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A aventura de um guarulhense para chegar a um pico de 6.088 metros

O que você lerá é o relato de Ayrton Battista, morador de Guarulhos, que é escritor, roteirista e alpinista e escala montanhas na Bolívia há doze anos. Neste artigo, ele conta como foi a aventura de chegar com amigos ao topo de uma montanha gelada de mais de 6 mil metros de altitude.

SUBINDO UM PICO DE 6.088 METROS

Bem ao lado da cidade de La Paz, capital da Bolívia, existe uma montanha coberta de gelo chamada Huayna Potosi. Ela atrai turistas do mundo inteiro. Primeiro porque é muito bonita. Segundo, porque é tecnicamente fácil. O desafio é a altitude.

No início desse ano, dois novos amigos meus, Ronaldo Nunes, advogado, e Sandro Branco, empresário, me convidaram a ir para a Bolívia e subir com eles o pico sedutor que estava atiçando suas imaginações.

Eu havia sido guia nessa montanha na temporada de 2016, mas passara a me dedicar mais a escalada em rocha no Brasil. O convite muito me animou e partimos no dia 5 de junho deste ano. Eu não sabia se ia conseguir escalar, porque a minha cabeça estava cheia de problemas e pensei em desistir. Que bom que não fiz isso! Porque lá os problemas da civilização urbana desapareceram.

Almoço em La Paz: com Leo Rodriguez, Ronaldo e Sandro
Ayrton no Parque Condoriri

A ideia era escalar somente o gigante Huayna Potosi. Mas, como a montanha é muito grande, tive a ideia de irmos primeiro ao Parque Condoriri, um dos lugares mais bonitos que já vi na minha vida. Rodeado de montanhas nevadas, todas acima de 5.000 metros, nós subiríamos duas delas para ajudar na aclimatação, o que funcionou muito bem.

Lá conhecemos o brasileiro residente no Canadá Leo Rodriguez, a pessoa mais divertida que poderíamos encontrar nessa viagem. Superpositivo e tranquilo, nos acompanhou em toda a aventura, até se mudando para o nosso hotel.

Léo Rodriguez no Parque Condoriri

A aclimatação é um mistério. Alguns nem sentem direito. Outros ficam respirando como o Darth Vader. O que não quer dizer que a pessoa não possa ter sucesso. Ao longo dos meus anos de experiência na Bolívia, descobri que paciência e bom humor têm um efeito incrível nas chances de chegar ao cume. E estar acompanhado dos guias certos.

Nesta viagem contamos com dois dos melhores guias da Bolívia para auxiliar o grupo: o casal de amigos meus Ronald Alaña e Julia Alaña.

Julia escala sempre com a polera, aquele vestido largo e volumoso tradicional da Bolívia, e é uma alpinista incrível. Já escalou as montanhas mais altas da América do Sul, como o Aconcágua, e carregando todo o seu equipamento, o que é um fato surpreendente. Mãe de dois filhos, ela carrega a bandeira de uma mulher exemplar e é uma das estrelas de um documentário que está sendo produzido sobre mulheres nas montanhas.

Depois de quatro dias no Parque Condoriri, passeando, tirando fotos, escalando alguns picos e saboreando a boa comida preparada por Ronald e Julia, e um dia de descanso em La paz, partimos para o Huayna Potosi.

Ayrton em treinamento no glaciar do Huayna Potosi

O refúgio do Campo Base do Huayna estava repleto de gente do mundo inteiro e se falava todas as línguas. Tanta mulher bonita e eu não tinha tempo de paquerar nenhuma, preocupado que estava com a organização da expedição. Eu, Ronaldo, Sandro e Leo, fizemos amizades incríveis com gente da Inglaterra, Israel, França, Alemanha, Áustria, China e tantos outros lugares.

Café da manhã no Campo Base de Huayna Potosi

Assim, nesse espírito de alegria e entusiasmo, no dia 15 de junho atacamos a montanha à primeira hora da madrugada. A fila de penitentes seguiu com suas lanternas iluminando o glaciar numa procissão de luzes. Cruzamos pontes de neve sobre gretas enormes. Elas são assustadoras. Mas não seria uma aventura se elas não estivessem ali, não é verdade?

Julia no Huayna Potosi; ao lado Ayrton e Julia

Às 7h da manhã, todos chegamos no cume vendo o Sol se espalhando pelo mundo ao redor. É lindo! É preciso estar lá em cima para ver. E foi uma festa! Mas a alegria, o êxtase, o esforço ou a catarse sentida por cada um é individual. Eu não converso muito no cume. Já outros, não param de falar.

Na descida pelo glaciar na luz do dia, se pode ver de verdade a sua beleza. Cavernas enormes de gelo e formações intrigantes com diferentes tons e brilhos, entre o branco e o azul. Dá vontade de ficar ali o resto do dia admirando. Mas é preciso descer depressa: o Sol começa a amolecer a neve das pontes que cruzam as gretas e ninguém quer ser engolido por uma delas e ficar na montanha para sempre. Assim é a vida: cheia de paradoxos. O que é belo pode nos destruir. Mas… Como é encantador!

Contatos com Ayrton Battista:

Foto de Augusto Guimaro; todas as demais são de Leo Rodriguez

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