quinta-feira, 26 maio 2022
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Ensinar, educar, formar

 

Por Amauri Eugênio Jr.

Situação A: os pais de Carlos e Laura trabalham no horário comercial, de segunda a sexta. A mãe é proprietária de uma loja e o pai é roteirista. Ambos trabalhavam, respectivamente, em uma multinacional e em uma produtora de cinema, mas optaram por seguir em atividades mais tranquilas para estar ao lado dos filhos e acompanhar ao máximo o crescimento deles. Além de ensinar a eles noções sobre respeito à diversidade sociocultural e amor ao próximo, os dois ajudavam as crianças a fazer as lições de casa que eram enviadas pela escola. E mantinham contato frequente com a instituição para saber como estava o desenvolvimento dos filhos, assim como questionavam a coordenação pedagógica sobre relatos que as crianças faziam sobre um coleguinha fazer comentários preconceituosos com outros alunos.
Situação B: os pais João e Felipe trabalham em um escritório contábil e em uma agência de publicidade, e, por isso, eles não têm muito contato com os filhos durante a semana – às vezes, sequer aos sábados e domingos, dependendo da época do ano e da demanda de trabalho. Por isso, eles incentivam as crianças a participarem do máximo de atividades extraclasse que elas puderem, para que o tempo seja bem ocupado durante o dia. Por esse motivo, os dois indignam-se quando percebem que as notas estão abaixo da média ou quando a coordenação pedagógica lhes comunica sobre atos de indisciplina e de mau comportamento dos filhos. Afinal, o casal paga caro pelas mensalidades dos filhos; logo, a escola que se vire para dar a melhor educação possível para eles. Ah, sim: em casa, os pais deixam a filharada fazer o que bem entender, para compensar o tempo que ficam ausentes.
Os exemplos mostrados acima retratam o dilema encontrado por muitos pais quando o assunto é a educação dos filhos. É inegável que o ritmo atribulado do dia a dia faz com que eles passem menos tempo ao lado da criançada para brincar, contar histórias e educar. Sim, educar, o que diz respeito a aspectos básicos, como respeitar ao próximo, estabelecer horários para assistir à televisão, comer e dormir, ensinar a agradecer quando alguém faz um favor ou dá uma ajuda, e assim por diante. Qual é a consequência disso? As escolas estão cada vez mais ficando responsáveis pelo papel que caberia aos pais, ou seja, a transmitir valores pessoais, como se fossem meras prestadoras de serviço. Nesse caso, o ideal é que pais e escola sejam parceiros na formação das crianças, mas ao se levar em conta o panorama citado há pouco, não é exagero dizer que a educação delas tem, sim, sido terceirizada para instituições de ensino.

Ponto de virada

Antes, as famílias tinham mais tempo para cuidar da educação da criançada, muito por causa da maneira como eram organizadas e pelas estruturas trabalhistas, que ainda previam o bem-estar para o empregado, no que diz respeito a ter mais tempo para a família. Com o passar do tempo, eles tiveram de trabalhar mais horas para manter um padrão de vida confortável, e as mães, até então responsáveis pela educação das crianças, passaram a entrar em massa no mercado de trabalho e, desse modo, começaram a colocar os filhos cada vez mais cedo em creches e passaram a estar por menos tempo com eles. Contudo, aqui vale uma observação: a criação dos filhos é de responsabilidade dos pais e das mães na mesma proporção e, sendo assim, é incorreto estabelecer relações entre problemas na educação das crianças e por mulheres terem começado a trabalhar, ainda mais ao levar-se em conta que incentivar a igualdade de gêneros é fundamental para haver uma sociedade mais justa.
Qual é o efeito-borboleta causado pelas jornadas de trabalho cada vez maiores? A escola tem acumulado as funções de ensino do conhecimento e promover a socialização, que são as suas tarefas básicas, com o papel de ensinar normas básicas de comportamento, que seria a parte dos pais. “Os pais, pressionados pelo trabalho, cada vez menos têm a possibilidade de criar seus próprios filhos, tanto no sentido da cultura como no comportamento básico. Isso tem reflexo direto na escola, que são o mau comportamento dos alunos e o péssimo desempenho [escolar] deles”, explica Paulo Niccoli Ramirez, professor de sociologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Emoções misturadas

A educação para a escola é refletida no comportamento das crianças. Não entendeu? Vamos lá: para compensarem a culpa por estarem longe dos filhos, os pais tendem a ser mais permissivos com eles e, assim, a deixá-los fazer o que eles quiserem. Isso torna-se ainda mais intenso ao ser levado em conta que as crianças ficam mais intransigentes e procuram preencher o vazio sentimental que têm por meio do consumo, justamente para compensar o pouco afeto que recebem dos pais, que (adivinhe!) são obrigados a passar menos tempos com eles.
Contudo, aí entra outra questão. Um dos papéis básicos da escola é ensinar noções de convívio em sociedade e, com isso, que há limites a serem respeitados para uma pessoa viver em harmonia em comunidade. Em resumo, mesmo que cada família mostre que o(a) filho(a) é especial e é a pessoa mais importante do mundo, a escola mostra que é alguém igual e com os mesmos direitos que os outros têm, e que é necessário conviver com frustrações e desejos não realizados. “Os pais deixam de mostrar que os filhos não terão algumas coisas aqui e ali. Com isso, as crianças deixarão de viver com limites e irão se frustrar muito mais quando não são atendidas”, pontua Maurício Cardoso, professor de história da USP (Universidade de São Paulo), cuja opinião é endossada pela psicóloga Isabel Kahn, professora de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). “Os pais têm culpa, pois deixam os filhos fazer tudo o que querem. Eles precisam estabelecer regras e hábitos, pois essas são decisões da família, e devem ter coragem para sustentá-las.”

Não basta ser pai, tem de se impor

Outro ponto delicado em terceirizar a educação dos filhos é que a autoridade dos pais perante os filhos fica fragilizada. Isso não significa que o pai e a mãe devam se comportar como generais, mas é necessário colocar limites e, para isso, eles devem fazer com que os filhos os respeitem. Sem conviver com eles, isso fica difícil, não é? Isso faz a molecada ver os pais como amigos, no sentido de falta de autoridade. Se a permissividade rolar solta, aí a casa cai. Por quê? A resposta é simples: os pais fazerem vista grossa para mentiras e indisciplinas, por exemplo, faz a criança não ter noção do que é certo ou errado, assim com não ter consequência de seus atos. Um dos efeitos colaterais disso é os filhos testarem o comportamento passivo dos pais para ver até em que ponto os pais serão, de fato, permissivos.
Além disso, há a (nada) boa e velha questão das notas baixas. Pais, vocês já pararam para pensar que aquela nota vermelha no boletim pode ser um sintoma muito além do aprendizado puro e simples? “Pode acontecer determinada situação em que tirar uma nota baixa pode ser [um recurso] para chamar a atenção dos pais. Pensa-se que a questão está apenas no saber, mas tirar uma nota baixa é um sinal de que o aluno está querendo chamar a atenção para ter carinho, atenção, afeto e segurança”, ressalta Alexandre Filordi de Carvalho, professor do curso de pedagogia da EFLCH (Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

O que é o unschooling?

É o que se chama de “desescolarização”, ou seja, tirar a criança da escola e ensiná-la por meio da vivência cotidiana. Mas não se pode “tirar por tirar”, pois é necessário ter um projeto detalhado para mostrar como os filhos aprendam em casa o conteúdo de cada disciplina tradicionalmente ensinado na escola. Por exemplo, uma criança pode aprender sobre reações químicas enquanto cozinha com os pais, sobre ciências humanas assistindo a desenhos animados e filmes.
Por ser uma fuga do método tradicional de ensino, o unschooling é polêmico, pois um fator fundamental é excluído: viver em sociedade e com diferenças culturais e comportamentais. “O unschooling gera indivíduos voltados ao isolamento social e à dificuldade para lidar com diferenças sociais. A escola é o ambiente de socialização e a riqueza para conviver com diferenças e em coletividade. E não se faz isso por meio da individualidade”, comenta Alexandre Filordi de Carvalho.
Outro ponto a ser levado em conta é uma particularidade brasileira. Se em um país com aspectos democráticos já consolidados, como os EUA, o direito à educação foi garantido há muito tempo, o acesso universalizado no Brasil é bem mais recente. “O direito à educação é muito recente no Brasil. Então, ainda não temos a experiência da educação escolar maturada. Não dá para esperar que seja a escola dos sonhos se ainda não a construímos. Antes, havia após a quinta série o exame de admissão na escola pública. Hoje, a escola pública é universalizada, mas precisa ser construída para esse público universalizado”, reforça Maurício Cardoso, professor de história da USP.
Contudo, há o outro lado da moeda. Em entrevista ao apresentador Rodrigo Barros, na HandsOn.TV (handson.tv), Lucas Barros, criador do UnCollege Brasil, comentou que o papel da escola é “encher a cabeça do seu filho de conteúdo para ele passar no vestibular”. Ele defende o “unschooling”: “É um movimento que ajuda o jovem a hackear a própria educação e a ver a educação de uma maneira diferente, sem depender da educação tradicional. É olhar para a educação e tentar achar um caminho para seguir individualmente.”

Há limites!

Há situações em que os pais cobram a escola pelo mau comportamento e notas baixas dos alunos, como se não tivessem parcela de responsabilidade na educação dos filhos. Há, também, aqueles que parecem não querer saber do desenvolvimento deles no ambiente escolar, pois partem do pressuposto de que pagam bem para a escola, em português claro, se virar. Sim, temos aí um problema.
Sendo assim, uma alternativa viável para evitar que as coisas cheguem a esse ponto é a instituição deixar claro, antes mesmo da matrícula, que a educação dos filhos deve funcionar em parceria entre a própria escola e os pais. Em resumo: ambas as partes têm papel fundamental na formação delas, que serão cidadãs com direitos e deveres em pouco tempo.

Ponte do aprendizado

Assim como o unschooling, a Escola da Ponte propõe método de educação alternativo, ao fugir dos moldes engessados da educação tradicional. Contudo, o grande diferencial é que, em vez de haver o isolamento social, o foco na instituição é a interação social e a cidadania.
A instituição, situada no distrito do Porto, em Portugal, foi criada nos anos 70 pelo educador José Pacheco, e baseia-se na escolha dos alunos sobre quais são as suas áreas de interesse e onde alunos criam regras de convivência que deverão ser seguidas até mesmo por professores e pais. Sim, você leu isso mesmo: os pais também estão na história, pois eles são vistos como parceiros e corresponsáveis pelo aprendizado dos filhos. “Nesse sentido, a Escola da Ponte é uma abertura à experiência cultural”, ressalta a psicóloga Isabel Kahn, professora de psicologia da PUC-SP.

Participo, sim!

A blogueira e dona de casa Viviane Pereira, mãe de Rafaela, 19, e Ítalo, 11, acredita que a escola tem papel importante na socialização e no convívio com minorias culturais e comportamentais, pois diversas famílias não abordam temas relacionados à diversidade e a minorias com os filhos, o que pode resultar em casos de bullying e discriminação por etnia e orientação sexual, por exemplo. Mas ela julga que a participação familiar é fundamental na formação do filho. “Procuro passar os valores em que acredito para meus filhos com conversas e exemplos. Quando era pequena, não me lembro de meus pais conversarem sobre liberdade religiosa e diversidade sexual, por exemplo. Hoje converso muito com meus filhos sobre estes assuntos”.
Para Viviane, a jornada de trabalho cada vez maior pode influenciar na “terceirização” de como os filhos são criados, assim como nas comodidades que as escolas oferecem cada vez mais. Mas isso não lhes dá aval para fazê-lo e deixar de transmitir valores a eles. “Acredito que cada um tem seus motivos e não quero julgar, mas acho perigoso, principalmente quando esses pais não oferecem a educação básica para seus filhos e jogam toda a responsabilidade de formação do caráter para a escola. Em minha opinião, este papel é da família e não da escola”, finaliza.

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