Neide do Carmo Mantovani, uma vida dedicada ao trabalho social

Nem parece que Neide do Carmo Mantovani, presidente do Núcleo Beneficente Joana D’Arc, completou 80 anos de idade. São exemplares a disposição e a alegria que ela demonstra para dirigir a creche, cuja organização e limpeza são impecáveis.

Revista Guarulhos: Onde nasceu, quando e por que veio para Guarulhos?

Nasci em São Paulo e vim para Guarulhos, esta cidade que eu amo, quando era uma garota, porque meu pai se estabeleceu aqui, onde conheci gente maravilhosa, amigos generosos e onde foram criados meus filhos.

Quantos filhos?

Quatro: Carlos, psicólogo clínico; Leila, professora universitária; Fátima, advogada e Iara, que também é professora.

Como, quando e por que surgiu a Creche Joana D’Arc?

Muito antes de ela existir fisicamente aqui, trabalhei profissionalmente como cabeleireira e, nessa função, já fazia um trabalho social, atendendo às segundas-feiras gratuitamente mulheres carentes e suas crianças. Quis o destino, e credito isso às mãos de Deus, que eu viesse a reencontrar aqui no Jardim São Paulo mães que eu atendia nesse trabalho anterior, que incluía fornecimento de refeições, roupas e calçados em atendimentos que eram feitos aos sábados. Parece que havia um ímã a atrair uns aos outros.

Até que ponto a doutrina espírita que a senhora professa está ligada a esse trabalho assistencial?

Para mim, como pessoa, tem muito a ver, porque muito antes desta obra, pelos princípios da doutrina, eu sempre desenvolvi um trabalho assistencial. Para criar a instituição, eu recebi orientação mediúnica psicografada da necessidade de fundação de uma obra.

Quando o Núcleo Beneficente Joana D’Arc foi fundado?

Embora a atuação social já existisse antes, a instituição foi fundada em 1982. Portanto, há 32 anos.

Por que o nome Joana D’Arc?

O nome fez parte da orientação psicografada que recebi de que ela, que teve atuação marcante na história da França, seria quem iria zelar pela obra social que eu deveria criar.

A quem pertence este local?

Esta obra abençoada foi construída com recursos do Projeto Cura, na primeira gestão do prefeito Néfi Tales, e concedidos legalmente à instituição. A esposa dele, Laura, era minha cliente no salão e conhecia a ação social que desenvolvíamos pelos mais necessitados.

Quais serviços a instituição presta à comunidade?

Através de convênio com a Secretaria de Educação do município, mantemos a creche para 163 crianças de 0 a 3 anos em período integral. Quando completam 3 anos, elas têm de ir para a escola. Atendemos no total 210, porque no dispensarial temos crianças maiores, de até 10 anos, que recebem reforço escolar, alimentação e outras atividades, incluindo uso de computadores, evitando que fiquem nas ruas aprendendo o que não é bom e assim as mães podem trabalhar tranquilas. Para isso, contamos com ajuda de muitos voluntários. Outro trabalho é uma orientação jurídica que damos a famílias de bolivianos que vêm residir aqui perto e que não têm documentação para matricular as crianças. Minha filha Fátima é voluntária na obra e ajuda nesse sentido. E temos o Programa Mãe Aconchego, com foco em gestantes, muitas das quais adolescentes. Para participar, é obrigatório fazerem acompanhamento médico; no sétimo mês, elas recebem o enxoval para o bebê, com peças que recebemos em doação. Muitas dessas crianças, que amparamos desde a gestação, depois vêm ficar na creche.

Quantas mulheres são atendidas?

Em média, umas 70 ou 80 por ano. Todos os meses há entrega de enxovais.

O convênio é suficiente para manter a casa?

De jeito nenhum! Essa verba vem para complementar, ajuda muito, mas não é suficiente, nem de longe, para nossas necessidades. Dá para pagar os salários dos funcionários que atuam na creche, mas mesmo para férias, 13º, INSS, encargos e muitas outras despesas, precisamos do apoio da comunidade.

Como se dá esse apoio?

Temos de fazer de tudo para manter a obra. Promovemos um jantar em maio e outro em novembro. Quem prepara os pratos é a Cantina D’Elia, especializada em massas e que nos ajuda desde os primórdios, quando ainda era o senhor D’Elia, pai do Ettore, que fazia as refeições para as crianças. Temos o bazar, que funciona o ano todo, com roupas em bom estado doadas, que vendemos a preço simbólico, mas isso ajuda a pagar as contas. E há doações que as pessoas fazem e que são fundamentais.

Há projetos da casa beneficiados pelo Fumcad (Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente)?
Como estamos muito ligados à Educação, ainda não tivemos condições de buscar nos inteirar sobre o que seria necessário para ter algum amparo na área da assistência social.

Tem planos de expansão do trabalho desenvolvido?

Desejamos ampliar o atendimento aos jovens, para que possam ter atividade aqui até uns 14 ou 15 anos, quando já teriam orientação profissional e mais condições de enfrentar o mundo. São crianças muito queridas, que acompanhamos desde pequenas e queremos poder atendê-las por mais tempo.

Como as pessoas podem contribuir?

São diversas formas. Precisamos de todo tipo de ajuda. Podem ligar para 2404-3052 e vir nos visitar para conhecer de perto nosso trabalho: rua Taguaí, 33B, Jardim São Paulo.

O Núcleo tem contribuintes mensalistas?

Não. Preferimos não criar esse tipo de contribuição para que ninguém confunda o atendimento espiritual que nosso Centro dá a centenas de pessoas todas as semanas. Uma coisa não tem a ver com a outra. Nossa obra não pode se desvirtuar dos ideais que vislumbramos ao iniciá-la. A cada momento, a cada necessidade, conseguimos os recursos para levar nosso trabalho adiante. Isso é o que realmente importa.

Pode citar um fato muito marcante pelo aspecto positivo e outro que tenha sido negativo?

Positivo, eu tenho. Eu não me deixo levar pelo lado negativo. Creio que aquilo que Deus está nos dando oportunidade de vivenciar, cabe a nós buscar solução. Com satisfação, tenho muitos fatos positivos a citar. Por exemplo, uma criança que entrou aqui no berçário e saiu daqui em idade escolar e depois eu a encontro nos seus 16 ou 17 anos em um emprego maravilhoso, onde ele é estimado e respeitado, por todas as qualidades que ele adquiriu durante o tempo em que esteve conosco, pela educação, respeito aos valores morais e humanos. Esse é um dos melhores presentes que eu poderia receber. Posso mencionar o David, que quando chegou aqui não falava, pois os avós que o criavam eram surdos-mudos. Já adulto, ele veio nos visitar, procurando a Tia Neide. Aos 32 anos, é engenheiro na Volkswagen e todos os anos vem trazer presentes para as crianças. Quando ele estava conosco, o Jardim São Paulo não tinha nada; a creche ajudou muito o bairro a obter pavimentação, iluminação, linhas de ônibus. Tem também o Alexandre, que atua em publicidade e marketing, graças à formação pessoal que recebeu da nossa obra social.

O que quer deixar como mensagem?

Apenas agradecer a Deus, que é tão bom, por tudo que nos proporciona; aos voluntários e a todos que contribuem de um jeito ou de outro para manter nossa instituição. E que nunca nos abandonem, prestigiem os jantares beneficentes, pois a ajuda de todos é fundamental.