Por Valdir Carleto
e Amauri Eugênio Jr.

O guarulhense Rodrigo Barros, 33, é comunicador e empreendedor, diretor da Unifox e da HandsOn.TV, site de vídeos sobre empreendedorismo. Fixou residência no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), para entender a dinâmica de startups – empresas jovens e voltadas à inovação.

Revista Guarulhos: A que atribui a característica de multiempreendedor?

Rodrigo Barros: Não foi algo planejei. Comecei a empreender como apresentador de televisão. A única experiência que havia tido antes foi na Barros Imóveis. Quando comecei como apresentador, já era com foco na frase: “Diga-me com quem andas que te direi para onde vai”. Depois criei a revista Segredo do Sucesso, no mesmo nicho. Depois, criei o Fórum Empresarial Regional e continuava no mesmo nicho. A coisa começou a mudar quando entrei na Unifox (antiga Espa). Quando vendi a empresa de eventos, em 2010, associei-me a uma empresa de educação e também comprei uma participação da Rob Mídia. Em 2011, fui para a TV Gazeta. Em 2012, mudei para a Rede TV! e abri outra companhia de vídeo [a Manjar Filmes]. Continuava em comunicação. Em 2013, entendi que a mídia vinha se tornando tecnologia, ou a tecnologia se tornando mídia. Quando percebi essa mudança, fui ao Vale do Silício, pois aquela turma sabia o que estava fazendo e eu quis saber o que estavam fazendo. Quando cheguei, a minha proposta foi estudar, que era um curso de design thinking em Stanford e fazer um documentário sobre o Vale do Silício e o mundo de startups. A coisa começou a mudar para entrar na terceira área, que seria tecnologia, na qual viria a entrar no começo deste ano, quando percebi que eu queria criar uma web TV. Criei e percebi que só a web TV lá não seria o suficiente para o tamanho de mercado que eu queria aproveitar. Foi quando decidi que se tornaria uma empresa de tecnologia – plataforma em vídeo com foco em empreendedorismo, e fazendo a curadoria de conteúdo, diferente do YouTube, que não faz curadoria de conteúdo. Fazemos as duas coisas: a gente tem uma vertical e a curadoria. De lá para cá, eu vinha sendo um conselheiro informal da Salad Creations, que é uma rede de restaurantes fast food na área de alimentação saudável, até que, em fevereiro, fui convidado a me associar a essa companhia e aceitei o convite.

foto-5Que tipo de consultoria fazia para eles?

Era um conselheiro estratégico. O meu foco, de 2013 para cá, foi cada vez mais me especializar em inovação, desenvolvimento e lançamento de produto. O mundo nasce com um produto – manufatura – e o capital começa a existir lá atrás, com o produto. Nos últimos 40 anos, a gente viveu em economia pautada de empresa para empresa. Com a internet, isso começa a mudar e voltar o poder de compra direto para o consumidor. Você tem de identificar qual é a demanda para aquele produto que está construindo e atendê-la. Quando eu percebi essa demanda, eu quis me especializar em produto e inovação. Sabia que isso ia servir para as minhas empresas e as empresas das quais eu já fazia parte e para o meu futuro. A Salad [Creations] aconteceu na minha vida. Fiz um curso no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) em 2013 e me tornei conselheiro profissional. Por meio desse curso, fui para a Salad [Creations], mas de modo informal. Nas reuniões periódicas, meus sócios me chamaram para fazer parte do time. Em junho, eu me associei. A HandsOn.TV nasceu há nove meses e hoje a gente está em 54 países. Nós produzimos os 50 primeiros vídeos enquanto web TV. Hoje passam de 800 vídeos na plataforma, todos de terceiros. Temos vídeos da Austrália, da África, dos EUA, Índia. O que me move é a transformação. Agora em agosto assumi o meu primeiro conselho profissionalmente, que é o da Flexform. É um reconhecimento do que busquei e no que acredito. Hoje, as pequenas empresas terão cada vez mais espaço, pois será especializada em alguma coisa, diferentemente da grande, que ataca alguns problemas. E será melhor do que a grande naquele problema. Essa é a revolução que precisa existir no Brasil. O brasileiro precisa deixar de ser um cara de negócios para ser um cara de produto.

Deixar de ser generalista para ser especialista?

Exatamente. Há duas coisas em que o Brasil precisa acontecer. Uma é a qualificação de gestão. O Brasil é mal organizado e não se qualifica. A outra é a especialização, o foco em produto. Além da questão de generalista para especialista, a ideia é focar no produto, entender a audiência que se quer atender. Essa é a grande mudança. Recebi um vídeo de um amigo do Vale do Silício, no qual ele me chama de “um dos grandes evangelizadores do empreendedorismo”. Fico feliz com o reconhecimento, mas é porque acredito que a cultura empreendedora gera transformação. É isso o que espero nos negócios dos quais faço parte hoje e sou associado.

O futuro do empreendedorismo está nas startups?

O futuro está na inovação e no produto. As características do empreendedor irão mudar e acredito nisso. Na minha história, eu me transformei no empreendedor que sou hoje, mas comecei como empreendedor tradicional, que vai empreender metendo as caras, que toma risco, é chamado de maluco e vai que vai. Comecei a aprender, mas a cultura do empreendedor brasileiro não é por oportunidade, mas por necessidade.

Há estatística de quantas startups não sobrevivem a um ano?

Existe. Essa pergunta me faz trazer reflexão sobre um tema que é uma das “disrupturas” que o Brasil precisa viver. Fracassar, dar errado é importante, significa aprender e experiência. No Vale do Silício, 97% dão errado no primeiro ano. Não é que o cara deu errado: ele aprendeu para fazer o próximo. Existem pessoas de venture capital, de fundos de investimento em startups, que só investem se o fundador da empresa já fracassou. O investidor sabe que, de dez empresas, uma precisa dar certo, duas ou três podem dar um pouco certo e as demais podem dar errado.

foto-10Em que o brasileiro precisa mudar?

O empreendedor precisa ser profundo nas informações do negócio que está criando. E ter a academia por trás das coisas. Quando se vê Steve Jobs largando Stanford e indo empreender na Apple, ou Mark Zuckerberg largando Harvard para empreender no Facebook, a gente se esquece de que eles são dois gênios que mudaram o mundo com suas fórmulas. Porém, além deles existem milhares de caras que também estão mudando o mundo, que estavam em Harvard e Stanford e finalizaram as suas faculdades. O ponto não é se finalizaram ou não, mas Mark Zuckerberg criou o Facebook dentro de Harvard. O Google nasceu em Stanford. O código (algoritmo) estava pronto por Stanford, tanto que Stanford tem participação na empresa, pois deu o algoritmo para os meninos. Lá, as empresas nascem nas academias. Aqui, a ideia é conseguir um bom trabalho. A transformação do empreendedor brasileiro está na universidade e na escola.

Ter sido jogador de futebol ajudou no quesito liderança?

Nunca fui um craque como jogador. Eu tinha um bom passe, batia bem na bola, mas desenvolvi minhas características de liderança jogando futebol. Em boa parte dos times em que joguei, eu era capitão do clube. Não era porque eu era o melhor jogador, mas porque eu era líder dentro de campo, dava carrinho junto com eles.

Como gestão e comunicação estão diretamente ligadas?

Infelizmente, a comunicação dos marqueteiros é a de que não importa se o produto é tudo que é contado, mas se comunica que é porque terá comprador. Isso tem má gestão e planejamento errado. Pode até dar certo, mas se não tiver conteúdo, vão descobrir a verdade. Como o mundo está virando o mundo do consumidor, aí entra a gestão. Não vai mais adiantar só comunicar se não tem um bom produto.

O que faz a HandsOn.TV?

A HandsOn.TV é a principal plataforma de empreendedorismo em vídeo do mundo. Não tem concorrência. Pela HandsOn.TV, apresentarei uma competição de startups chamada LeWeb Startup Tour (leweb.co/startup-tour). Em 6 de setembro estarei em Berlim, 30 de setembro em Estocolmo, em 8 de outubro em Paris, 6 de novembro em Barcelona e em dezembro em Paris para apresentar a final. A competição é na Europa, a sede é em San Francisco e o apresentador é brasileiro. A HandsOn.TV terá dois anos de exclusividade desse conteúdo. Para mim, é um sonho realizado e continuo sabendo que muita gente aqui me acha louco e fico feliz por isso. Onde vejo oportunidades, muita gente acha que é loucura. A diferença é que gosto de desafiar o previsto. Quem muda o mundo são pessoas que acreditam poder mudá-lo.