Por Val Oliveira e Elmi Omar

Fontes: Livros Guarulhos tem História e Guarulhos 1980
Reprodução de fotos: Guarulhos tem História e Arquivo Histórico Municipal

A história de um povo não é estática e muda conforme os historiadores vão descobrindo novas fontes e documentos históricos. Um bom exemplo dessa afirmação é a “biografia” de Guarulhos.

A data de fundação da cidade, 8 de dezembro, foi motivo de “discussão”. Gasparino José Romão e Adolfo de Vasconcelos Noronha, autores do livro Guarulhos 1980 – Edição comemorativa do I Centenário de Emancipação Política de Guarulhos (1880 – 1980), baseados em dados do historiador João Ranali, dizem que houve uma controvérsia relacionada à comemoração do dia da padroeira Nossa Senhora da Conceição, que mudou de março para dezembro. Por consequência, questionou-se a data de fundação da “Aldeia dos Guarus”.

A dúvida se deu porque no calendário religioso, “muitos dias são dedicados à Mãe de Jesus, invocada através de nomes e figuras diferentes. O dia de Nossa Senhora da Conceição também variou entre os dias 6 a 9 de dezembro”, diz trecho do livro.

De acordo com Elmi Omar, pesquisador, escritor, professor de história e membro da AAPAH – Associação Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico, alguns pesquisadores incluem Guarulhos como uma das primeiras aldeias jesuíticas, outros apenas como uma extensão da aldeia de São Miguel; ainda outros, que a aldeia surgiu apenas 100 anos após a data convencionalmente aceita, 8 de dezembro de 1560.

Os historiadores afirmam que um edital da Câmara de São Paulo, datado de 28 de novembro de 1740, serviu para resolver o “imbróglio” e “cravar” 8 de dezembro como a data oficial. O documento, que fizemos questão de manter conforme grafia da época, convocava “cidadois e republicanos desta cidade e fora della tres legoas para se reunirem na casa da Câmara depois da Senhora Conceição pelas duas oras da tarde. Entenda-se: depois da missa e festa de Nossa Senhora da Conceição que se realizava a 8 de dezembro, pela manhã”.

Fundadores

Não há unanimidade quanto ao nome do fundador ou fundadores da cidade. O professor Elmi explica: “Na letra do hino a Guarulhos, lançado por ocasião do quarto centenário de emancipação do município, em 1960, consta o nome do padre João Álvares. Já na Lei Municipal número 2789 de 1983, a fundação é atribuída ao padre Manoel de Paiva. Para o pesquisador Benedito Prezia, o responsável seria o padre Manuel Viegas. Essas variações de nomes dependem das interpretações dos historiadores e do que cada um definiu como ‘mito fundador’. Seguindo a orientação dos superiores, a igreja e a missão devem ter sido construídas na parte alta da área, entre os anos de 1606 e 1607. A capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, passou a designar o aldeamento. Esta fundação foi o coroamento dos trabalhos do padre Viegas, que morreu em 1608. No ano seguinte, o padre Simão de Vasconcelos, referindo-se às missões dos jesuítas em São Paulo, cita a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, cujo superior era o padre Sebastião Gomes (In: HCJB, v. 6, l. 4, c. 1, p. 501)”, detalha Elmi, reproduzindo texto do livro “Guarulhos tem História”, do qual é um dos autores.

Os primeiro habitantes de Guarulhos

Alguns pesquisadores acreditam que os primeiros habitantes dessas terras foram os índios Guarulhos, outros os Maromomi, e outros dizem ainda que esses dois grupos eram um só. “Eu acredito, baseado em evidências arqueológicas, que também existiam grupos de índios sedentários, principalmente às margens do rio Tietê. Os Maromomi eram caçadores e coletores, ou seja, itinerantes, vivendo do que a terra dava. As tribos sedentárias conseguiam cultivar a terra e permaneciam maior tempo nos locais. Não há documentos, até essa data, que mostre a quantidade de autóctones (nativos) por ocasião da fundação de Guarulhos”, relata o escritor.

Segundo ele, “há evidências do surgimento da cidade em dois pólos coloniais: um em Bonsucesso e outro perto da atual matriz. A procura ao ouro, em terras onde os índios Guarimumis viviam, atual Serra da Cantareira, foi impulsionadora do nascimento da cidade”, relata o professor que segue evidenciando a presença de índios por meio do texto abaixo:
“Partindo da cidade de S. Paulo, na Capitania de S. Vicente, chegamos primeiro à povoação de S. Miguel (distante de S. Paulo cinco ou seis léguas para o nascente), à margem do rio Anhembi, e nesse lugar achamos preparadas as provisões, que os selvagens tinham de carregar nos ombros. Atravessamos, depois, aquele rio e, com uma marcha de quatro ou cinco dias a pé, através de densas matas, seguimos rumo de norte, até um riacho que nasce nos montes Guarimumis, ou Marumimins, onde há minas de ouro. (…)”

A origem do nome Guarulhos

Também há varias versões para a origem do nome da cidade.
Romão e Noronha publicaram que, de acordo com o historiador João Ranali, “Guarulhos é originário de ‘gu-aru-bo’, que significaria ‘trazidos’, isto é, que teriam vindo para cá pelas mãos dos jesuítas. Mas, restaria saber se as dezenas de tribos dos Guarulhos, disseminadas por vasta área do território brasileiro, se todas elas foram ‘trazidas’ de algum lugar. Para Moreira Pinto, Guarulhos era o nome que os portugueses atribuíram aos ‘índios que habitavam todo o território compreendido entre as margens dos rios São João, São Pedro e Macaé.

Para o seminarista J. Norberto, os Guarulhos seriam uma tribo dos guaianases, denominada Goitacaguaçu, que os portugueses passariam a chamar, através dos tempos, de Sacurus, Guarus e Guarulhos.

“Benedito Prezia, baseado nos estudos da Companhia dos Jesuítas, diz que o nome dos índios, por ser de difícil pronunciação, recebeu várias grafias como Maromomi, Maromemim, Maramomi, Jeromomim, Garumimim e Garomemim. No Rio de Janeiro foram conhecidos como Guarulho e Gessaruçu, sendo esses índios do tronco Gê. Ranali e outros pesquisadores atribuem o nome ao peixe barrigudo, abundante no rio Tietê”, complementa Elmi, destacando que tais informações também tem com base os relatos do holandês Wilheim Glimmer, um missionário protestante, que participou de expedição em busca de ouro, na região, em 1601.

O fim dos guarus na região

Os índios eram itinerantes e fugiram quando submetidos ao trabalho escravo, outros morreram devido à falta de imunidade das doenças trazidas pelos europeus. Aqueles que fizeram parceria com os brancos miscigenaram-se e sua cultura foi enfraquecida ou eliminada.

Confira mais sobre essa história, contada pela Revista Guarulhos de dezembro de 2016:

Introdução: Guarulhos: 456 anos de muita história

Detalhes de uma grande história chamada Guarulhos

Antes e depois: as marcas de Guarulhos

Os dados de uma gigante

Livro do Sincomerciários conta um pouco da história de Guarulhos