Querem minha opinião sobre o coronavírus no Brasil?

 

Na condição de diretor responsável pelo portal Click Guarulhos, tenho tido a preocupação de publicar um balanço das notícias sobre o coronavírus em Guarulhos, no estado de São Paulo, no Brasil e no mundo, com o máximo de equilíbrio.

Temos postado posicionamentos dos que defendem uma quarentena mais rígida e também dos que preferem que seja mais branda, com mais estabelecimentos funcionando.

Pessoalmente, estou muito preocupado com o que irá acontecer com a economia, com a avalanche de desemprego que essa parada forçada no comércio irá provocar. Até mesmo em relação aos anunciantes, alguns dos quais já pediram para suspender a veiculação.

Mas, a julgar pela experiência de outros países e pelas opiniões de técnicos da área da Saúde, entendo que não se pode negligenciar quando se trata da possibilidade de salvar vidas.

Recebo mensagens a todo instante, de amigos que defendem as posições do presidente Bolsonaro, em qualquer circunstância. E de outros, que o atacam, sem ver nele absolutamente nada de valor. Quase todas as mensagens que se referem ao governador Dória são de críticas a ele.

Não sou filiado a nenhum partido, não tenho político de estimação. Não gosto de nenhum dos dois. Mas, embora Bolsonaro me pareça ser sincero e Dória não, nesse embate sobre coronavírus, dou razão ao governador.

A própria posição do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demonstra que é preciso o máximo de isolamento possível. Ele tem tido coragem de discordar do presidente e sua equipe seguidamente tem recomendado maior rigor na quarentena.

Sou bastante crítico à gestão do prefeito Guti, mas entendo que nessa questão da pandemia, ele está agindo com a rapidez e dedicação necessárias. O novo secretário da Saúde, José Mário Stranghetti Valente, mostra-se empenhado em obter soluções, sendo claro e transparente nas informações.

O Centro de Combate ao Coronavírus, instalado a toque de caixa no Parque Cecap, está sendo alvo de críticas de gente da Oposição, apontando falhas no funcionamento e acusando Guti de usar esse equipamento como propaganda com fins eleitorais. É fato que o CCC está dando ao prefeito ótimas oportunidades de visibilidade. Mas é evidente que qualquer outro em seu lugar o faria. Acho que importante é que está agindo. Se não fizesse, seria acusado de omissão.

Apenas entendo que poderia ter utilizado a área já coberta da Rodoviária. Ah, mas é uma concessão, tem de respeitar contrato… Nada disso! Decretado estado de calamidade pública, a suspensão temporária se justificaria plenamente. A quase inexistente circulação de ônibus para outras cidades poderia facilmente ser transferida para o terminal urbano que fica ao lado. E o CCC estaria em frente ao Hospital Geral de Guarulhos.

O fato é que o Centro está em funcionamento e ajudará a salvar vidas. Vale esclarecer que, por enquanto, os testes só são feitos em pacientes que estejam com sintomas que indiquem gravidade, porque não há número suficiente de testes para fazer em todos que ali comparecem.

Quanto ao funcionamento do comércio: entendo que alguns ramos de atividade podem vir a ser liberados gradativamente nos próximos dias. Mas com muita cautela, porque com mais locais funcionando, mais passageiros estarão andando de ônibus, maior a chance de contágio. E isso precisa ser evitado.

Os números mostram que as medidas tomadas até aqui, restritivas em Guarulhos e em São Paulo, têm dado bom resultado. O volume de casos suspeitos e confirmados está crescendo, mas não em progressão geométrica. Se não fosse uma quarentena tão rigorosa, os números seriam muito mais assustadores. O número de mortes está aumentando significativamente, o que já era esperado. Muitas outras virão. Mas tudo indica que Guarulhos e o estado de SP estão no caminho certo.

Um amigo questiona que, estatisticamente, o vírus causa menos mortes do que assassinatos. Que então se deveria instituir quarentena contra assassinatos. Pois bem. Contra crimes de morte há leis, punições. E mesmo assim elas continuam ocorrendo. Todos os dias morre gente em acidentes de trânsito. Existem regras de trânsito que são descumpridas e causam mortes. Há punições para os culpados, e mesmo assim, mortes no trânsito continuam. Quem sabe uma pandemia como essa ensine algo aos seres humanos e possamos começar a nos comportar melhor.

Mas, neglicenciar com vidas humanas, permitindo que tudo funcione para salvar a economia, assemelha-se a assassinar pessoas.

O estudo feito pelo Imperial College, de Londres, que publicamos ontem no Click Guarulhos, prevê que, na melhor das hipóteses, o Brasil pode ter 44 mil mortes por coronavírus. Se as regras da quarentena forem afrouxadas, 500 mil. Se liberar tudo, pode passar de 1,1 milhão.

Números exagerados? Alarmantes? Os resultados nos países que neglicenciaram permitindo tudo funcionando são mais alarmantes ainda. Na Itália e na Espanha, países muito menos populosos que o Brasil, têm registrado até mais de 800 mortes em um só dia. Estatisticamente é pouco?

Pergunto a quem acha normal que morram 800 pessoas em um dia: quem da sua família você acha normal que morra de coronavírus daqui a 15 dias?

Ninguém, lógico! Então, só saia de casa quem não tiver como ficar mesmo!

Os estragos na economia serão graves, severos. Minha esperança é que a capacidade do ser humano de se reerguer será mais forte. Que seremos seres mais humanos a partir de agora, mais equilibrados, mais solidários, mais prudentes com a higiene, mais zelosos com as cidades. E que as próprias necessidades de consumo ajudarão o comércio a se fortalecer novamente, os autônomos a conseguir sustento, a economia a se reinventar.

Você pode me acusar de sonhador. Mas, como diria John Lennon, não sou o único.

E, como cantou Taiguara, “que o passado abra os presentes pro futuro, que não dormiu e preparou o amanhecer”.

Valdir Carleto