Por: Cris Marques
Fotos: Erika Verginelli, Rádio Vozes, arquivo pessoal,
banco de imagens e divulgação

Lápis, caderno, chiclete, peão, Sol, bicicleta, skate, calção, esconderijo, avião, correria, tambor, gritaria, jardim, confusão. Assim começa a música “Criança Não Trabalha”, escrita por Arnaldo Antunes e interpretada pela dupla musical infantil Palavra Cantada, formada em 1994 pelos músicos Sandra Peres e Paulo Tatit. Ao escutar tal descrição, os mais velhos imediatamente relembram com carinho dessa fase; mas, e os pequenos e jovens de hoje em dia? Será que a falta das palavras celular, computador, internet, Youtube, Facebook ou videogame fazem falta a ponto da canção não fazer mais sentido? Pode até ser que sim, mas não deveria. Por mais que o mundo evolua, a tecnologia avance a passos largos e as gerações mudem, criança é criança e tem que vivenciar isso.

A crise dos dois anos | Click GuarulhosDe acordo com Adriana Fernandes, neuropsicóloga que atua no Instituto Psicológico Recomeçar, na Vila Augusta, e em um consultório particular, infelizmente, existe um movimento crescente em vários âmbitos (social, familiar, midiático) promovendo a adultização precoce da criançada, além da tecnologia, que ocupa cada vez mais espaço, o que, dependendo da intensidade, torna-se prejudicial, “roubando” momentos de brincadeira, socialização e aprendizagem. “A infância necessita ser vivida e respeitada como tal. É muito importante entender sua importância em todos os sentidos: manutenção da inocência, promoção das brincadeiras (principalmente com os coleguinhas), alimentação saudável e acesso à educação moral e formal, uma vez que estamos falando de um ser em desenvolvimento que absorve todos os estímulos”.

Para ela, as experiências vividas nessa época vão influenciar significativamente, de maneira benéfica ou destrutiva, o “produto final”. “De 0 a 3 anos de idade, temos 80% da circuitaria cerebral estabelecida. No final do 6° ano, temos aproximadamente 95% já determinados. Isso corrobora a relevância de assegurar todos os direitos e promover o suporte necessário nas primeiras etapas da vida. Crianças criadas em um ambiente nocivo, com pouco estímulo, falta de cuidado e carinho, tendem a se tornar adolescentes vulneráveis e adultos inseguros, agressivos, insensíveis, inflexíveis, com baixa tolerância a frustração, dentre outros problemas comportamentais. Já as que são estimuladas e crescem em um local que supre suas necessidades físicas, sociais e afetivas, geralmente crescem com boa autoestima, dotadas de mais recursos internos e mais ferramentas para lidar com as adversidades da vida de forma saudável e produtiva”. Nesse contexto, o brincar, de verdade, é extremamente importante, já que é por meio desse ato que o pequeno vai desenvolver uma série de competências, como resolução de conflitos, tomada de decisões, superação de limites, respeito às diferenças e regras, tolerância, formação de vínculos, criatividade e cooperação. Isso sem contar o desenvolvimento motor, a linguagem e o raciocínio.

Para curtir (com) as crianças

Criança tem que ser criança | Click GuarulhosA infância não é mágica apenas para os pequenos, devendo ser aproveitada também pelos pais, que podem brincar, estar junto e acompanhar de perto cada descoberta, cada aventura de sua prole. “Nessa fase, é possível introjetar o máximo de valores, limites e experiências possíveis, com o objetivo de auxiliar no processo de formação do caráter. Também não podemos ignorar que se trata de uma etapa única e que passa muito rápido, ficando depois uma saudosa lembrança”, afirma a neuropsicóloga. De acordo com ela, apesar das rotinas apertadas dessa nova era, é possível arranjar tempo para os filhos e fazer com que esse período seja proveitoso. “O importante é a qualidade dessas horas e a conexão, pois de nada adianta estar presente fisicamente, mas não estar interagindo de verdade”. Dentre as pequenas atitudes que, no futuro, podem representar recordações permeadas de carinho, ela cita ler um livro para a criança, fazer um piquenique na hora do almoço, ligar de surpresa só para dizer um “oi” no meio da tarde, perguntar como foi o dia dela na escola, brincar, contar uma história antes de dormir e optar por programas infantis no final de semana.

Fabricando a brincadeira

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Designer, cenógrafa, ilustradora e mãe, Estéfi Machado, começou a envolver seu filho Teo, 9, em sua rotina, oferecendo a ele a possibilidade de se relacionar com os materiais que ela já usava em casa, como tecidos, papéis, botões e tintas. Logo, ela viu na internet e, mais recentemente, na literatura, com “O Livro da Estéfi”, lançado pela Companhia das Letrinhas, a possibilidade de dividir o que eles criavam. “Quem trabalha em casa sabe a falta que faz uma conversa com adultos. O blog foi o canal que encontrei para compartilhar esses momentos e acabou virando minha vitrine profissional. O uso de materiais recicláveis aconteceu sem querer e, hoje, é nossa grande bandeira: olhar para as coisas à nossa volta com um segundo olhar, enxergar beleza em algo que seria descartado. […] Fazer a própria brincadeira faz com que o pequeno passe por um processo de transformação, tenha ideias, encontre soluções e, de quebra, criamos um vínculo inestimável nessa troca”.

Criança tem que ser criança | Click GuarulhosAo lado de seu rebento e das afilhadas Petra, Elena e Anita, todas com 5 anos, ela cria de brinquedos a objetos, passando por itens de decoração para festas, com temas muito originais. “Criança tem que ser criança mesmo, não um ensaio para a próxima fase da vida, como muitas vezes acontece. Tem que brincar, descobrir, fantasiar e criar. […]. Até concordo que uma peça reciclada tenha uma vida mais curta: o próprio material, mais frágil, às vezes determina isso. Mas quem tem filho sabe que, muitas vezes, algo industrializado e caro acaba sendo usado duas ou três vezes e fica encostado da mesma forma. Pra mim, o ganho disso não é no quanto dura e sim no que foi transformado no processo. Isso já vale tudo. Aqui em casa, Teo brinca bastante e, muitas vezes, transforma mais ainda, dando seu toque pessoal; outras, um amiguinho ou prima vem brincar junto e leva o brinquedo pra casa; assim, criamos um ciclo saudável de diversão”, enumera.

Bom mesmo é brincar

Criança tem que ser criança | Click GuarulhosEm um tempo em que as brincadeiras em grupo e os exercícios físicos perdem, literalmente, espaço para games, tablets e televisão, a Mauricio de Sousa Produções (MSP), responsável por uma das marcas mais adoradas por crianças e adultos, a Turma da Mônica, traz uma grande novidade: o projeto Movimento Brincadeira. “Nossa turminha ainda brinca muito de amarelinha, bolinha de gude, corda e outras tantas atividades que fizeram parte da infância de muita gente e que hoje fazem falta no desenvolvimento das nossas crianças. Queremos ajudar as famílias a incentivar os pequenos a redescobrir essas brincadeiras, sempre alinhando tudo com educação, cultura e, claro, muito divertimento”, diz Mônica Sousa, diretora-executiva e inspiração para a personagem homônima.
O pontapé inicial foi dado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu no final de agosto, com um estande cheio de atividades, e segue com outras ações, como o site, que já conta com um minimanual de brincadeiras e vai ganhar mais conteúdo; uma linha exclusiva de brinquedos e acessórios da Tok&Stok, com balanço, andador, sapato equilibrista, acerte ao alvo e jogo de tacos, e, em breve, novos produtos, ações digitais, editoriais e livros.

Espaço para a imaginação

Criança tem que ser criança | Click GuarulhosEm uma viagem de carro, a jornalista Mariana Piza presenciou o poder da música na infância, ao ver a filha de sua amiga passar de incomodada e brava de estar ali parada a feliz e calma, com apenas o play em um CD de música infantil. Ali, ela começou a pensar em uma rádio só para crianças, o que seria concretizado apenas 9 anos depois. “Conversei com Patricia Palumbo e ela disse que achava muito legal a ideia, mas que seria muito difícil alguma rádio topar uma programação infantil. No final do ano passado, ao nos reencontrarmos, soube que ela estava abrindo uma web rádio, a Rádio Vozes, e fui convidada para realizar meu projeto”. Com o apoio dos parceiros Nina Blauth, responsável pela abertura e vinhetas, Valentina Fraiz, ilustradora da personagem, e Artefactos Bascos, que fez a arte do logo, a jornalista comanda, semanalmente, o Maritaca (site | Facebook). A cada programa, que vai ao ar aos sábados, às 9h, com reprise no mesmo horário aos domingos, um assunto é apresentado para as crianças, por meio de histórias narradas por um contador convidado e, a partir daí, surgem as músicas, brincadeiras e livros que serão abordados; isso sem contar um colaborador especial: o Matias, 5, filho de Mariana.
“Vi uma matéria falando que uma criança brasileira passa em média de quatro a seis horas por dia na frente de um dispositivo eletrônico. Fiquei chocada! Imagina quanta energia fica contida? Depois, falam que a nova geração está hiperativa, com problema de foco e daí dão remédio para acalmar. Ah, gente… o adulto deve se responsabilizar pelo que oferece ao filho”. Apesar de ser on-line, ela defende que o Maritaca é diferente, pois proporciona a escuta. “A ideia básica é dar elementos para a imaginação. O rádio é um instrumento incrível para despertar a criatividade, porque ele não dá a imagem pronta: o ouvinte deve criar o que escuta e isso não é igual a ficar em um eletrônico, sendo hiperestimulado, sem se relacionar com o mundo. […] Tenho o retorno de alguns pais que contam que as crianças param tudo que estão fazendo para ouvir e terminam o programa dançando”, finaliza, contente.