sábado, 28 maio 2022
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Jornalista que atuou em Guarulhos vive na rua em São Paulo

 

Conheci Alek Honse quando ele trabalhava como jornalista no Sindicato dos Vigilantes de Guarulhos, elaborava boletins internos e jornais de informações à categoria.

Eu vinha recebendo mensagens dele no WhatsApp com links para postagem que faz diariamente no Facebook e os temas atuais têm sido referentes a pessoas que vivem em situação de rua, às quais ele chama de “invisíveis”. Fiquei em dúvida se ele estava se fixando em um tema, criado um personagem ou se ele mesmo estaria vivendo nessa situação. Preferi não crer na segunda hipótese, por se tratar de um rapaz muito culto, que escreve muito bem.

Mas, para entender melhor o que está acontecendo, entrei em contato com ele, que confirmou estar vivendo nas ruas do Centro de São Paulo, há mais de dois anos. Ficou desempregado em novembro de 2019 e desde abril de 2020 perambula entre as praças da Sé e da República.

De comum acordo, combinamos de publicar esta matéria, visando auxiliá-lo a sair dessa situação. Entendo que não é muito o que ele precisa e, com sua capacidade e disposição para mudar, creio que conseguirá. Ele desenvolve, inclusive, um projeto social, visando poder vir a ajudar outros “Invisíveis”, o que mostra seu altruísmo e espírito cívico.

Para que seu relato seja publicado com a maior fidelidade possível, farei em forma de perguntas e respostas, com as próprias palavras de Alek. Ao final, farei um comentário.

Alek Honse nasceu na Turkia, em 1968. Tem, portanto, 53 anos de idade. Filho de pais falecidos quando ainda bem jovem, define sua profissão como jornalista. É bacharel em Comunicação Social e em Filosofia. Tem mestrado e doutorado em Filosofia. Autor de 26 livros, foi também empresário.

Como você chegou a situação de rua?

No final de 2019, um relacionamento de 5 anos chegou ao fim. Tudo que eu tinha – casa, carro e moto – estava no nome dela, por conta de dívidas com a Receita Federal quando da quebra de minha empresa anos antes. Aluguei uma kitnet no Centro e comecei a reconstruir minha vida. Pouco depois veio a pandemia. Perdi o emprego que eu tinha em um jornal de classe e não tive mais dinheiro para as contas. Por isso, vim para o País dos Invisíveis.

Qual sua experiência profissional?

Jornalista, já trabalhei para sindicatos de classe, campanhas políticas, escrevi para jornais impressos. Fui produtor cultural. Trabalhei com a produção de shows e eventos de bandas de rock dos anos 1980. Fiz palestras sobre meus livros. Minha vida nas ruas também é uma experiência profissional.

A vida na invisibilidade lhe dá que sensação?

Estar vivendo entre os invisíveis me propiciou ver o que há de melhor e de pior na raça humana. Muita vez, pareço uma vitrine: as pessoas passam e olham através de mim, não me notam; outras desviam o olhar, há os que mudam de calçada, desprezo e até ódio são me destinados, como se eu não devesse estar aqui sujando com minha presença a paisagem urbana. De outro lado, porém, conheci um lado bom, humano, altruísta e solidário de alguns que denotam seu tempo para socorrer a população em situação de rua. Pessoas que deixam suas casas, famílias, abrem mão de passeios e festas, se arriscam mesmo nessa situação pandêmica, para amenizar a dor do outro. E também a cumplicidade que há entre os invisíveis que dividem o pouco que têm com aqueles que têm ainda menos. Aqui há um lema: todos cuidam de todos.

Como são seus dias na rua?

Viver nas ruas é estar em uma montanha russa emocional. Há dias tranquilos e outros péssimos. Quando vim para cá, tracei uma linha que não poderia ultrapassar: a linha da dignidade. Então, não me permito pedir qualquer coisa – dinheiro, comida, roupas – tudo que consigo deve vir do fruto do meu trabalho, no caso, meus livros. Se os vendo, eu compro comida, alugo um quarto em um hostel para passar a noite. Se não consigo, fico sem o que é o básico. A única coisa que não deixo de fazer é tomar banho em uma tenda armada pela prefeitura, mas isso não tem custo. Há os dias em que a depressão é mais forte, dá vontade de desistir de tudo, mas pelo menos para mim isso ainda é efêmero; então me concentro em encontrar saídas, ando mais, corro atrás de vendas e consigo me equilibrar emocionalmente. Não sou vítima de nada, sou o fruto de minhas escolhas e sei que isso aqui é transitório. Um dia encontro a porta de saída. Muitos dos que vivem aqui procuram diuturnamente essa porta. Vamos conseguir. Precisamos de uma oportunidade.

E as demais pessoas, quando veem que você teve uma formação mais qualificada, como o tratam?

Os Invisíveis me tratam bem, me dão força, dizem que por ser “estudado” logo sairei daqui. Contam histórias de outras pessoas: engenheiros, advogados, administradores e até médicos que caíram e conseguiram se levantar. Isso é motivacional pra mim. Já os passantes, muitas vezes olham com espanto, e fazem julgamentos. Insistem em perguntar se não foram as drogas ou o álcool que me jogaram aqui. Há um viés de preconceito nisso. Pensam que todos os que aqui estão são viciados. Isso é um erro. Não são. Eu nunca usei drogas e álcool sempre foi como a maioria da população, de forma recreativa.

Quais são seus planos e o que você precisa para realizá-los?

Meu desejo é sair daqui, alugar uma kitnet, viver com o mínimo necessário: teto, banho, comida. Um emprego na minha área de comunicação, ter dinheiro para imprimir meus livros em uma quantidade maior e baratear o custo para o leitor. O que preciso é ter uma oportunidade ou um mecenas. Toco também o Projeto Invisíveis, que visa arrecadar dinheiro para tirar pessoas das ruas. Tem uma campanha, uma vaquinha virtual para esse fim.

Você já procurou ajuda de amigos, parentes ou pessoas que o conhecem do passado?

Não tenho família; como disse, sou filho único e meus pais também eram. Não tenho tios ou primos. Meus avós maternos morreram antes de eu nascer; os paternos, quando eu ainda era criança. Quanto aos amigos, se foram quando meu dinheiro acabou. Em verdade, penso que nunca tive amigos de verdade, eram mais relações profissionais. E com o passar do tempo, após o choque inicial, os poucos que sobraram se afastaram. Eu também não fico insistindo, porque, afinal, o único responsável por esta situação sou eu. E, infelizmente, as pessoas acabam por não entender que quando desabafamos, queremos apenas ser ouvidos, não precisamos de julgamentos. Nosso fardo já é por demais pesado para acrescentar ainda o peso de culpas ou remorsos.

O que os que leem esta reportagem podem fazer para ajudá-lo?

Podem entrar em contato comigo, adquirir algum dos meus trabalhos. São 26 livros já publicados desde poesia, passando por psicologia infantil e sobre violência contra a mulher até no retrato da vida nas ruas e romances autobiográficos, entre outros. Tem livros para todos os gostos. Também poderiam me oferecer um trabalho que me permita sair das ruas. Ou colaborar com o Projeto Invisíveis. Por fim, um sonho: alguém que patrocine a tiragem do meu terceiro romance, ainda inédito, que fecha a trilogia.

Agora que a pandemia parece estar dando uma trégua ou, quem sabe, acabando, o que você desejaria que acontecesse na sua vida?

Uma oportunidade de trabalho. Seja aqui em São Paulo onde vivo ou em qualquer lugar do Brasil, onde eu possa ter uma casa, comida e dias mais tranquilos. É o mesmo que eu desejo a todos os Invisíveis. Uma oportunidade de mostrarmos que somos capazes, que ainda temos muito com que contribuir para um mundo mais humano, mais justo, onde todos possam ter o mínimo para viver.

Como os nossos leitores podem entrar em contato com você?

Para conhecer meu trabalho como escritor e adquirir meus livros podem acessar os links abaixo:

Facebook: https://www.facebook.com/alekhonseescritor/

Alek, quando vivia em melhores condições

Ou na Amazon: https://agbook.com.br/authors/523098

Para colaborar com o Projeto Invisíveis https://apoia.se/projetoinvisiveis

Para pix, oferta de trabalho ou entrar em contato: Meu WhatsApp  11 98151-8718.

Meu comentário

Alek me contou que tem uma amiga que lhe permitirá morar em um apartamento que está vago, pagando apenas a taxa do condomínio, na região central de S.Paulo. É uma oportunidade rara e, por isso, talvez o melhor seja obter um trabalho em São Paulo. Ainda que ele não obtenha um emprego, que está realmente escasso na área da Comunicação, pode reerguer-se se puder vender mais livros e ter onde morar. Quando tem exemplares, ele consegue vendê-los, abordando pessoas na rua. Porém, para produzi-los em pequena escala, o preço individual aumenta. E, morando nas ruas, não reúne condições nem para guardar um volume maior de exemplares. A urgência, portanto, é viabilizar um lugar para morar e reunir algum dinheiro para fazer uma tiragem maior dos livros já editados. E, como ele disse, talvez obter recursos para produzir seu terceiro romance. Torço para que esta postagem resulte em doações para ele, venda de livros dele pela Amazon e, tomara, que surja quem possa patrocinar a impressão do novo livro. Afinal, como ele disse, ele precisa de ajuda e não de julgamentos.

Valdir Carleto

Uma amostra dos textos literários de Alek Honse

Acessando o Facebook https://www.facebook.com/alekhonseescritor/ dá para conhecer o que ele tem postado diariamente. Segue aqui um de seus textos:

Construção

Ninguém acorda um belo dia em sua cama confortável e, do nada, pensa que casa, família, esposa, filhos, emprego, amigos de nada lhe servem e decide ir morar no País dos Invisíveis.
Não é a assim que a coisa funciona.
O processo que nos trouxe até aqui é muito peculiar de cada um, mas em todos os casos tem os mesmos elementos: desemprego, crise financeira, relacionamentos desfeitos e vícios.
Combine dois desses itens por tempo longo e terás um fortíssimo candidato a migrar para as ruas.
E é justamente esse longo infortúnio gestado ainda em uma vida dita normal paulatinamente que nos abrirá as portas de entrada para as ruas.
O processo para que encontremos a porta de saída é também longo e, em muitos casos, infrutífero.
Somente com muita fé, apoio e oportunidades será possível encontrá-la.
Ninguém que está aqui gosta de estar vivendo como está.
Todos querem uma nova chance, mas quanto mais o tempo passa, a esperança que a gente carrega é como um sorvete em pleno Sol: vai derretendo a cada dia. Há muitos aqui que já desistiram, aceitaram sua condição. Não falo da resignação necessária que apura o espírito, mas dá aceitação determinista, aquela que corrói a alma e a deixa latente, incapacita o Ser de buscar a melhora.
Mas, no fundo, somos muito resilientes. Só precisamos que uma luz se acenda para que encontremos o caminho.

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