Aldeia Indígena Filhos Desta Terra busca auto-sustentação

 

A variedade étnica, apesar dos desafios da convivência, é a aposta dos moradores da *Aldeia Indígena Filhos Desta Terra para obter sucesso num projeto corrente de auto-sustentação. “O plano pro ano que vem é trazer mais turismo para cá”, diz Awa Kuaray Wera, de nome civil Gilberto Silva dos Santos, indígena de 47 anos, da etnia Tupi, que vive há quase dezoito em Guarulhos, mas é originário da Aldeia Bananal, em Peruíbe. A ideia é abrir a comunidade para o exterior, atrair visitantes não-indígenas, desmistificar a cultura e, principalmente, gerar renda própria.

“A gente não tem recurso aqui dentro”, complementa Antonio Carlos, que faz parte da etnia Kaimbé. Ele explica que muitos dos indígenas têm de sair da aldeia e manter empregos formais a fim de sustentarem suas famílias. A conquista de autonomia depende do aumento das vendas de artesanato nos eventos abertos para o público geral, e da liberdade de plantar e colher o próprio alimento.

Antonio Carlos, que pertence à etnia Kaimbé – Foto de Beatriz Gomes

Contudo, observa o indígena, pelo fato de o espaço ser de proteção ambiental, a intervenção no terreno torna-se mais burocrática. Além disso, a qualidade do solo também não é das melhores — a área costumava abrigar um local de reciclagem de material de construção da Proguaru (Progresso e Desenvolvimento de Guarulhos S/A).

Logo quando se mudaram, algumas indígenas relataram encontrar cacos de vidro em uma área do solo. “Era impossível dançar o toré com o vidro ali”, afirma uma delas. Além disso, a vida animal escassa leva ao desejo — e à necessidade — de criar um sistema de represamento de água, viabilizando a criação de peixes.

O projeto de auto-sustentação também alcança outras frentes. Melhorar a infraestrutura da aldeia, tornando as trilhas mais seguras e os caminhos mais intuitivos é uma delas. Antonio prevê que, completada a obra da oca, será possível receber não só festas e reuniões, mas também excursões de escolas.

Quebra de estereótipos

“Adentrando a aldeia, muitos preconceitos de crianças e jovens sobre a figura do índio podem ser quebrados”, considera Awa, que é educador indígena e conta histórias em escolas, universidades e parques.

Awa Kuaray Wera, de nome civil Gilberto Silva dos Santos, indígena de 47 anos, da etnia Tupi, vive há quase dezoito anos em Guarulhos, mas é originário da Aldeia Bananal, em Peruíbe – Foto de Beatriz Gomes

Em uma dessas ocasiões, na saída da escola, depois de ter tirado os trajes e adornos tipicamente indígenas, ouviu de algumas crianças que ele não era um “índio de verdade”. “Quer dizer então que índio não pode usar calça jeans ou ter celular?”, questiona. “Tem que falar do índio de hoje, da diversidade cultural indígena. Muita gente acha que pra ser índio tem que ser baixinho, de olho puxado, cabelo lisinho. E não é isso”, afirma.

Silvia Kaimbé, esposa de Antonio, também trabalha palestrando em escolas e universidades e ressalta a importância da formação do corpo pedagógico nas temáticas étnico-raciais. “A gente sempre fala ‘olha, vocês que vão estar dando aulas no futuro, então vamos abrir a mente, porque as nossas crianças precisam desse apoio de vocês'”, conta.

Criança indígena da aldeia e filha de Silvia e Antonio, Maria Antonela começou a frequentar uma escola infantil da rede pública municipal aos três anos de idade. Por ser muito agitada, conta a mãe, os professores, à época, chamaram Silvia para assinar uma ocorrência.

A ela, perguntaram se a agitação de Antonela era resultado de sua participação em rituais indígenas. Silvia lembra do episódio como um dos mais “preconceituosos” que já vivenciou.”Eu disse: ‘Minha filha é livre, desculpa aí se vocês não estão preparados para lidar com uma criança que passa a maior parte do tempo ao ar livre'”, conta, em tom de indignação. Depois da ocorrência, a família decidiu retirar a criança da escola.

Mas a preocupação da indígena continua. Em 2020, a filha já terá atingido a idade mínima obrigatória para ingressar na escola e terá de voltar à instituição, que é a mais próxima da aldeia.

*Reportagem especial dos alunos do 7° semestre do curso de Jornalismo da ECA/USP: Beatriz Gomes, Camila Mazzotto, Giovanna Jarandilha, Jonas Santana, Larissa Vitória e Matheus Oliveira – Edição: Alexandre de Paulo, editor de Conteúdo do Portal Click Guarulhos