Empresários guarulhenses inovam e driblam as dificuldades econômicas

Por Tamiris Monteiro

Inflação acima da meta, crescimento baixo, juro altíssimo, câmbio nas alturas: o primeiro trimestre de 2015 já anunciava que o ano não seria nada fácil. E para piorar, de acordo com muitos economistas, a atual situação econômica do país deve estender-se para o próximo ano. Diante desse cenário, toda a cadeia produtiva é afetada, e seja qual for o perfil de negócio ou segmento de atuação, a instabilidade financeira tornou-se fator de preocupação para a maioria dos empreendedores.

É natural que o sentimento de insegurança, somado aos números que mostram quedas nas vendas de produtos e na procura de serviços, gere pessimismo. E a pressão dos custos e das medidas tomadas visando reverter a crise pode levar muitos gestores a sérias dificuldades financeiras ou até mesmo à falência. Contudo, mesmo em meio a tantas más notícias, economistas e entusiastas do universo empreendedor, acreditam que crises são tão importantes quanto períodos de fartura. Isso porque o momento de aperto traz a necessidade de mudança e obriga empresas a rever conceitos e atitudes para sobreviver e se tornar ainda melhores.

Uma frase entusiasta citada pelo pai rico de Robert Kiyosaki, autor do best-seller internacional “Pai Rico, Pai Pobre”, diz que “os ricos são ricos porque enxergam oportunidades onde ninguém mais consegue vê-las”. Talvez, essa realmente seja uma das grandes sacadas do empreendedorismo. Em épocas de crise, alguns empresários encontraram meios de seguir em frente e até ampliar suas atividades. Surpreendentemente, Guarulhos está cheia de gente assim, que mesmo diante de dificuldades tem arregaçado as mangas e ido à luta. Prestes a comemorar 455 anos, e com aptidão para o progresso, não é à toa que a cidade se mantém com o 2º maior PIB do Estado. Nas próximas páginas, confira a história de guarulhenses que, com determinação e trabalho duro, têm ampliado seus negócios e mantido vivo e pulsante o cenário econômico do município.

José Araujo Junior, a história do administrador por trás da Perfil Líder e da Eletroferro

Muito trabalho e determinação foram alguns dos fatores que levaram o empresário José Araujo Junior a ascender na vida profissional. Paulistano, nascido no Brás, Junior veio para Guarulhos com 16 anos e foi aqui que escolheu constituir família e empreender. À frente da empresa Perfil Líder há uma década, uma das maiores do mercado dentro do segmento de instalações elétricas, mecânicas e hidráulicas, há um ano e meio também surgiu a oportunidade de investir em outro negócio: a Eletroferro.

Sempre atento a boas oportunidades, Junior conta que a abertura da loja surgiu depois de enxergar que existia espaço e necessidade para colocar de pé um lugar que oferecesse variedade de produtos de qualidade para construção civil. “A Eletroferro iniciou-se como loja Perfil Líder, onde distribuíamos os materiais de fabricação própria. Mas com o passar do tempo, surgiu a ideia de abranger um mercado maior, fidelizar o cliente com mais opções, aproveitando o crescimento da cidade e o conhecimento do mercado”, conta.

Apesar do trabalho assertivo e da expansão, Junior não ficou de fora do grupo de empreendedores que têm sentido os impactos da crise. “Fornecemos para construção civil e manutenção das indústrias, e a crise que pegou todos os segmentos foi ainda mais forte nessas áreas. Talvez, pela Eletroferro ser nova e estar há pouco tempo no mercado, não temos sentido tanto o efeito, mas na Perfil Líder houve uma queda em relação ao ano anterior. Fomos forçados a readequar nossa realidade para não sofrermos problemas maiores. Por outro lado, esse momento nos ajudou a identificar erros que estávamos cometendo e enxugar gastos desnecessários”, pontua.

O conselho que o empresário dá para os colegas que estão desanimados ou quase desistindo é: analisar no que é possível melhorar, ter paciência e ser persistente. “Momentos ruins sempre vão existir. Dizer que devemos estar preparados é utopia; nunca iremos estar preparados ou aceitaremos sem reclamar, mas o empreendedor é um realizador de ideias, um cara que sonha e sabe exatamente aonde quer chegar e, por isso, deve ser insistente. Cair faz parte do processo, mas aprender com cada tombo pode levar à vitória”.
Embora a crise seja um fator que pesa nas decisões futuras, Junior nem pensa em desacelerar, e expandir ainda faz parte de seus planos. “Temos ideia de abrir novas unidades da Eletroferro em bairros que estão em desenvolvimento. Queremos crescer junto com a cidade, levando progresso e emprego a outras regiões e captando novas oportunidades”, afirma.

Receita de sucesso: família transforma loja de bolos caseiros em franquia

Inaugurada em junho de 2013, a Boloterapia foi a primeira loja de bolos caseiros da cidade. Nascida do sonho e determinação do casal Luiz e Luciana Rosa, o negócio deu tão certo que em menos de um ano foi aberta uma segunda unidade. E a expansão não parou por aí. Pautados no sucesso do crescimento que aconteceu em pouco tempo, e com a ajuda dos filhos, Lucas, de 21 anos, e Matheus, de 20 anos, a família não teve dúvida em colocar a mão na massa e partir para mais uma expansão.

Mesmo diante do pessimismo em relação ao cenário econômico, a família aproveitou a oportunidade do bom momento que o empreendimento vive e decidiu ir um pouco mais longe. O que antes eram apenas duas lojas de bolos caseiros está se tornando uma franquia. “Quando decidimos transformar a Boloterapia em franquia, além de ser um progresso para o negócio, pensamos também em gerar oportunidades, e isso tem relação direta com a fase econômica que vivemos. Nesse momento de crise, o que mais reflete nas grandes empresas é o desemprego. E para o desempregado, a primeira ideia é de recolocar-se no mercado ou de abrir seu próprio negócio. Então, pode ser que para essa pessoa seja uma oportunidade ter seu próprio negócio”, explica Luiz. Até o momento, a Boloterapia tem duas franquias piloto: uma já em funcionamento, inaugurada no dia 20 de novembro, na vila Galvão.

A empresa que inaugurou com apenas 12 sabores de bolos, em dois anos já oferece 46, sendo que todas as receitas são personalizadas por Luciana. Para a proprietária, outra questão importante é trabalhar novas ideias e pensar em inovação constantemente. “Estamos lançando novos produtos, pensando nas férias, na criançada, sempre apostando em alternativas. O que não pode é ficar parado, acomodado, esperando a crise acabar para retomar, porque pode ser tarde”, comenta Luciana.

Segundo Luiz, administrar o capital com rédeas curtas é outro fator imprescindível na hora da crise. “A empresa não compra nada a prazo, porque justamente num momento desse a preocupação de não termos contas futuras é ainda maior. Acredito que essa forma de trabalhar com dinheiro tem sido um dos principais fatores de não termos sentido tanto a crise. Embora pareça fácil falar, acho importante ressaltar que essa não é a primeira nem a última crise que os brasileiros estão vivendo; portanto, essa pode ser a hora de explorar oportunidades e sobressair em relação aos demais”, avalia.

João Franco: talento e visão empreendedora fazem cabeleireiro expandir seus negócios

Dedicação, especializações dentro e fora do Brasil e serviços muito bem executados fizeram do cabeleireiro João Franco um dos nomes mais conhecidos da cidade. Por causa do trabalho duro e reconhecimento, em pouco tempo o profissional alavancou seu negócio e, na onda do sucesso, decidiu empreender e apostar em um segundo salão, aberto em agosto deste ano, no Parque Shopping Maia.

Para João, a crise pode ser um bom momento para quem está preparado para as oportunidades. “Logicamente que investir em outra unidade trouxe um certo receio, mas numa decisão em conjunto com a Cida (administradora do Studio), que sem dúvida tem grande participação em tudo isso, com sua visão empreendedora, decidimos tentar. E graças a Deus foi uma investida certeira; a inauguração foi um sucesso, esperávamos cerca de 300 pessoas e foram quase mil”, conta.

Com cerca de dois mil clientes atendidos por mês, para o hairstyle, um dos grandes segredos para não naufragar no mar da crise é zelar pelo bom atendimento. “Em termos de números, em comparação ao ano passado, não temos sentido os reflexos; porém, acredito que, se o país não estivesse passando por tantas dificuldades, estaríamos ainda melhores. Também acho que quando prestamos um bom serviço, por mais que você passe apertado, dificilmente seu cliente te abandona. Aqui no salão, por exemplo, sinto uma diferença na frequência com que os clientes têm vindo, mas percebo que aumentou o número de novos clientes; talvez, por isso não tenhamos sentido tanta diferença”, analisa.

Valdir Silva, de funcionário a proprietário, ele é o “cara” da Roda Center

A história do Valdir é daquelas que trazem inspiraçã. Com 48 anos e sócio presidente de uma das lojas automotivas mais antigas da cidade, com uma visão empreendedora, galgou muitos degraus até tornar-se empresário. Com 17 anos, começou a trabalhar na Roda Center e aprendeu a trabalhar como balanceador de rodas, ofício que, segundo ele, foi a base de tudo para seu tino empreendedor. Com o tempo e empenho, tornou-se um funcionário visionário até que conseguiu abrir a oficina Stilo, acoplada ao Roda Center, e mais tarde concretizou o sonho de ser o proprietário de todo o local.

“Fui funcionário por 20 anos, mas as coisas começaram a acontecer em 2005, quando tive a ideia de montar a Stilo Auto Center, na avenida Papa Pio XII, que dá fundo à Roda Center. Em 2008, a família Hayashi, antigos proprietários, decidiram vender a loja. Não medi esforços para comprá-la, fiz uma fusão das duas empresas e mantive a marca Roda Center, pois era um sonho juvenil. Minha motivação foi meu sonho. Outra questão que me ajudou muito foi que ao longo dos anos atendendo os clientes da Roda Center, sempre com muito carinho e cordialidade, fui conseguindo meus próprios clientes”, relembra.

O negócio abriu as portas para novos horizontes, e percebendo que os serviços de reforma de rodas vinham crescendo, Valdir investiu em um novo estabelecimento localizado na vila Augusta. “Hoje penso em fortalecer as duas lojas. Estou investindo em reforma, software, equipamentos novos, como a alinhadora 3D e treinamento das equipes. Também tenho vontade de ter uma franquia, mais por enquanto esse plano está em stand by”.

E, para superar a crise, o conselho do empresário é o seguinte: “Trabalhe. Reclamar não ajudará. Depois que esse tsunami passar, só mesmo quem tiver trabalhado muito para manter seu negócio conseguirá reconstruir o que alguns políticos estão destruindo”, afirma

Carlos Régis Escarlate aposta em nova franquia da Kopenhagen e saboreia o doce sabor do progresso

Depois de trabalhar por anos com consultoria e ser executivo de uma grande empresa, Carlos chegou ao limite quando percebeu que precisava estar mais tempo ao lado da família. Descontente, resolveu “chutar o balde” e tocar um negócio próprio, junto com a esposa, Ana Paula. “Eu e minha esposa juntamos a fome com a vontade de comer. Tínhamos vontade de ter algo no ramo da alimentação, por ela ter um histórico como nutricionista e eu um perfil de administrador, achávamos que poderia dar certo. E deu. Digo que empreendemos por oportunidade e não necessidade, diferente do que acontece com muita gente. Tivemos tempo de nos planejar e isso fez muita diferença”, conta.

De portas abertas há quase quatro anos, a Kopenhagen localizada na rua Brás Cubas deu tão certo que logo surgiu a oportunidade de abrir outra loja dentro do Parque Shopping Maia. “Por uma questão contratual, a própria franquia nos convidou para fazer parte do projeto de expansão, mas desde o início, a ideia foi entrar sabendo que poderíamos expandir na rede”.

Ainda que a escolha de administrar mais uma loja na cidade tenha acontecido antes da crise, Carlos admite que seus negócios não têm sofrido tanto impacto. “Nos primeiros meses, praticamente não sentimos, mas a partir dos seguintes notamos que as vendas reduziram, principalmente em datas especiais, como Dia dos Pais, Namorados, etc. Para tentarmos contornar esse cenário econômico desfavorável, fazemos um ótimo trabalho de atração e retenção de talentos. Se o atendimento é bom, o cliente volta. Para nós é fundamental termos uma equipe qualificada”, explica.

Atento às mudanças no cenário econômico e sempre em busca de melhorias, ele acredita que a crise só faz morrer quem já estava mal. “Existem empresários que atribuem o insucesso dos seus negócios à crise, mas enxergo que esse é um momento de que podemos tirar muitas lições. A crise faz você ter controles absolutamente rígidos sobre qualquer coisa. É importante aprimorar os processos da empresa, seja na bonança ou na crise. Outra forma é enxergar possibilidades de atrair novos clientes e manter fiéis os que já existem”, aconselha.

Pluralista, Aquino Ito lida com negócios de ramos completamente diferentes

Aquino é guarulhense e cresceu vendo a família tocar um negócio automotivo que manteve as atividades por mais de 30 anos. Com o fim do estabelecimento familiar e tato para o empreendedorismo, decidiu apostar em uma nova ocupação. “Sempre fui muito curioso, pesquisava sobre muitas coisas, até que vi a oportunidade de adquirir a Casa do Pão de Queijo, dentro do hipermercado Walmart, lugar que administro há sete anos”, conta.

Segundo Aquino, a experiência de estar à frente da Casa do Pão de Queijo fez com ele tivesse vontade de buscar novos negócios. “No início, não foi fácil organizar as coisas na loja de pão de queijo: não tinha tanta prática em lidar com produtos perecíveis, validade, etc. Foram dois anos de muita dedicação, até que tudo se ajeitasse. Depois desse período, comecei a ficar com tempo ocioso e procurei outra franquia em que pudesse investir. Um dia chegou no meu email uma mala direta, falando sobre o OutLet Lingerie, franquia desenvolvida pelo empresário Mauricio Micheloto. Vislumbrei que o que ele me oferecia era um bom pacote. Assinei contrato em março de 2013, consegui encontrar um bom local para instalar a loja em agosto, e, em 29 de novembro, inauguramos”.

Apesar de os negócios terem sido abertos em tempos de maior bonança, Aquino revela que, assim como a maioria dos empresários, tem sido afetado pela crise, porém, procura por meio de um bom atendimento e corte de gastos minimizar os resultados da má fase. “Nosso maior problema é que a população está sem dinheiro, e, o que é pior, endividada e desempregada. Nosso faturamento está aquém das necessidades, o que acaba fazendo com que nosso custo fixo, para estar de portas abertas, tome uma parcela muito grande sobre a lucratividade. Tudo tem aumentado, e temos tomado cuidado para não repassar essa alta nos produtos. A única solução é fazer o dinheiro circular novamente, mas isso requer tempo e é preciso ter disciplina e paciência. O grande segredo é trabalhar, trabalhar e trabalhar”, finaliza.