiu de casa com menos de 5 anos de idade e encontrou abrigo em uma biblioteca pública. Ao ler a emocionante entrevista, você entenderá porque ela atribui tanta importância aos livros.

O que a levou a escrever o livro contando sua vida?

Todos queriam saber um pouco mais da minha história, mas foi na visita a um albergue, há uns seis anos, que me decidi. Fui fazer uma palestra; no início havia poucos assistindo, alguns foram saindo e chamando outros; quando terminei, a sala estava lotada. Então, concluí que seria importante eu relatar para o maior número possível de pessoas.

Por que você não tomou essa iniciativa antes?

Eu havia contado partes para muitas pessoas, mas ainda não estava pronta; eu me afastava da parte triste. Como querendo tocar a vida pra frente, fazer parte de uma nova história, evitava comentar o que me doía ainda. Com o tempo, fui me convencendo e até hoje me convenço que tenho de falar sobre isso; e então resolvi escrever. Para tal, apesar de sempre ter lido muito, sempre ter escrito muito, resolvi me preparar para a escrita: quando estava na hora, fui cursar Produção Editorial, na Unesp; me tornei speaker e até abri a Format Editora.

Qual sua perspectiva do que o livro poderia provocar nas pessoas que o lessem?

Primeiro, que estava dando uma resposta a tantos que me perguntavam; depois, a esperança de que minha mensagem chegasse a muito mais pessoas. E tem sido assim!

No livro você conta que fugiu de casa e foi viver nas ruas com pouco mais de quatro anos de idade. A que atribui não ter sido consumida por hábitos nocivos?

Medo de tudo que é nocivo. Observei muita coisa e fugi de casa porque lá dentro tinha tudo isso. Fugi de coisas que senti que podiam me ferir, e de algo que pudesse me deixar fora do meu normal, pois percebi que meu pai e minha madrasta ficavam alterados pela bebida. Sempre tive medo de droga, de algo que me levasse pro caminho errado…

Apesar de tudo que você sofreu e do que poderia ter sofrido, você demonstra carinho por seu pai e até pela madrasta, que te feriu com óleo quente. Isso é sincero?

Com  certeza. O colo invisível que tanto me fez falta acho que nem é o da minha mãe, que perdi tão cedo, mas dele. Quanto à madrasta, com o tempo fui descobrindo os motivos que ela tinha para agir daquela forma. Não consigo sentir raiva de nada, nem de ninguém. 

Você concluiu que ela não te judiava por maldade?

Ciclos. Ela era uma mulher muito sofrida. Hoje estudo a violência e percebo que ela era muito explorada e repassou pra mim o que achava que era normal, mas também com fúria, porque tinha ciúme de mim, provocado pela desconexão dele. Depois da morte de minha mãe, meu pai ficou um tempo comigo e por isso tenho esse apreço por ele, pois lembro do tempo que foi só meu e dele. Ele era um português mimado e ficou muito frágil com a perda de minha mãe; se viu sozinho com uma menina pequena, um filho que deu para adoção e de outros filhos ele também não cuidou. Aí, trouxe uma mulher de uma casa de prostituição, sofrida, explorada, com vários filhos de pais diferentes. Suponho que ele frustrou as expectativas dela, pois ela esperava ter um lar e não teve. Até levou duas filhas dela para morar conosco. Sentiu que ele continuava desconectado e a relação forte que ele tinha comigo provocou ciúmes nela. Ela acabou fazendo daquilo que deveria ser um lar uma casa de prostituição, que é o que ela sabia fazer. Até as filhas dela ela maltratava. Eu não era Cinderela. Mas só eu fugi.

Foi melhor ter fugido?

Não tenho a menor dúvida disso.

Quem é seu marido e qual a importância dele no resgate da sua cidadania?

É o Osmar Müller, conhecido pelo apelido de Camarão. O Má (forma carinhosa como ela o chama) é um cara que me ensinou muito, que me enxergou como mulher; foi um processo de amadurecimento. Pouco após nos conhecermos – uma semana –  nós nos casamos; faz 21 anos e tínhamos 21 de idade na época. Brinco que são 150 anos, porque, desde o primeiro dia, ficamos 24 horas juntos. Brinco que ele ainda não me devolveu por não ter a quem me devolver (risos). Quando eu o conheci, não tinha visão nenhuma de vir a casar, queria trabalhar muito, estudar. Contei minha história pra ele e ele disse que queria se casar. Logo me apresentou para a família, que apoiou a decisão dele. Ganhei uma mãe naquele dia. Ele me deu uma família; casa até eu já tinha nessa época, queria ser independente. Mas queria que alguém cuidasse de mim e que eu tivesse alguém pra cuidar também. Esse tempo todo é uma parceria.

Você nunca mais havia retornado à biblioteca onde se refugiava na infância. Mas, para o programa É de casa, da TV Globo, você foi lá. O que sentiu ao entrar ali?

Quando aceitei a entrevista, achei que só iria ficar no jardim, porque a biblioteca estava fechada devido à pandemia. Porém, a Globo já havia conseguido autorização para entrar, com todos os cuidados, e fizeram isso como uma surpresa para mim. Na véspera, eu estava muito nervosa, apavorada. No caminho, chorei. Passei perto de onde havia morado, na Vila Maria Alta, fui me acalmando. A sensação ao chegar foi única, toda produzida, salto alto, em contraste com a situação da infância. Sensação de superação, de vitória (fica emocionada). Ao ver a bibliotecária, fui direto até ela, embora ela não tenha convivido comigo, mesmo estando lá há 30 anos. Ela sabia da minha história. No jardim fiquei à vontade, tirei os sapatos, fui conversando com ela. Eu soube que dona Ursulina, bibliotecária da época, que eu pensava que tivesse morrido, está viva. Meu livro já havia chegado à biblioteca. Fui muito bem recebida, porque me senti acolhida. E aí me informaram que fariam cenas ao vivo no lado de dentro.

Como tem sido a repercussão do livro?

No começo foram só pessoas mais próximas, mas, pouco a pouco, repercutiu e me mostrou outras possibilidades de fala e de respostas. Além das perguntas básicas que me faziam, agora as pessoas querem saber muito mais coisas. Muita curiosidade. Ainda não atingiu a grande massa, mas a história chegou a juízes e promotores, pessoas que lidam diretamente com a questão da violência contra crianças e contra a mulher. Uma forma de que minha experiência seja útil a muitas outras pessoas.

Você voltou a cursar Direito?

Sim. Havia interrompido, mas me animei e estou no sexto semestre.

Soubemos que você tem contribuído com o Ministério Público de SP e outros lugares…

Nada como uma história vir à tona depois de tanto tempo no qual uma rede inteira falhou. Porque fiquei muito tempo largada, abandonada, não me lembro de haver Conselho Tutelar quando eu era criança e eu não tive nenhuma abordagem, que eu me recorde, que faria a diferença. Se me salvei, foi algo intrínseco, foi meu. Então, meu trabalho com o Ministério Público tem sido o de formar agentes do Direito, que têm poder e autoridade para transformar coisas e pessoas. Fazer com que enxerguem as crianças em vulnerabilidade. Meu papel é de professora e palestrante da Escola Superior do Ministério Público, na garantia dos direitos da Criança e do Adolescente. Fui eu que corri atrás, busquei o MP. Na fase anterior em que cursei Direito, bem antes de escrever o livro, assisti a uma palestra sobre campanha de combate a maus-tratos na infância. O MP indo às universidades difundir isso. Era o trabalho da promotora Luciana Frugiuele e eu nem sabia que eles cumpriam esse papel. Assistindo no auditório, eu me via nas situações que ela citava. Quando ela terminou, eu desci e a abracei, chorei muito (lágrimas). Ela era muito generosa; nem todo mundo que trabalha nessa área é vocacionado. Ela, sim,  entendeu e passou a me chamar para acompanhá-la para testemunhar na campanha. Fui a muitos lugares. Depois parei, para poder empreender.

Foi ela quem escreveu o prefácio do livro?

O Má sugeriu e eu a procurei, consegui falar com assistentes dela e deixei recado. Tempos depois, ela me procurou e aceitou escrever, o que muito enriqueceu a obra. E a jornalista Natuza Nery, minha amiga, escreveu a orelha.

Que outras iniciativas tem tomado ou pretende tomar nesse sentido de evitar que outras crianças passem pelas mesmas situações? 

Por intermédio da Dra. Luciana, consegui chegar à promotora responsável para que eu pudesse palestrar a promotores. Expliquei que precisava fazer ver que todos que operam com situações de crianças abandonadas devem ter um olhar diferente. Ela pediu um vídeo de 5 minutos. Fiz, enviei. Aí ela quis que eu entrasse ao vivo no dia seguinte.Falei em ato nacional de campanha contra violência sexual e outras, envolvendo autoridades de várias esferas. Tenho palestrado também para a Secretaria de Justiça do Paraná. Enfim, tenho me sentido útil e espero poder contribuir muito mais para que ninguém mais sofra o que sofri.

Como adquirir seu livro?

No bar Don Cordelli (rua Tapajós, 75), pra quem quiser direto e autografado; na Format Editora (instagram formateditora) e pela Amazon.

Fotos: Elisandra Rosa

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