Faleceu Lourdes Rabello, nome de rua em Vila Galvão

 

Guarulhos perdeu, na quarta-feira, 23/12, uma de suas poucas nativas que denominava uma rua da cidade estando ainda viva: Lourdes Rabello, bisneta do capitão Rabello, primeiro prefeito de Guarulhos. Ela tinha 87 anos e faleceu, no Hospital Geral de Guarulhos, vítima da covid-19.

Em 2017, a jornalista e escritora Karla Maria, que é casada com o também jornalista Felipe Rabello Gonçalves, da mesma família de Lourdes, escreveu uma reportagem, relatando quem era a personagem e as circunstâncias em que seu nome foi dado a uma via da cidade, na chamada Vila Milton, onde estão várias ruas, travessas da avenida Dr. Timóteo Penteado, com sobrenome Rabello, região de Vila Galvão.

Autorizados pela autora, reproduzimos o texto daquela reportagem. Na foto em destaque, está a homenageada, no dia do casamento de Karla e Felipe.


Dona Lourdes Rabello é uma das poucas cidadãs guarulhenses ainda vivas que é homenageada com uma placa de rua com seu nome. Ela tem 84 anos e mora no bairro Torres Tibagi. Já a placa, uma outra senhora com seus mais de 40 anos, está localizada na Vila Milton, quase na divisa com o bairro do Jaçanã, em São Paulo.

Levantamento feito no Sistema Legislativo da Prefeitura de Guarulhos revelou que a rua que leva o nome de nossa entrevistada foi pavimentada por meio do Decreto 3.060, de 20 de dezembro de 1971, assinado pelo interventor (representante do governo federal) Jean-Pierre Herman de Moraes Barros, que exercia as funções de prefeito.

O decreto determinava a pavimentação da Rua Lourdes Rabello e a de outros familiares, como Capitão Rabello (bisavô), Lalau Rabello (primo), Jesuíno Rabello (avô), Lucinda Rabello (avó). “Na década de 1970 a cidade passou por um período de reurbanização bastante intenso”, explica o historiador Maurício Pinheiro.

Eram tempos de ditadura e o Brasil e seus municípios eram comandados por interventores, por isso a presença de Barros à frente do poder Executivo de Guarulhos. O Congresso Nacional acabara de ser fechado (1968), o Ato Institucional nº 5 implementado e a censura era imposta. Mas Lourdes não se recorda muito disso, sua memória parece seletiva, assim como seus pensamentos que divagam entre um tema e outro.

Aos 84 anos de idade ela guarda lembranças do tempo em que o pai fiscalizava seus namoros. E eram muitos, confidencia. “Mas nunca era oficializado, meu pai ficava em cima e meu irmão chegou a terminar um deles”, disse, referindo-se a Sérgio Canto Rabello, falecido em fevereiro deste ano (2017). Seu nome também figura em uma das placas que nomeiam logradouros da cidade.

Lourdes não se casou e às vezes pensa como poderia ter sido ter um companheiro. Também não teve filhos, mas não sente falta. “Não me casei e está tudo bem, aqui recebo bastante visita, conversamos o tempo todo. Estou me recuperando do tombo que tive, não tenho força nas pernas”.

Em janeiro de 2017 dona Lourdes caiu e quebrou o fêmur. Passou por cirurgias e ficou internada por dois meses. Ainda assim é uma mulher bem-humorada, refinada e culta, embora não tenha estudado mais do que o primário. E disso se arrepende.

“Minha letra é muito feia, queria ter estudado, mas só fiz até o primário. As mulheres não estudavam muito naquele tempo”, desabafa. Na manhã em que conversamos, estava com um corte de cabelo novo e as unhas pintadas em tom nude. A vaidade e o uísque sempre foram presentes em seu dia a dia.

Trabalhou muitos anos na antiga loja do Mappin, no centro de São Paulo. Não se lembra quantos. “Aquele tempo era bom, as pessoas eram elegantes. Me lembro quando fomos visitar o Theatro Municipal, mas que maravilha. Foi lindo”, contou admirando a velhinha do lado, que era carregada pelo neto para ao banho de sol.

Para chegar até o centro de São Paulo, dona Lourdes e todos os guarulhenses contavam à época com o trem que saía da estação Vila Galvão e descia no centro de São Paulo. De lá pegava o bonde até a loja, em frente ao teatro arquitetado por Ramos de Azevedo. A linha do Tramway Cantareira, que ligava Guarulhos à capital paulista, foi encerrada em maio de 1965.

“Hoje não tem mais bonde. É coisa do passado, mas é bom e importante falar do passado e dessa minha placa. Valoriza a história da minha família, que iniciou muitas coisas na cidade”, disse.

Os Rabello

Lourdes é bisneta do Capitão Joaquim Francisco de Paula Rabello, o primeiro prefeito de Guarulhos, cargo à época chamado de intendente, que iniciou seu mandato em 1881. Combatente na Guerra no Paraguai e dono de muitas terras, o capitão doou diversas delas para a Prefeitura, e estas eram nomeadas por seus herdeiros, originando as ruas e seus respectivos bairros.

Filha de Brás Odorico Rabello e Iracema Canto Rabello, ela falou da família. “O Sérgio morreu recentemente, não tinha nada, nenhum problema de saúde, e foi de repente. Ele tinha muitos amigos, era um homem correto”, completou. Dona Lourdes tem uma família pequena, distribuída em sorrisos, memórias e placas pela cidade de Guarulhos.