Castelo Hanssen: quem vira histórias, vira cosmos

 

Homenagem do escritor José Alaercio Zamuner a Castelo Hanssen

Porque o universo é a maior história que contamos e ouvimos: é sempre uma crônica cheia de estórias da carochinha, de Deuses, santos, filósofos; dos Aedos, dos poetas. Por fim, viventes que narram tão profundamente até o ponto de virarem sagrados.

Há muito que observo uma fileira desses poetas que de tanto contarem histórias se transformam em histórias sagradas, se sagradas, em Cosmos. É o caso do amigo e poeta Castelo Hanssen. Como todos os outros poetas, vivia sua vida de poeta contando e cantando histórias, de então, tudo em sua volta virava poesia: pessoas, plantas, rios, bichos; principalmente os cachorros. Uma normalidade tão clara que nem pense que precisava de malabarismo linguístico, efeito surreal, concreto, discreto, psíquicos intimistas, tomista… nada, nada de moderno modernístico, é só vida poesia mesmo. Assim, um cão passava em sua frente; e sempre abanava ao poeta a cauda, ou rabo mesmo, e pedia: conte minha história!… e o cão ganhava vida existente em todas as mentes pensantes. Uma vez um corguinho veio chocho de tudo passando por ele; e pediu: ei, me vira e revira-me em história: luz!… e saiu repente fluindo vida Nilo e Mar, cheio de Reinantes Reis Aqueus, Dinastias Hititas, enormes peixes – Alegria de Deus: “Naquele dia Deus estava alegre.” E ia transformando viva vida em pura poesia. Foi da vez que passou por ele um Doutor, cansado de seu doutorado ser, cruza com o poeta ao sair de um banco e implora: Poeta, poeta, levante minha história de dentro de mim com seus verbos e versos. “Eu só queria um pouco de ternura” De repente, o Doutor sai cantando poesias tão lindas, e em meio aos cantos, levanta voo mágico, leve e solto no ar: Eu sou poesia e vou pr’ “Atrás Daquele Horizonte”!…

Uma outra vez topou violência de um pistoleiro de aluguel. Sem piedade, cruel: me pagam, dou cabo do indicado. Em sua frente, pôs-se pedindo história de sua feroz vida. Me acompanhe em uma encomenda e verá que a história comigo acaba ali, brutal, na dor, no lamento. E foi o poeta; franzino que era!… Vítima com passos cambaleante na frente, o pistoleiro logo atrás, arma em punho, e o poeta por último. Caminhando os três: “É noite, os gatos são pardos”, vítima rogando clemência… No percurso, insiste o poeta e mostra-lhe a noite escura; porém pontilhada de luz: “A noite já foi suave”; “Aquela estrela é minha”, e mais, declama o cheiro do capim alto, o canto das aves noturnas, dos bichos noturnos que ouve; olha o céu estrelado e denso: olhe pro céu!… e vai recitando o todo em volta: esse canto é o da coruja, aquele outro canto é o do gato do mato; e não é pardo… ouça seu miado, ouça, um coaxar!… Cale-se, cale-se, chegamos. Ajoelha, aí. Aciona a arma, vítima ajoelhada e tremendo… E o matador, sem querer, olha pro céu: Luuuzzz!!… Meu Deus, que bruta lua!… O poeta, de onde vem essa lua? E o poeta Castelo declama forte: A lua vem de dentro da gente, observe-a, é a luz da nossa alma mesclada com a lua: ela vai, reforça, revolta e volta. E eu tenho alma? Tem, sua alma está agora olhando pra lua, e a lua olha pra sua alma… De então, aquele mundo universo veio sobre ele, e ele caiu de joelhos, frente à sua vítima… Chorou que chorou e choraram sob a luz do luar…, a lua, na voz insistente do poeta, desce à terra e abraça-se com ele-alma-clara na cor prata enorme… Nem perceberam, mas saíram daquela mata; os três, felizes e soltos no ar, o poeta Castelo quase puro poema: “Aquela estrela é minha/Aquela, pequenina/na esquina do Universo, escondidinha.”

E isso e mais tantas e tantas Letras Vivas vinham em legião aos pés do poeta. E mais ainda, todos querendo ser poemas tão bons: dos bem sonoros, contados, rimados, dos bem… cabeludos.

Outro dia, ao perceber que seu corpo alquebrado atrapalhava sua poesia, quis virar eterno som poema. Foi o que fez. Pediu despedida. Então, vieram todos, família, discípulos saudar, cantantes, sua transmutação sublimada. Deitou-se em uma cama, todos à sua volta. Dias iam e vinham, as vozes todas no ar: chilreios, miados, uivos, quatis, jaguatiricas, periquitos… vem um rio chuando suas águas em lágrimas, homens, mulheres, dóceis, violentos, virulentos, famintos, pedintes, glutões, doutores, deputados, senadores… Todos transformados em poemas transitando existências ali: vida, vidas melodias, cada uma que lhe cabe de direito: Isso, recite aquele poema do César, Fátima; Guilhermina, recite forte seus versos; e aquele poema do Tempo, Rogério, como é? O Curupira, conte uma do saci, aí, e aquela do roceiro que foi às estrelas. O Bem-te-vi, cante o que viu! Eia, Osvaldo, quero-quero ouvir a Fofoca no Portão. Ei, Alba, dance a dança do ventre pra nós! Carleto, Ibrahim, Isabel… venham, poemas, vozes e cantos Imerso no Verso!!!… Um cão: um cão sarnento sentou-se ao lado do poeta e recitou, recitou em uivo-uivo-uivos agradecimento ao universo… à Lua: Clarão! Clarão!…

– Cadê o corpo do POETA, povo?? Olharam em volta, anestesiados.

Aquele Era uma vez matador voltou olhos pro céu e disse:

– A lua, a lua… veio buscar o POETA, está subindo com ele, deixou balão flutuante de poemas, meus POETAS CASTELO HANSSEN. Olhe, que bela iluminação!!!…:

“Quando você quiser, venha comigo.

Eu tenho tantas coisas para mostrar,

As paisagens que eu vejo eu não sei ver sozinho,

Os versos que versejo eu preciso mostrar,

Os planos que eu traço eu não sei se consigo.”


Todas as aspas trazem versos do

Poeta Aristides Castelo Hanssen,

que faleceu nesse março, 2020.


José Alaércio Zamuner