A saga “As Crônicas dos Mortos” trata-se de uma coleção de livros sobre o apocalipse zumbi e foi criada pelo escritor paulista Rodrigo de Oliveira. Isso mesmo, um brasileiro aventurando-se no mundo de zumbis.

A saga é toda ambientada no Brasil e se passa em cidades como São José dos Campos, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Canela – na Serra Gaúcha – e Porto Alegre. E também traz passagens rápidas em Brasília, Estados Unidos, China e França.

Pois bem, a série lançada pela Faro Editorial tem tido uma aceitação impressionante e já coleciona quatro títulos, com um próximo a caminho.

O Click bateu um papo com o escritor para conhecer melhor o seu trabalho e também as suas ideias zumbilescas. Confira o resultado:

Conte mais sobre esse sonho tão criativo.

Foi um sonho bastante realista e assustador (risos)! Eu tinha acabado de assistir o filme “Madrugada dos Mortos” do diretor Zack Snider e que é baseado no filme “Despertar dos Mortos” de George Romero e acabei tendo um tremendo pesadelo, daqueles tão longos que você não sabe mais se está dormindo ou acordado. No meu sonho, os personagens do filme reagiam de forma completamente diferente aos zumbis. Eles se organizavam e contra-atacavam, ao invés de apenas ficarem confinados em um shopping. Foi esse princípio básico que serviu de inspiração para escrever o primeiro livro da saga, “O Vale dos Mortos”.

Como foi o primeiro contato com o mercado editorial?

Eu sempre desconfiei que escrever um livro seria a parte mais fácil do processo, pois o grande desafio seria, de fato, publicar. E realmente foi isso que aconteceu, num primeiro momento nenhuma editora se interessou pelo meu trabalho. Como eu tinha o dinheiro para bancar a publicação, eu optei por lançar meu primeiro livro inicialmente como independente, uma experiência que infelizmente não trouxe os resultados esperados. Mas isso me deu visibilidade e um certo know how para conseguir uma editora disposta a apostar no projeto, foi assim que eu assinei contrato com a Faro Editorial.

Qual a dica para os autores de primeira viagem?

Eu diria que o principal conselho é ser persistente. Do começo ao fim o caminho é bastante árduo, é preciso ter uma ideia interessante e original, bons argumentos para sustentar a história e coragem para escrever, reescrever e ajustar a obra quantas vezes forem necessárias, até atingir o resultado desejado, sem medo de ser duro consigo mesmo, pois se o autor não for crítico do seu próprio trabalho, outros certamente o serão. E quando chegar o momento de batalhar por uma casa editorial, não pode se intimidar diante da primeira negativa, tire um aprendizado de cada “não” recebido e passe para a próxima, até dar certo.

Temos nomes que representam a nossa literatura de forma fantástica. Mesmo assim, as editoras não abrem as portas para brasileiros. O que você acha que falta?

Eu acredito que os autores brasileiros sofrem sim certo preconceito por parte de muitos leitores, o que causa uma reação em cadeia em todo o mercado. Afinal de contas, se existe pouca demanda por literatura nacional, obviamente as livrarias irão dar cada vez menos espaço para essas obras e, consequentemente, as editoras estarão cada vez menos propensas a publicá-las. Trata-se de um mercado regido pelas leis de oferta e procura como outro qualquer e temos que lidar com isso da melhor forma possível. De qualquer forma, acredito que aos poucos tem sido possível mudar essa mentalidade, temos cada vez mais autores locais ganhando projeção, mas é um processo de mudança lento.

Em que você atribui a fórmula zumbilesca para sucesso de quase todas as histórias em que os monstros são colocados?

Essa é uma pergunta interessante para a qual cabem diversas respostas. No meu entendimento os monstros da literatura fantástica tais como zumbis, vampiros, lobisomens, etc… brincam com diversos dos nossos medos, tais como o receio de virarmos a caça, depois de milênios acostumados a sermos os predadores. Essa sensação de impotência, onde a qualquer instante uma criatura (ou centenas delas) podem se abater sobre uma pessoa arrancando-lhe a vida com violência é o temor mais primário e ancestral que pode acometer um indivíduo e acaba sendo a principal matéria prima do meu trabalho e de outros escritores similares.

Leia também Os Zumbis estão à solta

Como foi a aceitação da série “Crônicas de Mortos”?

Está sendo realmente excelente, acho que faltava um representante de peso nacional para esse subgênero e conseguimos apresentar uma história original e livre de clichês. Além do mais, eu exploro muito os cenários locais, mostrando sequências em São Paulo, São José dos Campos, Curitiba, Porto Alegre e, claro, Guarulhos. Essa característica dá uma sensação de intimidade e realismo para o leitor, o que potencializa toda a experiência da leitura.

Você pensava em ser escritor?

Eu sempre fui um grande leitor, já li mais de mil livros ao longo da minha vida, além de ter trabalhado por mais de seis anos no mercado editorial. E quando se passa uma vida inteira cercado de livros, acho que é natural sentir vontade de criar algo próprio, que represente um pouco da sua própria identidade. Comigo não foi diferente, tanto que muitos anos antes de começar a escrever a saga eu tinha tentado escrever outra obra que nunca chegou a ser finalizada. O pesadelo foi o incentivo que eu precisava para retomar meu sonho.

Físico vs Digital.

Como leitor eu ainda prefiro o livro físico, mas como escritor eu torço muito pelo material digital. Os e-books tendem a ser mais baratos, oferecem menos custos e riscos para as editoras que acabam tendo possibilidades de lançar mais obras e ainda são muito mais práticos, pois não estão sujeitos a prazos de entrega longos e problemas logísticos diversos. A meu ver, é o futuro do nosso mercado.

Dá para adiantar um pouquinho do que vem em 2017?

Em 2017 pretendo lançar o quinto e último livro da minha saga, intitulado “A Era dos Mortos”, além de lançar também um jogo de tabuleiro baseado no meu primeiro livro, chamado “O Vale dos Mortos”. Será um ano bastante intenso, cheio de novidades.

Pretende escrever sobre outros temas?

Sim, na realidade estou escrevendo também um livro chamado “O Último Baile”, uma história mais leve, porém com uma pegada sobrenatural e também tenho planos de elaborar um romance com uma temática similar ao clássico “O Senhor das Moscas”, cujo título provisório é “Os Filhos da Tempestade”. Não quero ser um escritor de nicho, acredito que tenho outras coisas para oferecer além de zumbis.

Por que os seres vivos tem tanto fascínio por mortos-vivos?

Acho que o nosso fascínio não vem dos mortos vivos em si, mas sim de todas as imensas mudanças que o apocalipse zumbi traria para as vidas das pessoas, criando um mundo com novas regras (ou a ausência delas). No final das contas os zumbis acabam sendo, a meu ver, o pano de fundo para demonstrar como o ser humano reage a situações-limite, para o bem e para o mal.

Em que essa onda de tudo se tornar zumbi (falando sobre obras que foram adaptadas para o tema) traz de positivo?

Acho que é incrivelmente positivo combinar as histórias clássicas de zumbis com outros temas, dá um sopro de renovação para o assunto. Um filme como “Zumbilândia”, por exemplo, que combina o apocalipse zumbi com comédia, chama atenção de muitas pessoas até hoje, fazendo com que elas desejem conhecer mais obras do gênero. Recentemente foi lançado o filme “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, uma releitura da obra clássica de Jane Austen que está atraindo a atenção de muitas pessoas pela cuidadosa produção de época combinada com zumbis assassinos, muito sangue e violência.

Há chances de termos um apocalipse zumbi?

Espero que não, acredito que teria que ocorrer alguma mutação de um vírus ou bactéria para isso acontecer, ou mesmo algum tipo de experiência científica que desse muito errado. Obviamente, dada a infinita capacidade do ser humano de cometer erros estúpidos, essa segunda hipótese me parece a mais plausível.

Quais as regras básicas de sobrevivência?

Nos meus livros defendo muito a importância do trabalho em equipe, eu sempre prego que os lobos solitários e os truculentos são os primeiros a morrer, enquanto as pessoas que trabalham juntas e pensam de forma estratégica têm maior chance de êxito. Por isso, acredito que a primeira regra seria essa, apenas através do apoio mútuo, da colaboração e da solidariedade é possível atravessar grandes crises. E claro, no caso dos zumbis, atirar sempre na cabeça ajuda muito.

 

Confira resenha “O Vale dos Mortos” de Rodrigo de Oliveira