Valdir Pinto da Silva é mais conhecido como “Valdir da Roda Center”, tal a sua ligação com a empresa, da qual foi funcionário ainda jovem. Ele conta como se tornou proprietário e fala também de sua atuação comunitária na ACE Guarulhos e no Rotary Club, no qual é um dos criadores da corrida beneficente Rotary Run.
Fotos: Elisvitrê Estúdio Fotográfico
Com que idade começou a trabalhar na Roda Center?
Com 17 anos, eu já tinha trabalhado em várias coisas. Trabalhava informalmente num mercadinho em São Paulo, quando meu irmão Joaquim, que já trabalhava aqui, me chamou para começar na Roda Center no dia 24 de janeiro de 1985, para ser ajudante dele, que era balanceador. Como eu trabalhava em São Paulo, dia 25 seria feriado. Joaquim disse que em Guarulhos não era. Argumentei que tinha me machucado, que estava com 5 pontos nas mãos. Ele retrucou, que não tinha a ver, que era para eu começar a trabalhar. Assumi, em 25 de janeiro de 1985, ganhando menos de um salário mínimo, que era menos de 100 dólares. Durante doze anos fui balanceador; depois, fui aprendendo outras coisas. Entregava tudo que ganhava para minha mãe. Mas, como sempre fui agitado, fazia outras coisas para ter algum dinheiro, e assim custear um mínimo de vída social: pegava roupas e calçados para vender, enchia o porta-malas do carro e me virava como podia. Quando era moleque, ajudei meu pai a vender caldo de cana, vendi amendoim no trem, doce na porta da escola. Comecei a trabalhar com 9 anos de idade. Mas meu primeiro emprego registrado foi na Roda Center.
Como empregado da Roda Center, ficou quantos anos?
Foram quase 20 anos. Fiquei quase um ano fora e depois voltei, ganhando menos do que antes.
Por que saiu?
Meus irmâos tinham uma oficina em São Miguel Paulista. O mais velho faleceu e o outro entrou em depressão. Pediram ao Joaquim para ir para lá ajudar, mas ele já era casado, tinha de sustentar a família. Não podia correr riscos. Então, fui eu, apresentei condições e aceitaram. Fui até bem-sucedido, incrementei a empresa, ampliei faturamento, mas acabei preferindo sair E pedi para voltar a trabalhar na Roda Center.
Como foi sua volta?
Quando pedi para voltar, o Luís Hayashi disse que o pai dele não me queria mais. Perguntei por que, se eu havia saído sem nenhum problema. Ele respondeu que não por problema, mas que eu havia aprendido a ser patrão e não conseguiria mais ser empregado. Insisti, porque nesse meio tempo minha esposa engravidou, tínhamos alugado uma casa. Disse a ele que me desse uma oportunidade e eles veriam que iria ser o melhor funcionário que poderiam ter. O pai aceitou, com uma condição: eu voltaria, mas ganhando apenas dois salários mínimos, sendo que quando saí ganhava dez salários. Mesmo assim, aceitei. E sou muito grato a eles, sempre: Mário, Luís, Lúcio e Laércio Hayash
E para sobreviver, ganhando tão pouco, como conseguiu?
Em seis meses, voltei quase ao patamar anterior, graças a comissões que ganhei com promoções que propus fazer, com participações em produtos em estoque e a outros ganhos que obtinha nos negócios por fora. Nunca tive uma falta, nem com atestado médico. E, fundamental: precisava ganhar caixinha dos clientes. Então, eu me desdobrava no atendimento, conquistava a simpatia deles e, com isso, tinha um reforço no salário. Aos domingos, ia vender carro na Feira do Automóvel do Anhembi, nunca me acomodei. E fui aprendendo outros serviços de oficina. Isso fortaleceu minha veia comercial, até porque quando meu filho nasceu, tinha intolerância ao leite materno. O leite em pó que tínhamos de comprar era caro. Eu tive de me virar e trabalhar duro para sustentar a família.
Daí até virar empresário, qual o passo decisivo?
Havia muitos serviços que os donos da Roda Center não queriam fazer, pois entendiam que poderiam gerar muita volta em garantia e outros fatores. Em comum acordo com eles, em 2005, aluguei o terreno na avenida Papa Pio XII e montei a mecãnica Estilo Autocenter. Combinei com os donos que quando alguém quisesse um serviço que a Roda Center não fizesse, a Estilo faria e pagaríamos uma participação.
Foi o primeiro passo para comprar a Roda Center?
Houve uma fase em que a Roda Center começou a ter problemas financeiros, mesmo tendo muito movimento. Chegava a atender 140 carros por dia, tinha atendimento com senha, quase 50 funcionários… Em 2008, eu já tinha conseguido comprar uma casa própria e vinha fazendo uma poupança. Eles me ofereceram para comprar a empresa. Mostrei interesse, mas o valor pedido era acima do que eu imaginava. Fiz uma contraproposta de valor e que fosse parcelado. De entrada eu teria R$ 50 mil. Eles recusaram. Então, usei a poupança para quitar o apartamento que havia comprado para morar. Uns meses depois, Luís perguntou se minha proposta estava de pé. Aí eu já não tinha a entrada para dar, pois tinha quitado o apartamento e ainda tinha feito dívida para reformar e mobiliar.
Como viabilizou a compra?
Nessa época, minha esposa tinha duas vans de transporte escolar. Somadas com o valor das linhas, seriam suficientes para duas parcelas. Obtive empréstimo de R$ 50 mil no banco para dar de entrada. E fiquei contando com o faturamento para quitar o restante. Nessa fase, a loja tinha produtos que eram comprados por mim e quando vendidos eu pagava 10% para a loja. Liguei para os fornecedores e pedi mais prazo para quitar. Com todas as manobras que tive de fazer, consegui quitar as parcelas com eles em dez meses. Restaram as outras dívidas, que faz pouco tempo que liquidei, graças a outros negócios que desenvolvi nesse tempo.

Um revés marcante…
Havia comprado apartamento no Park Club, financiado, mas quando calculei o gasto com reforma, resolvi vender. Minha esposa, Fátima, ficou muito triste, mas foi necessário. Ela, que sempre me dá suporte em todas as fases de nossa vida, entendeu que não havia outra saída, pois iríamos pôr em risco as finanças da empresa. Outro revés foi a quebra de uma locadora de veículos que respondia por mais de um terço do faturamento, o que nos criou um grande problema.
Ao ver a empresa chegar aos 50 anos, com presença marcante na cidade, o que mais te alegra?
Sem dúvida, é a satisfação dos clientes, ter famílias que já na terceira geração nos prestigiam, equipe que veste a camisa da empresa, poder gerar atualmente 37 empregos e, além disso, contar com inúmeros amigos que conquistei em todo esse tempo.
Também é marcante sua atuação social, no Rotary Club e na ACE Guarulhos. Fale um pouco dos motivos disso.
Eu entendo que a cidade me proporcionou chegar onde cheguei. No Rotary Club e na ACE, tenho oportunidade de buscar retribuir à população o que a cidade me deu. No Rotary, fui um dos idealizadores da Rotary Run, corrida que faz muito sucesso e que tem permitido ajudar vários projetos sociais importantes, como entidades filantrópicas e a reforma e estruturação de escolas públicas em comunidades carentes. Fui presidente e vice da Associação de Rotarianos de Guarulhos. Na ACE, são ações que ajudam a incrementar os negócios em Guarulhos, gerando mais empregos e benefícios para a população. É muito gratificante.

Uma mensagem a quem quer empreender…
Meu segredo é trabalhar muito, dar toda atenção aos clientes. Não é fácil, mas é correr atrás e chegar lá.

