Entenda a polêmica da Virada Cultural em Guarulhos

A Virada Cultural, que será realizada esse fim de semana, em Guarulhos, tem dado o que falar. Se por um lado, trazer o evento paulista para a cidade parecia ser um um ganho cultural e um acerto da nova gestão, por outro, artistas locais têm contestado algumas atitudes da Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) em relação à curadoria e à participação voluntária lhes oferecida. Para entender, confira a linha do tempo abaixo:

17 de março: Secel anunciou a proposta de trazer a Virada Cultural Paulista para Guarulhos, que foi discutida num encontro realizado com o secretário estadual de Cultura de São Paulo, José Roberto Sadek. “A primeira Virada Cultural no nosso município vai mostrar nosso potencial cultural e a diversidade que a cidade possui”, afirmou o secretário-adjunto Adalmir Abreu.

23 de março: O diretor de Cultura, Tiago Ortaet, informa que a Virada na cidade será uma extensão do evento Paulista que será realizado nos dias 20 e 21 de maio, mesmas datas que o de Guarulhos. Além disso, Tiago afirma que artistas locais cadastrados no chamamento público, que ocorreu em janeiro de 2017, poderiam ser convidados para participar, de acordo com a sintonia das atrações vindas de São Paulo. A seleção seria feita por comissão paritária organizada pela Secel – sendo metade do governo e metade da sociedade civil, a qual estava pensando em aproveitar o GT (Grupo de Trabalho)  para a organização dos Fóruns Setoriais e Conferência Municipal de Cultura.

31 de março: Prefeitura confirma a realização da Virada Cultural em Guarulhos. Divulga que o evento será realizado em outras datas, nos dias 13 e 14 de maio, uma semana antes da Virada Paulista; que a cidade receberá dois shows de grande porte e dois de médio porte, além de apresentações de artistas locais; e que na semana seguinte seria divulgada a programação.

7 de abril: Secel responde algumas perguntas do Click Guarulhos sobre processo de seleção dos artistas locais para a Virada. Confirma que o GT fará a curadoria dos artistas locais e que a programação será divulgada no fim de abril, não mais no início.

13 de abril:GT  encaminha carta à Secel em resposta à atribuição que a Secretaria havia feito ao Grupo, de realizar a curadoria da extensão do evento na cidade. A carta dizia: “O Diário Oficial de Guarulhos referendou e reconheceu a legitimidade dos eleitos no dia 24 de fevereiro de 2017 em sua página 16, atribuindo as suas funções e, entre elas não está constituída a ‘escolha dos participantes da Virada Cultural’, pois conforme o enunciado ‘A Secretaria de Cultura institui o Grupo de Trabalho com vistas à realização de Fóruns Setoriais de Cultura e a organização da 5ª Conferência Municipal de Cultura’, tão e somente”.

26 de abril: De repente, 17 dias antes da realização da Virada surge o Cadastramento Virada Cultural Guarulhos 2017 no Facebook, antes mesmo de ser divulgado em canal oficial da Prefeitura. Questionado porquê a notícia não havia sido comunicada por um canal oficial, o diretor-adjunto Tiago Ortaet, informou que isso seria feito no dia seguinte. Como de fato ocorreu. [Leia aqui]. No entanto, os artistas locais que gostariam de participar do evento, teriam de fazê-lo voluntariamente, sem cachê ou qualquer ajuda de custo.

2 de maio: Indignados, os artistas se reuniram e publicaram um manifesto, o qual já tem quase 200 assinaturas. Veja no link: MANIFESTO – VIRADA CULTURAL GUARULHOS SEM CACHE NÃO. O manifesto informa que os coletivos e artistas de Guarulhos entendem a importância do fomento e da fruição cultural. No entanto, não participarão do evento, onde os serviços de arte, cultura e entretenimento serão realizados de forma voluntária, além de ter de disponibilizar a utilização do nome e imagens do artista ou grupo em qualquer mídia, vinculando o trabalho com a Prefeitura de Guarulhos a título de divulgação da mesma. “Entendemos essa prática como desrespeitosa e abusiva, por isso a recusamos”, diz o manifesto.

3 de maio: Prefeitura divulga nomes de alguns artistas que estarão na programação, entre eles o rapper Emicida e a cantora Daniela Mercury. “Frente às atuais demandas orçamentárias do município, o secretário-adjunto de Cultura, Adalmir Abreu, falou da valiosa parceria com o Governo do Estado”, afirma a matéria, como pode ser conferida no link.

5 de maio: Em resposta às reivindicações do manifesto, a Prefeitura publicou em seu site, na matéria “Guarulhos recebe Virada Cultural Paulista a custo zero”, que o evento é realizado pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, que será responsável pelos custos com todos os cachês artísticos e que para dar oportunidade aos artistas locais, a Prefeitura de Guarulhos viabilizará espaços para apresentações em caráter voluntário. Em relação à cessão de uso e direito de imagens, informou que o procedimento padrão é baseado em leis, conforme descrito na matéria.

Na mesma publicação, a Prefeitura divulgou que foram inscritos 401 grupos artísticos no cadastramento para a Virada em Guarulhos, que recebeu inscrições até o dia 1° de maio. E afirmou que em contrapartida, como não haverá cachê ou ajuda de custo, fará ampla divulgação da programação, dos grupos e artistas em todas as mídias sociais e espontâneas, sem nenhum tipo de exploração comercial. Como pode ser visto na #grunavirada.

9 de maio: A polêmica foi parar na Folha de S. Paulo, na ilustrada online, que no título da matéria divulgou: “Na Virada em Guarulhos, prefeitura só paga a artistas conhecidos”. No mesmo dia, a Prefeitura rebateu: “A princípio, este é um evento da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, órgão responsável pela contratação dos artistas que participarão da Virada Cultural Paulista em várias cidades do Estado, entre elas Guarulhos. A Prefeitura de Guarulhos não gastou e nem vai gastar 1 centavo com cachês de artistas“, escreveu em postagem, em sua página oficial no Facebook. Leia na íntegra.

A Folha alterou o título: Virada em Guarulhos quer artistas que façam shows sem cachê. Algo mudou? Os artistas locais continuam sem cachê. Mas se você que está lendo isso, acha que os artistas são mercenários e que o problema é (só) a falta de cachê, atente-se ao comentário que o artista Franklin Jones fez na postagem da Prefeitura:

“A discussão aqui é bem maior do que pagar ou não cachê, a Cultura, a Educação e tantos outros bens sociais tem um papel fundamental na formação do indivíduo. Artistas, neste atual momento, colocam em discussão as suas produções e os meios que todas as gestões que passam/ram pela cidade tratam este assunto. O problema em si, não é a Virada, mas o discurso que toda e qualquer gestão faz atrás de eventos desta ‘envergadura’, vendendo uma imagem que tudo está no seu devido lugar e que a cidade é em si um espaço democrático. Nos bastidores, estamos acompanhando como as coisas estão se dando para o Assunto Cultura e percebe-se que não é bem assim. Gostaria antes de mais nada, uma reflexão do todo, não banalizem uma questão séria. A cidade e seus equipamentos públicos estão sucateadas há anos e o caminhar da nova gestão nos mostra que os discursos são muito próximos dos moldes da antiga. Não é questão partidária, mas de pensamento da coisa pública que não se altera seja pelo partido A, B ou C. E é aí que a discussão mora. Atentemos!!”.

10 de maio: Prefeitura de Guarulhos, enfim, divulga a programação completa dos artistas que participarão da Virada Cultural na cidade. Vale ressaltar que a curadoria não foi realizada pelo GT que a Secel havia indicado no início. Portanto, não se sabe se houve outro GT que realizou a seleção dos artistas locais.

11 de maio: A fotógrafa Marina Pinto chama a atenção para mais um fato ocorrido na organização da Virada cultural aqui na cidade:

“A todos os artistas escolhidos para participar da virada cultural paulista aqui em Guarulhos, meu sincero parabéns, é claro que eu gostaria que todos tivessem aderido ao nosso manifesto, mas respeito as escolhas de cada um, até porque muitos são meus amigos, e disputar poucas vagas com 400 candidatos não é fácil, principalmente quando não se sabe os critérios de escolha. Mas sei que nossa cidade estará bem representa, pois a qualidade dos nossos artistas é indiscutível. Mas tem uma coisa nessa história que é discutível sim, que é o fato de que se eram poucas vagas para participação e algumas foram preenchidas por grupos do Conservatório, se alguns artistas de Guarulhos tinham se inscrito por SP, e houveram 400 inscrições, porque é que o Diretor Ortaet ocupou duas vagas? Uma ele fazendo contação de história [no sábado – Viradinha Cultural, no Adamastor] e outra pelo grupo de teatro que ele dirige [Recepção do Cortejo Lúdico-Teatral (Trupe Ortaética) também no Adamastor]… Alguém poderia dizer a ele que a posição de gestor público implica em abrir espaço para os outros em detrimento de si mesmo”, postou ela em seu Perfil no Facebook.

Para encerrar, além do Manifesto, artistas se organizaram para a realização de uma Virada Clandestina na periferia, nos mesmos dias em que será realizada a Virada Cultural de Guarulhos (13 e 14 de maio), para mandar a mensagem de que não aceitarão esse tipo de política e o desrespeito à cultura local. Confira aqui a programação.

Local: Bzola – Bosque do Inocoop. End: Rua Elías Dabarian, 887 – Res. Parque Cumbica, Guarulhos/SP- 13 de maio das 14h às 6h

 

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