Dados de Porto Feliz (SP) e Porto Seguro (BA) indicam bons resultados com tratamento precoce

 

A polêmica continua: há uma corrente expressiva de médicos que se recusa a testar medicamentos sem comprovação científica para tratamento da covid-19, como o infectologista Alexandre Naime, de Botucatu (SP), que ajudou a montar um estudo que chama o kit covid de “kit ilusão”. Enquanto isso, outros defendem a aplicação de determinados protocolos, considerando não haver nenhum remédio específico para tratamento da doença decorrente do novo coronavírus.

Circulam muitos vídeos na internet de pessoas pregando que os tais tratamentos precoces estariam obtendo resultados muito expressivos. Um dos municípios mais citados é Chapecó (SC), sobre o qual postamos reportagem no domingo, dia 11/4, demonstrando que a realidade não é tão feliz quanto muitos desejam transparecer.

Em um dos comentários no Facebook, o internauta Jadão Corsine sugeriu que pesquisássemos os números de Sorocaba e Porto Feliz, em São Paulo, e de Porto Seguro, na Bahia.

Fomos verificar e constatamos que em Sorocaba, a proporção entre o número de óbitos perante a população é de 188 mortes a cada 100 mil habitantes, o que é próximo da média da maioria das cidades. Em Porto Feliz, onde a Prefeitura distribuiu doses do medicamento Ivermectina entre a população e foi alardeado que muito pouca gente na cidade havia se infectado, apuramos que a proporção é de 114 óbitos a cada 100 mil habitantes, índice perto da metade do visto na maioria das cidades. Em Porto Seguro, a proporção é ainda mais baixa: 92 mortes a cada 100 mil habitantes.

Procuramos, então, saber que tipo de tratamento a Secretaria de Saúde de Porto Seguro vem aplicando. Encontramos vídeo do programa “SC no Ar”, que reproduzimos abaixo, no qual a secretária, Raíssa Soares, que é médica, afirma que tem adotado cinco medidas básicas, entre as quais ministrando doses quinzenais de ivermectina, doses diárias de zinco e semanais de vitamina D, para prevenir a contaminação de grupos mais vulneráveis, como idosos, pessoas com comorbidades, e profissionais da linha de frente da Saúde, do comércio e dos estabelecimentos de turismo. Segundo ela, com essas medicações, caso a pessoa venha a se contaminar, haveria chance menor de a doença ser muito severa. Quanto aos que estão com sintomas, sua orientação aos médicos é de medicá-los em caso o mais rápido possível, para reduzir a mortalidade. Ela também ressalta treinamento constante das equipes de atendimento, valorizando-as. A quarta arma, afirma, tem sido o acompanhamento dos pacientes após estarem curados.

Raíssa Soares rebate as críticas ao chamado tratamento precoce, afirmando que há estudos protocolados em diversos organismos e publicados em revistas especializadas, relatando bons resultados obtidos. Ele cita diversos medicamentos, entre os quais a hidroxicloroquina, a azitromicina e a nitazoxanida como algumas alternativas de tratamento. Errou, entretanto, ao citar números de Porto Feliz (SP): disse que lá teriam ocorridos apenas dois óbitos por covid em janeiro e fevereiro. Na verdade, foram: 8 mortes por covid em janeiro, 11 em fevereiro, 14 em março e até dia 10, 8 em abril.

A situação em Guarulhos

Guarulhos atingiu nesta segunda-feira 2.979 mortes atribuídas à covid-19, proporção de 213 óbitos a cada 100 mil habitantes. O total de casos confirmados é 56.857, dos quais 52.989 conseguiram recuperar-se. A taxa de ocupação de UTIs está em 94,2% e a de enfermarias em 82,4%. Na Região Metropolitana, a taxa de ocupação de UTIs é de 84,3%.

Entre sexta-feira, dia 9, até esta segunda-feira, foram mais 88 mortes, um número preocupante, pois dá uma média de 29 óbitos por dia.

O médico cardiologista José Mário Stranghetti Clemente, que deixou o cargo de secretário da Saúde na semana passada, é totalmente contra a adoção do chamado tratamento precoce. Defende que sejam adotados procedimentos comprovados cientificamente. “O nome tratamento precoce predisporia a existência de tratamento para a Covid. Não há. O que deve ser feito é acompanhamento e tratamento sintomático aos primeiros sintomas e sinais da Covid. Levado ao pé da letra, tratamento precoce seria vacinação em tempo hábil, tratamento de manutenção da vida. O resto fica para os oportunistas de plantão”, comentou ao ser contatado pelo Click Guarulhos. Completou: “Esta é a manifestação técnica de um cardiologista público e privado, em atividade há 40 anos. Formado em Medicina baseada em evidências”.

Quem está respondendo pela Secretaria da Saúde é o adjunto, Michael Rodrigues de Paula, enquanto não é definido um novo nome para o cargo. Segundo o prefeito Guti, não há pressa em tomar a decisão, porque a equipe está tendo bom desempenho. Resta saber qual será o posicionamento do novo secretário que vier a ser escolhido, se for médico, quanto à adoção ou não desses medicamentos que têm sido utilizados pelas cidades de Porto Feliz e de Porto Seguro.