Quem fala o que quer…

 

… Ouve o que o não quer. Pelo menos é o que o senso comum diz — com doses de sabedoria, é verdade. Isso vale para tudo: desde uma ofensa gratuita e desnecessária dirigida a uma pessoa “na dela”, a até mesmo o conteúdo deste post. Idem para quem faz comentários desnecessários sobre a aparência de uma pessoa, assim como sobre aspectos relacionados à etnia. Bom, foi isso o que rolou com a banda teen Fly, em uma matéria da revista Atrevida.

Pedir para opinarmos sobre como nós, homens, achamos que mulheres devem se comportar já é problemático ao extremo. Elas já têm diversos problemas relacionados à aparência, autoestima e autoconfiança, muito por causa da ditadura da moda (sim, isso existe) e porque são condicionadas a agradarem a nós, em detrimento à maneira como elas se sentem bem. Em resumo, elas são ensinadas a agir como se não fossem elas mesmas. Mas, como não há nada muito ruim que não possa ficar ainda pior, a história tomou proporções ainda mais bizarras. Caique Gama, um dos integrantes da banda, mandou a seguinte pérola após perguntarem sobre o que ele acha de tranças [preparem o estômago, pois as cenas são fortes]: “É bonito. Para quem tem cabelo ruim é uma salvação (todos riem)”.

Mesmo que Caíque não tenha se dado conta, pelo fato de o racismo estar nas entrelinhas e no subconsciente social — em resumo, no ethos do brasileiro — , ele teve uma atitude racista, sim. Desnecessário dizer que pegou mal. Muito mal. Qual foi a cereja do bolo? Caíque disse ser também vítima de racismo, pois é chamado de “branquelo azedo”. Não. Apenas não. Caíque, cola aqui com o tio para você sacar uns lances.

OK, ofensas relacionadas à etnia ou à cor da pele, não importando o contexto, são execráveis. Não faz o menor sentido discriminar uma pessoa por ser branca, oriental, ruiva, loira, indígena, whatever. De acordo com a Constituição Federal, todos somos iguais, não importando etnia, classe social, orientação sexual, gênero, essas coisas. Mas dizer que você também é vítima de racismo já é ilógico e é um exemplo manjado de falsa simetria. É equivalente ao apresentador Danilo Gentili falar que é vítima de racismo reverso.

Vamos aos fatos: mesmo que você se sinta ofendido — e com razão — por ser chamado de “branquelo azedo”, sua raiz étnica é, você aceite ou não, socialmente dominante. Qual é a etnia predominante na televisão brasileira, desde telejornais a novelas? Sim, brancos ou “branquelo azedo”, parafraseando o que você disse (ah, sim: acho esse termo ridículo, só para deixar claro). Qual a cor da maioria esmagadora de minas que são capa de revistas como a Atrevida? Brancas. Qual é a cor em quase todas as Barbies da vida? B-R-A-N-C-A. O processo de escravidão no Brasil, uma das páginas mais lamentáveis, para não dizer a mais de nossa história, não ceifou vidas e sonhos de gente branca, não, meu brother. Você não teve problemas de pertencimento e identificação social por causa de sua etnia. Você não teve oportunidades de emprego negligenciadas, foi alvo de piadas racistas e de olhares de reprovação de seus sogros, ou tomou enquadro policial por causa da cor da sua pele. Você, seguramente, não foi submetido ao esteriótipo, por ser negro, ter de ser sambista e cachaceiro, por imposição do senso comum (cacildis!). É ponto pacífico que nenhuma parente sua, branca, foi alvo de comentários sexistas da série “negra só serve pra transar”.

Fera, é bem provável, para não dizer certo, que você tem fãs negras. Negras que, segundo a sua fala, têm cabelo ruim. Vamos por partes: não existe cabelo bom ou ruim, mas sim liso, ondulado, cacheado e crespo. Você já parou para pensar em quantas minas negras que, por crescerem ouvindo que o cabelo delas é ruim, têm problemas bizarros de pertencimento social e até mesmo de autoaceitação? Ainda, já passou pela sua cabeça que essas mulheres, para se sentirem integrantes de um contexto social que é doente, se submeteram a métodos condenáveis, até mesmo para a saúde, para ser menos negras? Você já sacou que falas como a sua são equivalentes a uma facada na parte emocional delas?

Vamos a alguns casos, só para você sacar o lance. O primeiro foi com o neurocientista estadunidense Carl Hart, um dos caras mais brilhantes na área dele, que quase foi barrado no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, por não ser condizente com o local (leia-se negro). Outro caso, muito mais estarrecedor,  aconteceu com uma estagiária de uma escola, também em São Paulo, que foi orientada a alisar o cabelo para seguir o padrão do colégio (isso sim é racismo). Não foi o bastante? Lá vai bomba, mermão: há quase dois anos, um garoto de 8 anos teve de lidar com um caso para lá de bizarro, no qual a diretora da escola em que ele estudava pediu para a mãe cortar o cabelo dele, que, segundo a educadora, era “crespo e cheio”. Por mais que você não tenha sacado, dizer que trança “para quem tem cabelo bonito é uma salvação” endossa tal linha de raciocínio. E ninguém ri, certeza.

Caique, meu velho, você disse besteira e das grandes — dói admitir, sei, mas isso é um fato. Espero que você se retrate sobre isso, na moral. A começar pelas suas fãs com cabelo ruim que, aposto, se sentiram devastadas e/ou ofendidas pelo o que você disse.

É isso.