Por Cris Marques
Fotos: Régis Philippe

Com uma história de vida inspiradora, Ariadne, diagnosticada ainda bebê com um tipo de paralisia cerebral que a impediria de falar ou andar, venceu obstáculos reais e transformou sua experiência em uma verdadeira lição de vida. Com a palestra “Muros e grades são invenções humanas”, leva a mensagem de inclusão e a importância da não superproteção da criança ou indivíduo com deficiência.

Ariadne Pereira Antico, 31, formada em gestão de recursos humanos, coach, palestrante e palhaça, nasceu em Guarulhos e viveu na cidade, em um apartamento no Parque Cecap, até os seus 15 anos. “Embora tenha nascido aparentemente normal e sem nenhuma deformidade, meus pais começaram a perceber e achar estranho o fato de eu não conseguir ficar sentadinha no sofá, parecia que não tinha equilíbrio, e resolveram procurar alguns médicos. Depois de alguns exames neurológicos veio o diagnóstico: paralisia cerebral do tipo coreotetoide global de etiologia não esclarecida, o que, de acordo com o profissional, me impediria de andar e falar, mas manteria minhas funções cognitivas totalmente preservadas”.

Segundo a entrevistada, foi ali, naquele momento tão difícil, que ela tornou-se a criança mais sortuda do mundo. “É muita sorte ter a família que tenho. Ao invés de cruzar os braços, chorar e dizer ‘coitadinha’, meus pais arregaçaram as mangas e começaram a procurar tratamentos para que eu conseguisse me desenvolver o máximo que pudesse. Alguns meses depois, estava na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), quase todos os dias da semana, entre seções de fisioterapia, hidroterapia e terapia ocupacional. Além do tratamento, minha mãe fazia com que eu fizesse exercícios também em casa. Na época, meu pai e meu tio construíram, com canos de PVC, barras paralelas, parecidas com um aparelho de ginástica olímpica, com a altura regulável, afinal não sabiam por quanto tempo eu iria precisar daquilo, e faziam com que eu ficasse andando de um lado pro outro. Óbvio que isso tudo era muito chato e, como toda criança, eu fazia birra e chorava. Aí sobravam broncas e tapas na bunda. Lembro da minha mãe falando: ‘melhor te ver chorar agora do que mais tarde’”.

Ela ainda conta que teve uma infância muito boa. Entre os tratamentos e a batalha dos pais pra conseguir vaga em uma escola, estavam os passeios no lago dos Patos e na praça IV Centenário e as brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde, como café-com-leite, segundo ela. “Costumo falar muito sobre a importância das escolhas que fazemos em nossas vidas e às vezes me pergunto: ‘Se tivesse escolhido me fazer de vítima e não brincar porque caía muito e não conseguia correr, seria como sou hoje?’ As pessoas me questionam se sofri bullying e minha resposta é simples: ‘Quem nunca passou por isso?’ Pois é, comigo não seria diferente, a grande diferença é como minha mãe me ensinou a lidar com isso”.

A vida lá fora

SER-dEFICIENTE---foto--Renato-JuniorJá adulta, formou-se em gestão de recursos humanos e começou a trabalhar em São Luiz do Paraitinga, onde estava morando na época. “Meu primeiro emprego foi como funcionária pública. Eu era secretária de escola e fiquei nesse cargo por quase 9 anos. Quando decidi mudar para São José dos Campos, tive que encarar de frente o mercado de trabalho, nas famosas “cotas para deficiente” de duas grandes empresas da região. Depois de passar por isso, tenho uma opinião um tanto quando adversa à forma com que essa lei é aplicada”.

Nesse meio tempo, em 2012, Ariadne resolveu que queria viajar sozinha, de mochila nas costas e, depois de algumas pesquisas, partiu rumo ao Peru. “No meio da viagem, descobri que em Arequipa tinha um cânion e decidi que queria fazer a tal trilha que me levaria ao fundo dele”. Ela conta que o Canion del Colca é uma formação geológica de mais de dez milhões de anos e o segundo mais profundo do planeta, com 4.160 metros, quase 3 vezes mais do que o Grand Canyon. “Foram dois dias de passeio. Na descida, a mais difícil e cansativa de toda a minha vida, tinham muitas pedrinhas soltas que escorregavam naquela terra seca. Em um determinado momento, eu dava cinco passos e caía de bunda, mais cinco e outro tombo. Meus pés doíam muito e comecei a me perguntar o que estava fazendo ali. Mas a resposta era óbvia e estava diante dos meus olhos: aquela paisagem fantástica fazia tudo aquilo e a vida valer a pena. Quando cheguei no fundo do cânion, onde passa o rio Colca, chorei horrores, não sei direito se de emoção ou de dor”.
Depois de dormir no vilarejo, no dia seguinte, era a hora de começar a trilha de volta.

“Estava tudo certo, até que fui colocar meu boot no pé e vi o tamanho do meu dedão: estava superinchado e eu não conseguia andar, doía muito. Fui procurar alternativas para voltar e a única opção e meio de transporte na região era a mula. Sim, fiz o caminho de volta de mula. Mas não pense que é moleza: o animal empaca, dá uns pulos quando tem algum degrau, escorrega de vez em quando e, pra ajudar, anda na beira do penhasco”, relata.

Ariadne-Pereira-Antico-(2)Uma história motivadora

Após receber o convite de um amigo para palestrar na universidade em que estudava, a jovem percebeu o quão motivadora e transformadora era sua história e resolveu criar o projeto SER dEFICIENTE. Na palestra “Muros e grades são invenções humanas”, ela apresenta temas como a importância da escolha, o uso do bom humor como estratégia de superação e a importância da não superproteção e da inclusão. O toque de arte fica por conta de sua personagem Birita, palhaça que, em breve, deve ganhar uma peça de teatro. “O projeto é novo, estou com uma vaquinha no site Kickante para me ajudar a financiá-lo e tenho recebido alguns convites de empresas, mas, sinceramente, os melhores frutos são as experiências e energias trocadas. Recebi o relato de um homem com um sobrinho de dois anos também com deficiência; ele me disse que saía dali com a esperança de que o pequeno teria um futuro. Outro senhor, com uma filha com deficiência, veio até mim com os olhos cheios de lágrimas e contou que, se tivesse ouvido minha história há 30 anos, a vida da filha seria diferente”, finaliza a palestrante.

Quer acompanhar e ajudar Ariadne em sua jornada?

Você pode curtir a página no Facebook. Contratar a palestra (ser-d-eficiente@outlook.com) e até ajudar na vaquinha, que vai até o dia 3 de agosto, e financiará a primeira viagem do projeto rumo às capitais do Nordeste.