Por Amauri Eugênio Jr.

José Maria Soares, 39, proprietário do Supermercado da Gente, é um daqueles empreendedores cuja história é inspiradora. Natural de São Bento do Una, em Pernambuco, Zé Maria, como é conhecido, veio tentar a sorte grande em Guarulhos logo no começo dos anos 1990, e começou a trabalhar como empacotador em um supermercado em Cumbica. Sem saber, esse seria o ponto de partida de sua trajetória, que teve uma série de reviravoltas: preparar-se para uma oportunidade de crescimento profissional que não viria a acontecer, e usar uma potencial crise para, a partir dali, dar início ao próprio negócio. Mas se engana quem pensa que foi fácil: pelo contrário, pois ele teve de usar o seu lado empreendedor para crescer.

RG: Você é de Guarulhos?
JMS: Sou de São Bento do Una (PE). Nasci em 1975.

Quando você veio a Guarulhos?
Vim para Guarulhos em 1990.

O que o motivou a vir para cá?
Eu morava no agreste, cortava cana lá e sonhava em vir para São Paulo para tentar uma vida melhor. Eu tinha dois irmãos aqui também e isso estimulou ainda mais a vontade de vir para cá.

Qual foi a sua primeira oportunidade de trabalho em Guarulhos?
O meu irmão trabalhava no Supermercado Nagumo, no Jardim Cumbica. Eu tinha 14 anos e ele arrumou um emprego para mim lá. Entrei como empacotador e fui promovido para balconista. Após um ano e meio, fui promovido a repositor e fiquei pouco mais de um ano no cargo, e depois fui para a padaria. Eu queria estudar, pois havia cursado até a segunda série [ensino fundamental]. Fiquei como ajudante de padeiro, tornei-me padeiro e fiquei até 2000, quando o Nagumo foi vendido para a Rede Pão de Açúcar.

Você já tinha vontade de abrir o próprio negócio?
Na verdade, eu não tinha vontade. Quando voltei a estudar, na época em que entrei na padaria do Nagumo, eu queria enviar cartas para a minha mãe, mas eu não sabia escrever por ter estudado até a segunda série. Conforme comecei a estudar, gostei e passei a sonhar com um cargo melhor lá. Formei-me técnico em contabilidade, depois fiz administração e queria trabalhar como gerente dali. Foi quando em maio de 2000, logo quando acabei de me formar, o mercado foi vendido à Rede Pão de Açúcar. Dediquei-me muito para me preparar para receber uma oportunidade, mas quando achei que eu estivesse pronto, o sonho foi por água abaixo. Daí surgiu a ideia de abrir o próprio negócio. Eu morava na favela, havia comprado um terreno e estava construindo uma casa para eu me mudar, e quando isso aconteceu, pensei: “Sou padeiro e vou tentar a sorte, fazer o quê?”. Comprei algumas máquinas, fiz uma padaria na minha casa – fazia os pães na sala e vendia na garagem. Eu, o meu irmão e a minha irmã. Fiz da minha profissão uma oportunidade.

Como foi posteriormente, da padaria a abrir um espaço?
Éramos eu, o meu irmão e a minha irmã. Isso durou uns três anos. Após isso, fui quebrando a minha casa – quarto e cozinha – e ali virou uma mercearia com uma padaria. Eu vi que não havia mais para onde crescer e percebi que dava para ir mais além; aluguei um lugar melhor e maior, e abri um mercadinho. Após esses três anos em casa, compramos um terreno nesse período e abri uma loja, que é a loja 1. Em 2003, abri o mercadinho e em 2006 construí o prédio onde está a unidade 1; em 2008, a segunda loja, que era alugada; um ano depois comprei a terceira e passei quatro anos reestruturando a loja. Em 2013, comprei a quarta loja e em 2014, a quinta. Em 2013 comprei também um restaurante na vila Maria (SP).

O público-alvo é composto por pessoas que moram na região?
É um mercado da região, mesmo.

zemaria_RA-3Você planeja expandir e abrir alguma loja na região central?
Estou vendo mais oportunidades. Estou com projeto para nos próximos dez anos termos vinte lojas, que é a nossa meta. Em termos de localização, não dá para escolher. É questão de ver se o local comporta um mercado. No ano passado, quase comprei uma loja próxima ao Senai [Hermenegildo Campos de Almeida, no Parque Renato Maia], mas não deu certo.

Onde estão localizadas as cinco lojas?
Duas estão nos Pimentas (1 e 5); a 2 é no Itaim Paulista (São Paulo); a 3 está em Itaquera e a 4 fica em Mogi das Cruzes.

Quais estratégias você usa para fidelizar os clientes?
Primeiro, a relação e o contato com os clientes são importantes, e por ser mercado de bairro é possível fazer isso. O outro é ter boa variedade de produtos e ter preços competitivos. É o que estamos tentando alcançar. E inovando sempre.

Como empreendedor, como você vê Guarulhos? Por que é bom apostar em Guarulhos e o que pode ser melhorado na cidade no que diz respeito à parte empreendedora?
Como é a nona maior economia do País, pensaria bem de Guarulhos. Acho que o que deveria melhorar para os comerciantes é a burocracia que existe, em especial para os pequenos empresários. Para você ter um negócio em Guarulhos, que é uma cidade competitiva, e competir com “caras” grandes e já consolidados, e começar com empresa de pequeno e médio porte, é complicado. Você tem de ser um gigante no meio da selva. Deveria haver mais facilidades para o pequeno empreendedor, no que diz respeito até a tributos, o que envolve esferas estadual e federal. Quando comecei na padaria e comprei o maquinário, fiquei devendo R$ 5.500. No dia em que inaugurei a padaria, fui até o Assai, da avenida Mãe dos Homens, e trouxe todo o meu estoque na mala de um Ford Escort. Após 14 anos, ter cinco lojas, com 300 funcionários diretos, é realmente uma conquista.

Você comentou sobre a época em que trabalhava no Nagumo, a rede foi vendida ao Pão de Açúcar. Você já recebeu alguma rede de supermercados para vender ou fazer parceria?
Vender a minha rede? Recebi proposta para fazer parceria, mas não aceitei. Para vender, eu já fui procurado, mas não foi um negócio tão concreto. Hoje há um interessado na loja de Mogi. Mas, meu intuito atualmente não é vender, mas comprar.

Hoje o seu foco é inverter a ordem das coisas: comprar em vez de vender.
Sim. Hoje estou focado em aumentar a minha loja em vez de diminuir. Só se for uma proposta muito interessante. O meu foco é chegar em vinte lojas e, se eu vender, dificilmente chegarei.

Olhando para trás, quão orgulhoso você se sente de sua trajetória e de ver onde está?
Ao olhar para trás, vejo que sonhava com a oportunidade de ser gerente. Realmente é muito prazeroso. Não dá para explicar quão gratificante é. Você era um funcionário e pediu uma oportunidade para alguém ao achar que você tinha condições de ser gerente, e hoje você ter um gerente de supermercado trabalhando para você, não dá para expressar. Não foi da noite pro dia. A luta é de 14 anos e é muito gratificante. Uso a minha história para incentivar as pessoas que estão comigo e mostrar que é possível [crescer]. A gente tem de sonhar. Quando você sonha, planeja e executa bem, você consegue realizar. Hoje, confesso que estou muito além do que sonhei. Não que seja muita coisa, mas para mim é. Um cara que chegou semianalfabeto do Nordeste, só sabia assinar o nome, trabalhando como empacotador no supermercado, morando na favela, sem ninguém para ajudar e incentivar… Tudo vinha contra e ele conseguir sobressair, só mesmo com muita força e Deus na frente.

Há algo que não foi perguntado que você queira acrescentar?
Nada disso teria sentido se não fossem Deus na minha vida e a minha família. Além disso, sou um homem apaixonado pelo que faço. Não faço pelo dinheiro, mas pelo prazer. O dinheiro é consequência.

Nota da Redação: Depois da venda ao Pão de Açúcar, teve início outra rede da família Nagumo, que hoje já conta com 39 lojas, em várias cidades.