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Falta de documentos dificulta acesso à saúde para pessoas em situação de rua

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Um estudo conduzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), identificou que mais de 227 mil pessoas estavam vivendo em situação de rua nas cidades brasileiras em 2023. Entre os principais obstáculos enfrentados por essa população para acessar os serviços de saúde estão a falta de documentação, preconceito e distanciamento geográfico.

Como resposta a esse cenário desafiador, o Consultório na Rua, iniciativa implementada pelo Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (CEJAM), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, atua na região do Capão Redondo, zona sul da cidade, com o propósito de facilitar o acesso aos cuidados de saúde para pessoas em vulnerabilidade social. O projeto busca promover a integração com serviços sociais e oferecer assistência multiprofissional, aproximando os serviços de saúde dessa parcela da população.

A equipe multiprofissional do Consultório na Rua é composta por um médico, duas enfermeiras, um assistente social, uma psicóloga, quatro auxiliares de enfermagem, quatro agentes sociais e seis Agentes Comunitários de Saúde, além do suporte de um gerente. Desde sua inauguração em dezembro de 2023, o programa já realizou mais de 255 atendimentos, abordando desde consultas médicas até encaminhamentos para tratamentos especializados e orientações sobre prevenção de doenças.

Pessoas em situação de rua dormem sob o elevado João Goulart (Minhocão), em São Paulo: Foto: Jorge Araújo/Fotos Públicas

O Consultório na Rua também adota uma abordagem focada na humanização, realizando busca ativa por parte da equipe e contando com o apoio e indicações da comunidade e instituições sociais para alcançar aqueles que mais necessitam dos serviços oferecidos. A iniciativa não se limita apenas ao atendimento médico, mas também busca estabelecer vínculos de confiança, promovendo inclusão social e auxiliando em questões mais abrangentes, como acesso à alimentação, moradia e serviços sociais.

Pessoas em situação de rua junto às suas “casas” (barracas) e cachorros no Centro de São Paulo – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em uma próxima etapa, o programa será expandido para os distritos de Campo Limpo e Vila Andrade, abrangendo toda a Supervisão de Campo Limpo, onde reside uma população estimada em mais de 700 mil habitantes, com mais de 325 mil em situação de rua.

Ênfase na Saúde Mental

Um dos diferenciais da estratégia do Consultório na Rua é o atendimento psicológico, considerando o perfil específico desse público. Segundo levantamento do Ipea, problemas de saúde, especialmente relacionados ao bem-estar mental, foram apontados por 32,5% dos cadastrados como principal motivo para viverem nas ruas.

Raquel Paula de Oliveira, gerente técnica regional de saúde mental do CEJAM, destaca que a população em situação de rua enfrenta um alto risco de desenvolvimento de transtornos mentais, abuso de álcool e uso de substâncias psicoativas. Nesse contexto, a escuta qualificada e a empatia são fundamentais para uma abordagem eficaz e acolhedora, visando fortalecer vínculos e promover a reinserção desses indivíduos em suas redes sociais e familiares.

Entender o contexto que levou cada pessoa a estar em situação de rua, seu ambiente de vida e suas relações com o entorno é crucial para direcionar o cuidado de forma centrada na pessoa, família e comunidade, colaborando para uma adesão mais efetiva aos tratamentos e estimulando o autocuidado e a autonomia.

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